- A mostra “Matéria da Matéria”, de Camila Sposati, reúne nove obras produzidas ao longo de quinze anos, em cartaz na galeria Mazzucchelli Cardoso, em são paulo.
- A série Phonosophia inclui trombetas sinuosas esculpidas em argila, que, segundo a artista, passam a ter autonomia e não são apenas objetos.
- A instalação “Matéria sobre Matéria” usa feltro de lã amarelo, com quinze aberturas circulares que revelam as camadas internas da Terra.
- A produção envolve bordados Suzani, tradicional da região, desenvolvidos em parceria com artesãs do turcomenistão, com cores vibrantes que aparecem com o tempo.
- Entre as obras está a videoinstalação “Darvaza”, que retrata a cratera em chamas no deserto de Karakum, famosa como boca do inferno, ligada a um acidente de perfuração na era soviética.
Camila Sposati revela em sua mostra Matéria da Matéria uma análise sensível da terra por meio de telas e esculturas. A exposição reúne nove trabalhos criados ao longo de 15 anos, na galeria Mazzucchelli Cardoso, na zona oeste de São Paulo.
A proposta marca uma relação entre arte, geologia e arqueologia. Ao ouvir uma corneta de argila, o público é envolvido por sons que sugerem isolamento e espaço subterrâneo. As peças conduzem o olhar para camadas invisíveis do planeta.
A curadoria enfatiza a trajetória da artista, que transforma materiais e memórias em estruturas com autonomia. Os trabalhos dialogam com a história de ocupação de ambientes marginais, muitas vezes inacessíveis ao olhar comum.
Phonosophia: música e terra em diálogo
Entre as obras está a série Phonosophia, esculturas-trombetas moldadas em argila que ganham vida própria, segundo a leitura da artista. O conjunto nasceu a partir da instalação Teatro Anatômico da Terra, realizada em 2014 na ilha de Itaparica durante a Bienal da Bahia.
A ideia central é a participação do objeto artístico, que não é apenas coisa a ser manuseada, mas agente com escolha de seu uso. A obra remete ainda às formações geológicas que inspiram a mostra, ganhando peso conceitual além da prática escultórica.
A sala de Itaparica serviu de ponto de partida para a série, conectando memória regional e processos de escavação feitos no solo. A artista utiliza o barro extraído de escavações para moldar instrumentos, compondo um vocabulário próprio.
Matéria sobre Matéria e a técnica do Suzani
A mostra também apresenta a tapeçaria Matéria sobre Matéria, feita com feltro de lã amarela. Nela, 15 aberturas circulares reproduzem as camadas da Terra, como se o tecido fosse uma escavação. O resultado convida o visitante a imaginar o que fica escondido.
Essa obra nasceu de uma parceria com artesãs do Turcomenistão, que contribuíram com bordados Suzani. As cores — verde, amarelo e vermelho — dão brilho ao tecido, que mantém a vivacidade com o tempo e dialoga com as camadas profundas da Terra.
Além de Matéria da Matéria, a técnica aparece na tela Camada sobre Camada, reforçando a presença do bordado na leitura da obra. O Suzani, originário do Uzbequistão, chegou à região por meio de trocas culturais entre tribos nômades e se desenvolveram novas leituras têxteis.
Darvaza: fogo no deserto e memória geológica
Outro eixo da exposição é Darvaza, videoinstalação que retrata a cratera em chamas no deserto de Karakum, no Turcomenistão. Conhecida como boca do Inferno, a cratera teria sido incendiada na década de 1970 para conter vazamento de gás natural, segundo relatos oficiais.
O fogo continua a arder no local, e a artista registra esse fenômeno geológico com olhar contemplativo. A obra propõe uma leitura sobre energia e permanência, conectando uma área remota do Saara asiático a questões globais de exploração de recursos.
Curadoria e visão da exposição
A sócia da galeria, a curadora Kiki Mazzucchelli, destaca o rigor do processo criativo de Sposati, que alia história, geografia e filosofia em uma materialidade sedutora. A dupla de galeristas ressalta a complexidade e profundidade da obra, fruto de anos de pesquisa.
A mostra — com curadoria de Mazzucchelli e parceria da galeria — coloca em evidência uma prática que transforma o invisível em material visível. Os trabalhos convidam o público a percorrer caminhos entre laje, solo e superfície, sem perder o viés crítico da pesquisa artística.
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