Manuel Herreros e Mateo Manaure, cineastas venezuelanos, não imaginavam que seu curta-metragem Trans (1982) se tornaria um clássico cult. O documentário de 22 minutos, filmado em 16 mm, retrata a vida da comunidade transformista de Caracas, onde os diretores passaram um ano acompanhando essas mulheres em suas rotinas noturnas de prostituição. A obra expõe a […]
Manuel Herreros e Mateo Manaure, cineastas venezuelanos, não imaginavam que seu curta-metragem Trans (1982) se tornaria um clássico cult. O documentário de 22 minutos, filmado em 16 mm, retrata a vida da comunidade transformista de Caracas, onde os diretores passaram um ano acompanhando essas mulheres em suas rotinas noturnas de prostituição. A obra expõe a precariedade e os perigos enfrentados por elas em um contexto de machismo, homofobia e transfobia, revelando a brutalidade da sociedade e das autoridades.
O lançamento do documentário foi marcado por tensões, com a polícia esperando na Cinemateca Nacional para prender os cineastas e as 25 mulheres trans presentes. Após essa recepção hostil, o filme foi exibido apenas em uma sala de cinema que projetava filmes pornográficos, caindo em um quase esquecimento. O objetivo dos diretores era visibilizar a violência enfrentada por pessoas trans e mobilizar a sociedade para mudanças, destacando a ignorância e os preconceitos que permeavam a cultura local.
Quase quatro décadas depois, a situação das mulheres trans em Venezuela permanece alarmante. A expectativa de vida desse grupo na América Latina é de apenas 35 anos, e não há proteção legal para sua identidade ou expressão de gênero. A pobreza extrema e a luta pela sobrevivência dificultam o avanço de um debate que nunca foi priorizado pelo Estado conservador. O documentário é um testemunho de coragem e resiliência, mostrando como essas mulheres, apesar do ódio e do perigo, permanecem fiéis a seus sonhos.
Atualmente, Trans é exibido em Nova York, na exposição Dueñas de la noche: Vidas y sueños trans en los años 80 em Caracas, organizada por estudantes do Bard College. A mostra, que inclui fotografias e materiais de arquivo, está em cartaz no Instituto de Estudos de Arte Latinoamericano (ISLAA) até 25 de janeiro. O documentário, que termina com um ato simbólico de liberdade, continua a ser um poderoso chamado à justiça e ao respeito por todas as identidades.
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