- Chapal Bhaduri, conhecido como Chapal Rani, foi a mais proeminente “rainha” do jatra, tradição teatral ambulante do Bengala, na metade do século XX.
- O jatra era encenado por homens que atuavam papéis femininos, chamados purush ranis, em shows populares em áreas rurais.
- Nascido em 1939, em Calcutá, Bhaduri iniciou a carreira aos 16 anos, destacando-se por interpretar rainhas, cortesãs, deusas e madames de prostíbulo com desenvoltura.
- A carreira entrou em declínio quando mulheres passaram a atuar no palco, reduzindo espaço para intérpretes de papéis femininos masculinos; ele enfrentou rejeição em algumas apresentações.
- Hoje, aos 87 anos, Bhaduri vive em casa de repouso; sua vida está documentada em filmes, exposições e no livro Chapal Rani: The Last Queen of Bengal, de Sandip Roy.
Chapal Bhaduri, conhecido como Chapal Rani, foi a principal estrela masculina da jatra, uma tradição itinerante de teatro popular no Bengal do século XX. Na época, atores homens encenavam papéis femininos, mesmo em uma arte de grande alcance entre comunidades rurais e urbanas.
Na biografia apresentada no livro Chapal Rani: The Last Queen of Bengal, o autor Sandip Roy revisita a trajetória de Bhaduri desde o estrelato à obscuridade, destacando um universo onde o gênero era, muitas vezes, questão de encenação. Sua carreira se tornou símbolo de uma era em transição.
Nascido em 1939, no norte de Calcutá, em meio a artistas, Bhaduri iniciou a atuação aos 16 anos. Ele incorporou damas, cortesãs, deusas e madames de prostíbulo com presença cuidadosa, usando figurinos que misturavam improviso e técnica.
Seus trajes eram construídos para criar a silhueta feminina, recorrendo a materiais simples como trapos e, depois, esponja. O trabalho de maquiagem era parte central do processo de transformação que ele levou a sério.
Em cena, as performances de Bhaduri não eram meras comédias; eram experiências imersivas, carregadas de emoção. Em um circuito em que o trabalho com personagens queer era consumido como ridicularização, ele transmitia peso e verossimilhança.
Segundo Roy, Chapal se tornou uma mulher em cena e executou seus papéis com coragem e honestidade, rompendo com o estigma que cercava a expressão de identidade na época.
Fora dos palcos, a vida privada de Bhaduri teve complexidades. Embora não tenha se assumido publicamente como gay, recebeu cartas de afeto e propostas de relacionamentos de fãs, mantendo relações duradouras ao longo de mais de 30 anos.
O declínio da carreira não veio de um único evento, mas de mudanças na indústria. À medida que mais mulheres surgiam no palco, o público rejeitava atores homens que faziam papéis femininos, desestruturando a tradição da jatra.
Nos anos finais dos 1960 e início dos 1970, os artistas conhecidos como reis da jatra com bigode passaram a ser deslocados, conforme a audiência se acostumou a ver intérpretes do sexo feminino. Bhaduri enfrentou essa transformação direto.
Diversos colegas da época acabaram em situação de pobreza após a redução de oportunidades, com alguns seguindo carreiras distintas ou buscando trabalho em outras áreas. Bhaduri, porém, continuou encontrando formas de sobreviver.
Nos últimos anos, houve retorno de visibilidade. Kaushik Ganguly o chamou para atuar em seus filmes, e, ainda em 1999, Naveen Kishore registrou a vida do artista em filme e exposição, ajudando a apresentar Chapal a novas gerações.
O legado de Bhaduri também inspira debates sobre identidade e memória histórica no arte performativa indiana, especialmente em relação aos arquivamentos de figuras queer ou marginais. Roy descreve-o como um sobrevivente queer.
Hoje, aos 87 anos, Chapal Bhaduri vive em um local de repouso próximo de sua antiga morada familiar, lidando com questões de saúde. O registro de sua vida por meio de filmes, mostras e o livro recente oferece uma janela para saber por que algumas histórias ficam e outras se perdem.
A trajetória de Chapal Rani revela uma época em que a jatra mobilizava grandes plateias, mas onde o reconhecimento formal nem sempre acompanhava o talento. Sua história permanece como referência de resistência, talento e transformação.
Entre na conversa da comunidade