O Grammy virou palco político contra a política migratória dos Estados Unidos. No último domingo, a 68ª edição do maior prêmio da música, realizada em Los Angeles, foi marcada por falas e gestos que criticaram a crise americana envolvendo imigrantes e o ICE, o Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira do país. A voz de […]
O Grammy virou palco político contra a política migratória dos Estados Unidos. No último domingo, a 68ª edição do maior prêmio da música, realizada em Los Angeles, foi marcada por falas e gestos que criticaram a crise americana envolvendo imigrantes e o ICE, o Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira do país.
A voz de Bad Bunny no evento
As principais declarações partiram do porto-riquenho Benito Ocasio, mais conhecido como Bad Bunny, um dos principais nomes do reggaeton e vencedor do prêmio de Álbum do Ano com Debí Tirar Más Fotos (2025). Ele foi uma das vozes mais ativas na defesa dos imigrantes.
No discurso após receber o principal prêmio da noite, Benito criticou o ICE e reforçou seu apoio aos imigrantes em meio ao momento de tensão no país.
“Antes de agradecer a Deus, eu vou dizer: ICE fora. Não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas. Somos humanos e somos americanos.”.
“O ódio fica mais forte com mais ódio. A única coisa mais poderosa do que o ódio é o amor. Então, por favor, precisamos ser diferentes. Se formos lutar, que seja com amor.” concluiu.
Em entrevista ao Portal Tela, Adriano Cerqueira, doutor em história e professor de relações internacionais no IBMEC, destacou o peso desses discursos, sobretudo nos Estados Unidos, onde os protestos ganharam força e concentram o debate.
“Não é novidade que os convidados nesses eventos, como Grammy e Oscar, utilizem o espaço para declarações políticas, principalmente contra a agenda republicana, em especial contra Donald Trump.” afirmou o professor
“Nos Estados Unidos, isso já virou uma espécie de caso contado. As pessoas já aguardam isso (o discurso)” concluiu o professor.
A presença de Bad Bunny no centro do debate não é por acaso. O artista canta em espanhol, reforça as raízes de Porto Rico em suas músicas e entrou para a história ao se tornar o primeiro a vencer o Álbum do Ano com um disco inteiramente em espanhol.
Não é de hoje que o cantor critica a política migratória dos Estados Unidos. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em 2025, quando ele deixou o país de fora da turnê “Debí Tirar Más Fotos” por medo de batidas contra imigrantes.
O cantor também será a atração do show do intervalo do Super Bowl LX e já havia abordado o tema em outubro de 2025, no Saturday Night Live, ao afirmar que a conquista era “para todos os latinos” e que suas contribuições “ninguém vai apagar”.
Outros artistas também discursaram a favor da imigração
Além dele, outros artistas também se posicionaram nesta edição do Grammy. Um dos exemplos foi Billie Eilish, que venceu a categoria Canção do Ano com Wildflower e usou o discurso para defender os imigrantes.
“Ninguém é ilegal em terra roubada. É muito difícil saber o que dizer e o que fazer agora. Eu me sinto muito esperançosa neste espaço, e acho que a gente só precisa continuar lutando, se posicionando e protestando, porque nossas vozes realmente importam, e as pessoas importam.” disse a cantora
Com o tempo, o impacto desses discursos também diminuiu, em parte, por vir de um espaço já associado à oposição, como observa Adriano:
“Inclusive, houve até um esvaziamento desses eventos, porque muitos conservadores, que também gostam de música, começaram a boicotar esses eventos e dar menos importância aos mesmos.”.
A cantora britânica de neo soul Olivia Dean também se manifestou durante a premiação e reforçou suas raízes latinas.
“Estou aqui como neta de um imigrante. Sou fruto de coragem, e acho que essas pessoas deveriam ser celebradas. Não somos nada sem os outros.”.
Não é de hoje que essas manifestações acontecem. Cerqueira reforça que as denúncias no meio artístico são antigas e aparecem também no cinema.
“É antiga essa mobilização da classe artística em questões políticas. Nos anos 70 e 80, havia muitos regimes autoritários, à direita e à esquerda, no mundo, e você tinha filmes de engajamento que faziam críticas a essas ações.“
Além disso, Adriano ressalta a polarização nos Estados Unidos, em que artistas se mobilizam mais em defesa de lados políticos do que de causas específicas. Ele cita, como exemplo, a falta de sensibilização durante o governo de Barack Obama em meio a mesma causa:
“Governos anteriores também fizeram ações contra a imigração. No governo do Barack Obama, milhões foram dos Estados Unidos, sem ter tido comoções nesse sentido (por parte dos artistas).” afirmou o professor.
A atual crise de imigração nos EUA
Desde o início do segundo mandato de Donald Trump, o governo endureceu a política migratória e ampliou as ações de deportação em massa. Neste ano, a gestão chegou ao recorde de 68 mil detidos.
Nos últimos meses, a situação se agravou com o aumento das deportações, especialmente em Minneapolis, onde está em vigor a Operação Metro Surge, voltada à detenção de imigrantes em situação irregular.
Além disso, a morte de dois cidadãos americanos, Alex Jeffrey Pretti, de 37 anos, e Renée Nicole Good, também de 37, por agentes do ICE, intensificou ainda mais a onda de protestos por parte de grupos pró-imigração.
Trump justifica suas ações sobre as políticas de imigração afirmando que os imigrantes ilegais são utilizados como votantes para o partido democrata e que estão roubando empregos, como dito em um de seus posts na sua rede social Truth Social.
“Precisamos ampliar as ações para prender e deportar imigrantes em situação irregular nas maiores cidades dos Estados Unidos, como Los Angeles, Chicago e Nova York, onde viveriam milhões e milhões dessas pessoas.” afirmou o presidente.
“Essas e outras cidades semelhantes seriam o núcleo do centro de poder do Partido Democrata, que usaria esses imigrantes para aumentar a base de eleitores, fraudar eleições e expandir o Estado de bem estar social, tirando empregos e benefícios bem remunerados de cidadãos americanos trabalhadores.” concluiu.
As declarações no Grammy são um reflexo da atual crise imigratória do governo Trump que vem se agravando cada vez mais.
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