Clarissa Sadock, CEO da Comerc Energia, afirma em artigo cedido à CNN Infra que o encarecimento da energia no Brasil não decorre da falta de oferta, mas de parâmetros conservadores do modelo de precificação. Reservatórios em níveis adequados e expansão de fontes renováveis coexistem com preços acima da realidade operacional do sistema.
Segundo a análise, o problema principal está na aversão ao risco de escassez hídrica, medida pelo CVaR (Conditional Value at Risk). O modelo atual atribui peso elevado aos cenários críticos, levando a um despacho mais conservador e a preços mais altos mesmo sem risco efetivo de desabastecimento.
Essa distorção funciona como se o sistema operasse em permanente contingência, afirma a autora. O custo queda quando se reduz a velocidade em uma estrada segura, explica, mas com baixa probabilidade de desabastecimento o preço segue elevado.
Distorções adicionais envolvem mudanças de premissas que elevam o custo. Reduções no despacho térmico deveriam reduzir preços, mas, em algumas semanas, houve alta. A inclusão no modelo de uma usina hídrica de pequeno porte para entrar no longo prazo gera aumento relevante de preços.
A ausência de convergência do modelo computacional gera incerteza sobre o PLD e fragilidades na governança e na qualidade dos dados de entrada. Casos recentes mostram impactos de até 80 reais por megawatt-hora quando se considera no modelo uma usina hídrica de menos de 50 MW prevista para 2030.
Essa distorção aponta limitações na projeção futura e na incorporação de premissas, resultando em volatilidade maior para o PLD. O efeito é sentido no mercado livre e na economia.
No Mercado Livre de Energia, que responde por cerca de 95% do consumo industrial, o impacto é a redução de liquidez, menor oferta de contratos de longo prazo e aumento do custo de energia. O cenário compromete a previsibilidade de custos para as empresas.
Como saída de curto prazo, o CMSE pode revisar parâmetros. Entre as propostas, está a troca do CVaR (15,40) pelo (15,30), com simulações indicando queda superior a 30% nos preços, sem comprometer a segurança do sistema.
O ajuste manteria os níveis de reservatórios mesmo em cenários adversos, segundo análises. Ao longo dos anos, a tendência tem sido elevar a aversão ao risco, o que aumenta o custo sem reduzir efetivamente o risco.
O debate sobre o modelo de precificação envolve o impacto na competitividade econômica. Energia mais cara reduz margens, desestimula investimentos e empurra a inflação, em um país com matriz renovável e mercado livre em expansão.
A autora ressalta que reduzir a segurança não é o objetivo, mas calibrar o equilíbrio entre risco e custo. O ONS tem como missão otimizar a operação com o menor custo possível, e a legislação busca modicidade tarifária aliada à segurança energética.
A recomendação é obter decisões baseadas em dados, com governança setorial atuante e mecanismos já disponíveis para reequilibrar o sistema. O momento de agir, segundo Clarissa Sadock, é agora.
Clarissa Sadock é CEO da Comerc Energia.
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