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Citadel compra carteira da Situational após perdas com ações de IA

Especialista afirma que perdas do fundo de Leopold Aschenbrenner expõem riscos da alavancagem, e não o fim dos investimentos em IA

Leopold Aschenbrenner, ex-pesquisador da OpenAI e fundador do fundo Situational Awareness, focado em investimentos ligados ao ecossistema da inteligência artificial | Reprodução/Instagram
Leopold Aschenbrenner, ex-pesquisador da OpenAI e fundador do fundo Situational Awareness, focado em investimentos ligados ao ecossistema da inteligência artificial | Reprodução/Instagram

O fundo de hedge Situational Awareness, especializado em investimentos ligados à inteligência artificial e criado pelo ex-pesquisador da OpenAI Leopold Aschenbrenner, vendeu, nesta sexta-feira (31), a maior parte de sua carteira de ações para a Citadel, de Ken Griffin, após sofrer fortes perdas com papéis de tecnologia. A operação ocorreu depois de uma sequência de […]

O fundo de hedge Situational Awareness, especializado em investimentos ligados à inteligência artificial e criado pelo ex-pesquisador da OpenAI Leopold Aschenbrenner, vendeu, nesta sexta-feira (31), a maior parte de sua carteira de ações para a Citadel, de Ken Griffin, após sofrer fortes perdas com papéis de tecnologia.

A operação ocorreu depois de uma sequência de quedas nas ações de empresas associadas ao crescimento da inteligência artificial, que atingiram fundos de investimento com posições concentradas no setor.

Entre os ativos mantidos pelo Situational estavam ações de empresas como Broadcom, Intel e CoreWeave.

Por que o fundo sofreu perdas?

Desde sua criação, em 2024, o Situational Awareness ganhou destaque entre investidores por apostar fortemente no avanço da inteligência artificial. A estratégia deu resultado inicialmente: o fundo acumulou retorno de 439% entre o começo do ano e o fim de junho.

O cenário mudou em julho, quando ações ligadas à inteligência artificial passaram por uma forte correção. O fundo chegou a acumular uma queda de aproximadamente 67% no mês, segundo o Wall Street Journal, especialmente em empresas beneficiadas pelo aumento da demanda por chips, infraestrutura de computação e serviços de inteligência artificial.

Além disso, muitos fundos haviam construído posições semelhantes, apostando que o crescimento da IA continuaria acelerado. Quando o movimento de alta perdeu força, a reversão das apostas ampliou a pressão sobre esses investidores.

Segundo Márcio Wu, professor de Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), o impacto sobre o Situational Awareness foi ampliado pelo grau de alavancagem adotado pela gestora.

“Era um fundo bastante alavancado, em quatro ou cinco vezes. Neste ano, em especial, tivemos um movimento muito volátil nas empresas de tecnologia, principalmente naquelas ligadas à inteligência artificial. Vimos empresas subindo 10%, 15% ou 20% em um único dia, algo bastante assustador para o investidor comum”, explicou.

“Antes dessa recuperação, porém, essas empresas já vinham sendo bastante penalizadas, com quedas expressivas. De certa forma, tudo isso agravou a situação do fundo. Acredito que esse episódio seja mais um problema específico da gestão, pela alavancagem e pelo nível de risco muito elevado”, acrescentou.

O papel das chamadas de margem (margin calls)

Um dos fatores que ajudaram a acelerar a necessidade de venda do Situational Awareness foi o uso de alavancagem — uma prática comum entre fundos de hedge.

📈A alavancagem ocorre quando um fundo toma dinheiro emprestado de bancos e corretoras para aumentar o tamanho de suas posições. A estratégia permite ganhos maiores quando os investimentos sobem, mas também amplia as perdas quando o mercado se move na direção contrária.📈

Para aumentar a sua exposição a algumas empresas de IA, o fundo tomou recursos de bancos e corretoras. Na outra ponta, realizou vendas a descoberto de empresas que julgava serem prejudicadas pela IA.

📈Quando você realiza uma venda a descoberto, você toma ações emprestadas e as vende no mercado, ganhando com a queda do papel para recomprá-lo depois mais barato 📈

Em vez disso, nas últimas semanas, tanto as posições compradas quanto as posições vendidas a descoberto da Situational registraram perdas simultaneamente.

Isso ocorreu porque a desvalorização das ações ligadas à inteligência artificial prejudicou as posições compradas do fundo. Ao mesmo tempo, os papéis utilizados nas operações de venda a descoberto se valorizaram. Como consequência, o fundo foi alvo de chamadas de margem (margin calls).

