No futebol, posse de bola não garante vitória. No Brasil, o mesmo ocorre no mercado de gás natural: produção em alta não se traduz em oferta efetiva no mercado. Dados mostram ganhos expressivos na reinjeção desde 2015, com o avanço das grandes plataformas do pré-sal.
Entre 2018 e 2022, a disponibilidade de gás caiu de 58,8 para 52 milhões de m³/d, enquanto a reinjeção subiu de 36,3 para 68 milhões de m³/d. Em janeiro deste ano, a disponibilidade recuou para 44,6 milhões de m³/d, e a reinjeção atingiu 101 milhões de m³/d.
Essas dinâmicas refletem objetivos técnicos, como manter pressão de reservatórios e otimizar produção de petróleo, além de soluções para limitações de infraestrutura. Contudo, a consequência no mercado é a redução da oferta doméstica e da liquidez.
A segunda questão central é econômica: reservas não reduzem preço por si só. O custo está na disponibilidade efetiva de moléculas, infraestrutura de escoamento e competição. Mesmo com mais gás no subsolo, pouca oferta reduz concorrência.
Em maio, a Petrobras anunciou reajuste médio de 19,2% no preço do gás natural às distribuidoras, feito com base em Brent, câmbio e Henry Hub. A prática contrasta com a narrativa oficial de ampliar a oferta e melhorar a competitividade.
Quando a reinjeção é alta e os preços sobem, o gás brasileiro permanece menos competitivo para a indústria. Parte significativa da produção continua fora do mercado, limitando a formação de preços e a entrada de novos agentes.
O mercado livre de gás cresce, estimulado pela abertura regulatória. Organizações indicam movimento superior a 13 milhões de m³/d em 2025, mas três players já concentram 68% dos contratos até setembro de 2025, evidenciando concentração apesar da abertura.
A diferença entre produção abundante e oferta efetiva afeta setores como química, fertilizantes, vidro, siderurgia, papel e alimentos, que dependem do gás como insumo. Preços elevados reduzem margens e investimentos, pesando na competitividade industrial.
O Brasil tem reservas, produção em expansão e demanda potencial. No entanto, para realizar ganhos estruturais, é preciso transformar a abundância geológica em oferta real e preços competitivos, regularidade de fornecimento e profundidade de mercado.
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