- A artista Roni Horn, de setenta anos, lança a exposição Seizure of Hope em Hauser & Wirth, em Londres, após ter sido retirada de um voo nos EUA por não ceder mais ao assento.
- A mostra reúne oitenta desenhos em grafite suave, com a frase repetida “I am paralysed with hope” e espaços entre as molduras que criam lacunas de significado.
- O conjunto inclui também uma escultura de vidro sólido em forma de cubo, inspirado na ideia de um buraco que desaparece, título derivado de Bertolt Brecht.
- Horn diz que a repetição, o espelhamento e a ambiguidade definem seu trabalho, que trabalha o horror e a esperança diante de crises políticas e pessoais.
- Em entrevista, a artista comenta um incidente passado em Islândia com a motocicleta que caiu em um lago, lembrando que, mesmo diante de adversidades, sente-se “sortuda” e busca manter a esperança.
Roni Horn, artista de 70 anos conhecida por esculturas que parecem sólidas e líquidas, chega a Londres com a exposição Seizure of Hope, na Hauser & Wirth. A mostra acontece após uma sequência de acontecimentos marcantes na carreira e na vida da artista.
Recentemente, Horn teve de descer de um voo nos EUA, antes da decolagem, após um desentendimento com um comissário de bordo. Segundo relatos, a artista pediu que o assento permanecesse na posição mais rígida possível e foi removida da aeronave. Ela seguiu viagem somente após registrar o ocorrido às autoridades locais.
De volta a Maine, onde mora, Horn interrompeu parte da turnê europeia para retornar aos Estados Unidos. Em seguida, partiu para Londres, onde inaugurou a exposição na Savile Row. A mostra reúne 80 desenhos executados com grafite suave em suporte de papel.
Seizure of Hope em Londres
Os desenhos repetem a frase escrita à mão: I am paralysed with hope. As obras exploram pausas entre molduras, lacunas e elipses, sugerindo que o significado escorre entre as margens. A instalação é descrita pela artista como intuitiva, com foco na escala e no tempo de cada peça.
Entre os trabalhos, há uma peça de vidro moldado que lembra gelo em estado sólido. O título da peça comenta o vazio que surge quando o sólido parece desaparecer, oferecendo uma leitura ambígua sobre a matéria e a percepção. O vidro é produzido a partir de moldes e resfriado por meses.
A curadoria ressalta que Horn trabalha com duplicação, repetição e deslocamento como constantes. A artista descreve a série como uma expressão de ansiedade contida, conectando o tema ao momento político e social dos últimos anos.
Os traços do desenho, com toques de humor, contrastam com o tom melancólico de muitas obras. Horn explica que o humor é essencial para não transformar o trabalho em denúncia única, mantendo o espaço para o leitor interpretar.
Temas e influências
O conjunto dialoga com a ideia de choque, paralisia e resistência. A artista comenta que a frase ganhou força após ouvi-la em uma rotina de comediante em 2020, associando-a ao clima de instabilidade política nos Estados Unidos. A obra também dialoga com experiências pessoais, como episódios de doença e perdas.
A exposição apresenta ainda uma peça de vidro sólida como um cubo de gelo, cuja origem remete à ideia de um buraco que some. O título sugere uma posição suave para o trabalho, que pode significar várias leituras.
Horn comenta que a arte não busca propostas definitivas ao espectador; prefere manter o estado de desconhecimento como motor criativo. A artista revela que o período recente, marcado por crises ambientais e políticas, influenciou sua produção.
Contexto e impacto
O conjunto de trabalhos convive com referências a momentos de vulnerabilidade pessoal e coletiva. A mostra ressalta a relação entre corpo, doença e memória, mantendo o foco nas possibilidades de leitura do público sem impor uma conclusão.
A trajetória de Horn é marcada pela experimentação com diferentes mídias, entre desenho, fotografia, escultura e cinema. A instalação em Londres segue o estilo característico de não oferecer respostas simples, mantendo a ambiguidade como força expressiva.
Seizure of Hope fica em cartaz em Hauser & Wirth, em Londres, até 1º de agosto. A publicação do mesmo título já está disponível, ampliando o alcance da reflexão iniciada pela exposição. Mesmo diante de adversidades, Horn continua a produzir com uma visão que gosta de permanecer no espaço entre o sólido e o líquido.
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