- Daniel Garcia, conhecido como Gloria Groove, estreia como Madame Morrible no musical *Wicked* no Teatro Renault, em São Paulo.
- As apresentações ocorrem entre 23 e 27 de agosto e de 30 de agosto a 3 de setembro.
- Esta é a primeira vez que uma drag queen assume o papel, trazendo um novo simbolismo à personagem.
- A nova versão de Madame Morrible, dirigida por Ronny Dutra e Anelita Gallo, a transforma em Assessora de Imprensa do Mágico de Oz, centralizando a manipulação da informação.
- A produção de *Wicked* em São Paulo foi licenciada para nove países e se sustenta exclusivamente pela bilheteira, sem patrocínio cultural.
Daniel Garcia, mais conhecido como Gloria Groove, está de volta ao palco, mas, desta vez, em um cenário diferente do pop. Em dez apresentações especiais de *Wicked* no Teatro Renault, em São Paulo, Daniel interpreta Madame Morrible, personagem que agora ganha uma camada inédita de simbolismo: é a primeira vez que uma drag queen assume o papel no mundo. A temporada especial acontece entre os dias 23 e 27 de agosto e de 30 de agosto a 3 de setembro.
Mais do que uma participação pontual, a presença de Daniel representa um retorno às raízes. Antes de se tornar fenômeno musical, ele começou sua trajetória artística justamente no teatro musical, com passagens por espetáculos como *Hair*, além de atuar como dublador e apresentador infantil. Foi nos bastidores desses palcos que ele também descobriu a arte drag.
Mesmo com apenas quatro ensaios — sendo três no palco e um de figurino —, Daniel estreou com texto e músicas decorados, recebendo aplausos entusiasmados do elenco. Não foi coincidência: ele já conhecia a montagem de cor, como fã.
**A nova função de Morrible**
Nesta versão brasileira, dirigida por Ronny Dutra e Anelita Gallo, Madame Morrible deixa de ser apenas a diretora da Universidade de Shiz. Ela é também a Assessora de Imprensa do Mágico de Oz, ou seja, figura central na gestão das narrativas que circulam no reino da Cidade das Esmeraldas. É ela quem, ao batizar Elphaba como “Bruxa Má”, muda para sempre o destino da protagonista.
Esse reposicionamento narrativo não é mero detalhe: torna-se uma metáfora afiada para os tempos atuais, em que a manipulação da informação se tornou arma de poder. Daniel reconhece o peso desse simbolismo: “Conheço muitas Morribles da vida real. Pessoas que manipulam versões e rótulos conforme seus interesses”, afirmou na coletiva de imprensa.
A escolha de Gloria para o papel também reforça a ironia poética da personagem: se Morrible é quem decide como os outros serão vistos, nada mais potente do que uma drag queen, mestre da autorrepresentação, para tensionar esse jogo de aparência, controle e identidade.
**Visual imponente e presença dramática**
Para a montagem, foi criado um novo visagismo especialmente pensado para Gloria Groove. O figurino, assinado por Lígia Rocha com assistência de Alan Cecato, aposta em tons que sugerem status e mistério. A peruca, desenhada por Feliciano San Roman, traz volume dramático, enquanto a maquiagem de Cris Tákkahashi valoriza traços marcantes: uma personagem feita para dominar manchetes, cena e atenção.
Na performance, Daniel promete mesclar referências de vilãs de novela, arquétipos de gestoras de crise e o timing cômico da linguagem drag. Tudo sem perder a densidade dramática que o papel exige.
**Um musical brasileiro exportável — e sustentado pelo público**
A participação de Gloria Groove marca um momento importante não só para o espetáculo, mas para o teatro musical brasileiro. A montagem de *Wicked* encenada em São Paulo em 2023 foi licenciada para nove países, incluindo Índia, mercados do Oriente Médio e uma nação europeia, como modelo para futuras produções.
Outro marco é a independência financeira da atual temporada, que se sustenta exclusivamente pela bilheteria, sem patrocínio cultural. A resposta do público tem sido tão expressiva que a produção lançará um livro comemorativo de 200 páginas, reunindo croquis, maquetes, detalhes de perucaria e bastidores do espetáculo.
**De volta ao coletivo**
Ao comparar sua rotina como estrela do pop com a experiência no musical, Daniel Garcia descreve um “reset artístico”. No palco solo, o foco é o indivíduo. Já no teatro, tudo depende da engrenagem coletiva: escuta, sincronia, confiança no maestro, nos colegas, nos bastidores. “É uma reprogramação que muda minha forma de criar. Vai impactar até os meus shows no futuro”, diz.
**Uma narrativa sobre narrativas**
*Wicked* sempre foi uma história sobre versões da verdade e preconceitos, mas com a entrada de Gloria Groove como Madame Morrible, esses temas ganham um novo corpo, uma nova voz, e uma nova camada simbólica.
Carlos Cavalcanti, diretor do Instituto Artium de Cultura, encerrou a coletiva lembrando que o ato de contar histórias não é só entretenimento: é uma disputa por poder, memória e representação. E, ao que tudo indica, Gloria Groove não veio apenas interpretar uma personagem. Ela veio para virar a chave de como entendemos o papel da informação no teatro e no mundo.
Entre na conversa da comunidade