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Agricultura que gera produção, mas não captura valor econômico

Produtores alcançam safras recordes, mas queda de preços e custos elevados reduzem a parcela de valor que fica na fazenda, exigindo organização e gestão de risco

Soja no Brasil: expansão de área e ganhos de produtividade, mas queda no preço dos grãos - (crédito: Emater-DF)
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Na última safra, um produtor do Centro-Oeste colheu mais soja por hectare, com uso de sementes melhores, manejo de solo preciso e monitoramento da lavoura. Mesmo assim, a margem encolheu por causa da queda de preços internacionais e do aumento de custos.

Entre 2000/01 e 2022/23, a produção brasileira de grãos mais que triplicou, segundo a Conab, saindo de cerca de 100 milhões para ~323 milhões de toneladas. A soja expandiu área e produtividade, apoiada por tecnologia e manejo, mas os ganhos reais diminuíram.

Estudos do Cepea/USP apontam que, em safras recentes, a queda nos preços e o encarecimento de insumos comprimem o ganho do produtor. Assim, o valor gerado na lavoura nem sempre retorna para quem produz.

Essa distância fica mais evidente quando há volatilidade de preços e insumos mais caros. O produtor assume riscos, mas retém parcela restrita do valor final, mesmo com alta produtividade.

O sistema produtivo é eficiente em volume, porém desigual na distribuição de valor ao longo da cadeia. Cadeias abertas e globalizadas favorecem elos com maior escala e poder de mercado.

Essa realidade se acentua quando o produtor entrega qualidade, mas não controla o processamento que transforma a matéria-prima em valor. Café, cacau, leite, frutas e hortaliças enfrentam esse desequilíbrio.

Paralelamente, a agricultura brasileira se mantém competitiva no mercado global, com safras recordes. No entanto, muitos produtores veem rentabilidade pressionada pela combinação de preços baixos e custos elevados.

Para reverter o quadro, é necessário ampliar a organização de produtores, buscar diferenciação e reduzir vulnerabilidades. Cooperativas e redes de comercialização ganham relevância nesse contexto.

Caminhos e ações

Fortalecer associativismo, alianças produtivas e plataformas de venda pode ampliar a captura de valor. Avanços em rastreabilidade, origem e regularidade de oferta ajudam a obter preço maior.

Outra direção é avançar em gestão de risco e estabilidade de renda, reduzindo exposição a volatilidade cambial e climática. Mercados de carbono, bioinsumos e biomateriais surgem como oportunidades.

A transição exige regras claras, assistência técnica e estratégias consistentes de inserção nos mercados. Produzir mais continua necessário, mas não basta sem distribuição mais equilibrada de valor.

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