“À medida que os recursos tomados de corretoras e bancos se deterioram, ocorre uma chamada de margem, ou seja, uma exigência de garantias adicionais”, explicou Wu.

Caso o fundo não consiga aportar novos recursos, ele pode ser obrigado a vender ativos para reduzir sua exposição e devolver parte do dinheiro emprestado.

No caso do Situational Awareness, fontes disseram à agência Reuters que o fundo estava sob pressão para levantar novo capital com investidores ou liquidar sua carteira pública. A opção escolhida foi vender a maior parte das ações para a Citadel.

Não está claro se o fundo recebeu chamadas de margem antes do acordo com a Citadel, mas a estrutura da operação envolveu justamente a transferência da parcela da carteira que havia sido financiada com recursos emprestados por corretoras.

Venda não significa saída total da IA

Após a transação, o Situational Awareness deve permanecer com uma carteira estimada em cerca de US$ 10 bilhões, composta por ações e investimentos privados. O fundo não vendeu sua participação na Anthropic, uma das principais empresas privadas de inteligência artificial.

A Citadel assumiu a parcela da carteira pública financiada por alavancagem. A gestora de Ken Griffin administra cerca de US$ 71 bilhões em ativos e é considerada uma das maiores e mais lucrativas empresas de fundos de hedge do mundo.

Para Wu, a operação também coloca frente a frente dois modelos diferentes de gestão.

“De um lado, há uma gestão mais tradicional e experiente, que tenta separar a euforia dos fundamentos e adotar uma postura mais conservadora. Do outro, o Situational Awareness foi administrado por alguém que nunca havia gerido um fundo e ainda não havia sido calejado pelo mercado financeiro. São dois perfis de gestão diferentes”, avaliou.

Crise atinge fundos expostos à IA

O caso do Situational ocorre em meio a uma onda de perdas entre fundos de hedge globais com exposição ao setor de IA.

Segundo o Goldman Sachs, fundos long-short focados em ações asiáticas acumulavam queda média de 18,6% em julho até o dia 28. A instituição apontou que fundos especializados em seleção de ações passaram a reduzir posições em empresas de inteligência artificial, vendendo ativos comprados e encerrando posições vendidas.

O movimento mostra como a forte valorização das empresas de IA criou uma concentração de investimentos no setor. Quando as expectativas começaram a ser ajustadas, fundos altamente expostos e alavancados ficaram mais vulneráveis a perdas rápidas.

Um dos principais questionamentos do mercado, segundo o especialista, envolve a capacidade das empresas de transformar os elevados investimentos em inteligência artificial em receitas e lucros.

“É muito simples entrar atualmente no ChatGPT ou no Gemini e fazer uma pesquisa ou interagir com a inteligência artificial. De um lado, porém, as empresas investem grandes somas para viabilizar essas ferramentas. Do outro, a pergunta é: o que o usuário oferece em troca? Como essas companhias estão ganhando dinheiro com ele?”, questionou.

“Essa é a grande pergunta do mercado: como essas empresas transformarão os investimentos em receitas capazes de gerar lucratividade e retorno aos acionistas? Algumas já estão conseguindo fazer isso, enquanto outras ainda demoram e, consequentemente, continuam queimando caixa e recursos”, acrescentou.

O episódio também reacende um debate no mercado: se a atual onda de investimentos em inteligência artificial representa uma transformação estrutural da economia ou se parte da valorização das empresas foi impulsionada por expectativas excessivamente otimistas.

Para o especialista, a tecnologia não representa apenas uma tendência passageira, mas os investidores devem ter cautela diante da valorização acelerada das ações.

“É uma área que ainda tem muito a entregar. Vários investimentos foram feitos, principalmente nos últimos anos, e eles exigem um período de maturação. São aportes realizados hoje para que os frutos comecem a aparecer daqui a dois ou três anos. Na minha opinião, é um setor bastante promissor, e a revolução da IA no cotidiano é inegável”, declarou.

“Não acredito que seja apenas uma tendência ou uma espuma. A inteligência artificial realmente mudará muitas coisas e já está mudando. É necessário, porém, tomar cuidado ao falar de investimentos. Muitas vezes, as ações sobem, as pessoas não querem perder a alta e acabam comprando nos preços máximos, quando os papéis já estão muito valorizados. Depois, surgem movimentos de correção muito fortes, como vimos nos últimos dias”, concluiu.

*Com informações da Reuters

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