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Por que ouvimos músicas em línguas que não entendemos?

Desde o inglês ao coreano, nosso corpo continua ressoando com a melodia mesmo que a letra não seja compreendida

Pessoa ouvindo música - Foto: Reprodução/Pixabay
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  • A popularidade de músicas em idiomas estrangeiros, como inglês e coreano, cresce no Brasil, apesar da barreira linguística.
  • Dados do British Council indicam que apenas 5% da população brasileira fala inglês, mas 28% preferem ouvir canções em línguas estrangeiras.
  • Estudos mostram que o prazer musical está mais ligado ao ritmo e à melodia do que à compreensão da letra.
  • A prosódia, que envolve entonação e intensidade da voz, também contribui para a emoção ao ouvir músicas, independentemente do idioma.
  • A globalização e os aplicativos de streaming facilitam o acesso a músicas de diferentes culturas, aumentando a diversidade musical apreciada.

Hoje em dia, é comum abrir um aplicativo de streaming de música e encontrar os grandes artistas mainstream dos Estados Unidos e da Europa ou, ao ver a música que um amigo está escutando, perceber que é um K-pop, o pop coreano, cuja escrita do título muitas vezes não é compreendida por quem não conhece o alfabeto.

Independentemente de como chegamos a essas músicas, a certeza é uma só: elas não estão em nossa língua nativa, o português. Mesmo assim, milhares de pessoas continuam ouvindo artistas mainstream de todo o mundo, que cantam principalmente em inglês ou, com o avanço do K-pop, em coreano.

Segundo dados do British Council, apenas 5% da população brasileira sabe falar inglês e 1% é fluente, mas mesmo assim, as músicas estrangeiras permanecem populares no país. Uma pesquisa da Cetic br mostra que 28% das pessoas escolhem ouvir canções em línguas estrangeiras.

Isso mostra que muitas pessoas ouvem e apreciam músicas estrangeiras mesmo sem compreender exatamente a letra, embora entender o que é dito frequentemente torne a experiência de ouvir ainda mais prazerosa.

Quando escutamos uma música, a linguagem muitas vezes funciona como complemento da melodia e do ritmo, que tornam a experiência mais agradável, e nem sempre é preciso entender a letra para aproveitar a canção, algo que pode ser explicado por alguns motivos.

O prazer rítmico não depende da letra

Ao ouvir uma música, nosso cérebro reage não só às palavras, mas também ao ritmo, à batida e à organização dos sons. Estudos em neurociência musical mostram que ritmo e melodia ativam áreas auditivas, motoras e emocionais, enquanto a letra envolve regiões ligadas à linguagem. A forma como processamos esses elementos mostra como o cérebro reconhece padrões musicais e transforma estímulos em sensações e movimentos.

Os ritmos variam do mais simples aos mais complexos e caóticos para o cérebro. Aqueles que ficam nesse ponto intermediário e equilibram simplicidade e intensidade, geram mais prazer e vontade de dançar, mesmo sem a presença da voz.

Um exemplo é a síncopa, um recurso rítmico que coloca acentos em pontos inesperados e criam surpresa dentro do compasso, a divisão da música em partes iguais. Pesquisas, como as da Universidade de Aarhus, mostram que ritmos de complexidade moderada, incluindo a síncopa, aumentam o prazer e a vontade de se mexer, mesmo sem a voz.

O ritmo sozinho já faz o cérebro ativar áreas ligadas ao movimento, como o córtex motor, mesmo sem nos mexermos. Estudos de neuroimagem feitos por Jessica Grahn, da Universidade de Western Ontario, confirmam que o córtex pré-motor, o cerebelo e os gânglios da base, responsáveis pela coordenação e execução de movimentos, são estimulados ao ouvir apenas padrões rítmicos regulares.

Tudo isso ressalta um fato: o ritmo é uma das partes mais importantes da música. Ele está mais ligado à construção do instrumental e ao som da voz do que à compreensão das palavras, embora elas também influenciem na percepção das faixas. Uma mesma música cantada em dois idiomas, mas com o vocal idêntico, pode gerar sensações muito parecidas de excitação no corpo.

A emoção da voz na forma como aproveitamos a música

A chamada prosódia é um ramo da fonologia que define características dos sons da fala, como acento, entoação e intensidade. Ela é responsável por grande parte da empolgação que sentimos ao ouvir uma música, mais do que pelo entendimento da letra. Junto ao ritmo, a prosódia ajuda a quebrar a barreira da linguagem, permitindo que aproveitemos a música independentemente do idioma.

Essa empolgação deriva da prosódia emocional, a habilidade de identificar sentimentos pelo som da voz, da alegria à tristeza. Ao cantar uma música, muitas vezes refletimos o sentimento que ela transmite apenas pela entonação, mesmo sem entender a letra ou o que ela diz.

Musica e linguagem usam regiões distintas do cérebro

Um fato curioso sobre a relação entre música e letras que não entendemos está ligado à forma como nosso cérebro processa esses dois elementos.

O processamento da música ocorre em áreas como o córtex auditivo primário, o córtex motor, o cerebelo e os gânglios da base, que estão ligados à percepção de ritmo, melodia e harmonia. Já a linguagem é processada principalmente no hemisfério esquerdo, envolvendo a área de Broca e a área de Wernicke, responsáveis pela produção e compreensão da fala, respectivamente.

Mas em tarefas simples, como ouvir uma melodia ou seguir um ritmo básico, algumas áreas do cérebro responsáveis pela linguagem e pela música são as mesmas. Isso ocorre porque o cérebro identifica padrões e sequências em ambos os casos, usando mecanismos semelhantes para processar ritmo, melodia e sons da fala.

Porém, quando essas tarefas ficam mais complexas, o cérebro passa a usar redes diferentes para cada função. Por isso, ao ouvir uma música cuja letra não entendemos, ritmo, melodia e harmonia ainda são processados e apreciados, e o prazer musical ocorre independentemente da compreensão das palavras.

O advento dos streamings na descoberta de novas músicas

Viver em um mundo globalizado e conectado facilita ainda mais a descoberta de músicas de diferentes regiões, inclusive aquelas em línguas que não falamos, funcionando como porta de entrada para que mais pessoas ouçam músicas estrangeiras fora de seu país.

Consequentemente, nos aproximamos de músicas de culturas diferentes, muitas vezes com ritmos distintos dos mais comuns em nosso país, o que pode encantar à primeira vista e superar a barreira da linguagem por meio da descoberta de um novo ritmo..

Essa tendência de um mundo musical mais globalizado cresce a cada ano em diversos países. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma pesquisa da Luminate mostrou que, entre as 10 mil faixas mais ouvidas no país entre 2021 e 2023, a participação de músicas em inglês caiu 4,2%, enquanto as faixas em espanhol aumentaram 3,6%.

Ouvir música mesmo sem entender a letra é completamente normal e permite que o cérebro aproveite a melodia da mesma forma. Do islandês de Sigur Rós ao coreano do BTS, a música continua tocando nossos corações e fazendo nosso corpo se mexer da mesma maneira.

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