O romance de grande sucesso do escritor haitiano-canadense Thelyson Orelien deixou a disputa pelo Prêmio Goncourt, um dos mais prestigiados prêmios literários da França. Os organizadores anunciaram a decisão nesta sexta-feira (25), após acusações de que o autor teria recorrido à inteligência artificial para escrever a obra.
Orelien negou ter usado IA para escrever “C’était Ça ou Mourir” (“Era Isso ou Morrer”), enquanto as alegações desencadearam um debate sobre raça, mérito literário e originalidade que agitou o meio literário francês.
As acusações sobre o uso da IA foram feitas nesta semana por uma conta pouco conhecida no X chamada “Balance ton Claude”. O ensaísta Samuel Fitoussi posteriormente assumiu a autoria da conta, afirmando que a administrava junto com outras pessoas não identificadas.
As acusações sobre uso de IA foram seguidas por reportagens de que Orelien havia cometido plágio em obras anteriores. O jornal La Presse afirmou que um conto de Orelien, de 2012, havia plagiado trechos de um livro do autor francês Louis Pauwels, enquanto um artigo de opinião de 2013 havia sido copiado do jornal The Philippine Star.
Orelien ainda não se pronunciou sobre essas acusações.
A Academia Goncourt, com sede em Paris, afirmou ter tomado conhecimento das acusações relacionadas ao uso de IA e ao plágio e decidiu retirar o romance de Orelien “para preservar a integridade do Prêmio Goncourt e da Academia, cujo papel central é promover e homenagear a literatura escrita por mulheres e homens”.
A Academia afirmou que espera que sua decisão demonstre que se opõe totalmente à “criação de textos gerados com o auxílio da IA”, acrescentando que não fará mais comentários antes de 6 de outubro, quando anunciará sua lista de finalistas.
O romance de estreia do autor conta a história de um imigrante haitiano que viaja para o norte pela América Latina antes de chegar ao Canadá. A obra já ganhou diversos outros prêmios literários e deveria ser traduzida para vários idiomas.
“Sempre amei criar e escrever, não vejo por que recorreria a uma máquina”, disse Orélien ao jornal francês Libération. Ele acrescentou que está “montando um dossiê” com seus editores para provar que escreveu a obra ele mesmo.
Após as acusações, a Grasset, editora do livro na França, emitiu um comunicado “contra quaisquer comentários maliciosos que afirmem categoricamente que o livro foi gerado ou escrito por IA, o que fere profundamente o escritor”.
O “Balance ton Claude” afirmou que a análise de trechos do romance pela ferramenta de detecção de IA Pangram mostrou que a obra “foi escrita quase inteiramente por inteligência artificial”. Alguns especialistas afirmam que a confiabilidade das ferramentas de detecção de IA é questionável.
(Com informações da Reuters e AFP)
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