Fernando Viotti comenta o novo álbum de Paulo Santos, integrante do Uakti, que chega aos ouvidos como continuação da trajetória do percussionista de mais de cinco décadas. O trabalho, intitulado ÁraTekoha, expõe uma linguagem que não se alia ao passado, mesmo após o dissolvimento do grupo.
ÁraTekoha é um projeto sonoro duplo em que a ideia central é libertar o ouvinte da repetição e abrir espaço para fantasias e invenções sonoras. O título explica a proposta: Ára significa tempo ou época, e Tekoha o lugar onde se vive o teko, o modo de ser, conectando tempo, lugar e modo de existência.
A sonoridade natural aparece já na primeira audição, sem reduzir-se a uma simples coletânea de sons da natureza. Faixas como Sementes intergalácticas e Ar Ára convidam o ouvinte a transitar entre a selva e a cidade, criando uma experiência de presente aguda e imersiva.
Em Ovo, a linha melódica germina harmonia cada vez mais elaborada, induzindo a percepção de um outro ser, atento a sensações antes latentes. A obra funciona como peça de teatro experimental, com deslocamentos entre memória, ambiente e narrativa, lembrando thrillers da década de 1970.
Paulo Santos, reconhecido pela forma lúdica de abordar a música, entrelaça o som informativo e o redundante para promover invenção sonora. Ao mesclar referências, ele propõe uma ponte entre reconhecimento e descoberta, convidando o ouvinte a percorrer caminhos indeterminados.
A crítica ressalta que a experiência sonora transforma a atenção do ouvinte, aproximando-o de mundos internos e de realidades externas ao mesmo tempo. ÁraTekoha é apresentada como trilha sonora para o existir, no presente, segundo a leitura de Viotti.
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