Marcelo Médici desembarca no Rio com o monólogo Dona Lola, peça que já lotou sessões em São Paulo. O ator encena uma mulher de 70 e poucos anos que, entre crochê e receitas de família, se vê alvo de curiosidade e da popularização repentina na internet. O espetáculo tem quase 80 minutos e marca uma reflexão sobre envelhecimento em meio à cultura de tela.
A produção mantém parceria de longa data entre Médici e o diretor Ricardo Rathsam. O cenário evidencia a vida simples da protagonista e, ao mesmo tempo, expõe a complexidade de sua história diante de um público que observa a validação digital. A narrativa se desenrola a partir de situações cotidianas que ganham leitura sociológica.
O enredo nasce de um sucesso na internet: um vídeo registrado pela neta de Lola impulsiona a ideia de apresentá-la ao público teatral. Na estreia, as duas melhores amigas de Lola não aparecem, transformando o que seria uma apresentação de variedades em um ritual de revelação de segredos. A ausência das amigas abre espaço para uma visão crua sobre amizade, hipocrisia e verdade.
Elenco e performance
Participam como as amigas que não chegam Tony Ramos e Antonio Fagundes, cujas interpretações reforçam a distância entre a solidão de Lola e o mundo em busca de engajamento. O recurso de vozes distintas funciona como contraponto ao centro da montagem, mantendo Lola exposta e vulnerável.
Médici trabalha cada detalhe do desempenho, com gestos, olhares e pausas que revelam a autenticidade da personagem. A montagem valoriza a construção cênica ao evitar a caricatura, buscando uma identificação direta com o público. O texto equilibra humor e drama, sem ridicularizar a protagonista.
Temas e leitura crítica
A peça critica a obsessão por atenção e o etarismo, mostrando como o teatro e a cultura costumam privilegiar influenciadores e repertórios menos profundos. Lola surge como um contraste: uma personagem com história, repertório e voz própria, que questiona o que tem sido consumido pelo público.
A estética remete a tradições teatrais que valorizam o “tipo brasileiro” para expor contradições sociais, conectando referências de passato a uma leitura contemporânea. A encenação utiliza linguagem direta para discutir envelhecimento sem estereótipo, mantendo o foco na experiência de Lola.
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