O grupo siciliano Lero Lero lança seu álbum de estreia com uma abordagem inusitada: recuperar rimas surrealistas e canções tradicionais de Sicília a partir de arquivos históricos. O objetivo é mostrar que o repertório musicológico vai além da visão romântica da ilha. A estreia ocorre na cena de Palermo, cidade que inspira o projeto.
Formado por Alessio Bondì (vocais), Donato Di Trapani (synth) e Fabio Rizzo (guitarra), o trio investiga gravações de campo do século XX. A ideia é resgatar vozes do passado que, muitas vezes, estavam distantes de quem as ouviu e das pessoas que as produziram no cotidiano social.
O processo envolve decodificação de letras e metáforas, sem reproduzir fielmente os textos. A proposta é entender a tradição oral e reconstrui-la com tecnologia e microtons, criando um som contemporâneo que dialogue com o presente. O resultado combina elementos eletrônicos com formas tradicionais sicilianas.
O álbum utiliza a guitarra palermitana de Rizzo, adaptada para acompanhar tonalidades microtonais. Em faixas como Franculina e Aieri Ci Passava, o instrumento se insere em camadas de baixo e tambor, gerando tensões e ironias que dialogam com o material ancestral.
Contexto
A produção de Lero Lero emerge em meio a debates sobre a representação do sul da Itália. Enquanto algumas leituras culturais simplificam a região, o grupo busca uma visão que inclua histórias diversas, de trabalhadores a comunidades tradicionais, sem reduzir a identidade a imagens de cartão-postal.
A capa do álbum, assinada pela artista Giulia Parlato, visualiza o outro lado dessa tradição: um crocodilo mítico de Palermo, surgido no mercado da Vucciria, simbolizando a presença histórica que pode romper a imagem polida da cidade.
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