Cheguei com a perspectiva errada à terceira vez que vejo a banda em palcos brasileiros de quatro tours que fizeram por aqui (perdi o Rock in Rio 1, em 1985, mas os vi em 1996, 2009 e ontem). A primeira perdi por motivo de idade reduzida, apesar de ter acontecido na época em que provavelmente […]
Cheguei com a perspectiva errada à terceira vez que vejo a banda em palcos brasileiros de quatro tours que fizeram por aqui (perdi o Rock in Rio 1, em 1985, mas os vi em 1996, 2009 e ontem).
A primeira perdi por motivo de idade reduzida, apesar de ter acontecido na época em que provavelmente fui mais fanático pelo grupo australiano. Quando do Rock in Rio 1, queria ser tão igual ao Angus Young que parei de comer queijo porque li em algum lugar que ele tinha alergia e não podia consumir.
Ontem, quando o telão mostrou o primeiro close de Angus nos segundos iniciais de If You Want Blood (You’ve Got It), uma censura ranzinza travou minha mente. Ele não se move mais com a eletricidade ou o headbanging que o fizeram famoso, como um dínamo de 1,50m.
Pudera, neste 2026 ele completa 70 anos de idade, e bem uns 52 de carreira. Nesta, perdeu o irmão e alicerce guitarrístico Malcolm Young. Quase perdeu o outro membro clássico de grupo, o vocalista Brian Johnson, para um problema auditivo que por pouco não o levou à aposentadoria.
Mas instantaneamente me recompus e disse a mim mesmo: “não sou geriatra”. Desbloqueei qualquer julgamento e durante as 2h14m e alguns segundos seguintes bati cabeça como se tivesse entrado num DeLorean e retornado a 85. Ou a 96. Ou mesmo a 2009. Pois o AC/DC é sempre AC/DC.
Não estão lá Cliff Williams, Phil Rudd ou Malcolm, o melhor guitarrista base que já pisou num palco. Mas o que emana são as músicas mais redondas da história dos anos 1970, 80 em diante.
Queria pontuar o texto emocionalmente e dizer que chorei com a imagem do estádio inteiro pulando em Highway to Hell, mas estaria mentindo já que o fã de AC/DC bem sabe que o som deles não é para chorar, mas justamente o contrário. (Aliás, qual é o contrário de chorar? Rir? Na minha cabeça, o oposto era o que a própria fazia: mover-se involuntariamente quase como um freio para o restante do corpo em sua compulsão por espasmos e arranques de cachorro atropelado (aqui abro um parêntese dentro do parêntese para dizer que a figura de linguagem foi homenagem à família Rodrigues, que perdeu o segundo Nelson).)
Assistir ao AC/DC em 2026 é entender que o rock sobreviveu à própria biologia. Os vídeos que registrei não possuem a nitidez nem a dimensão merecidas, mas capturam o que importa: o tremor do chão e o vocal de Brian Johnson desafiando o tempo.
Se você ainda tem dúvida sobre ir a uma das duas noites restantes, confira o set-list abaixo. Ele é um inventário de tudo o que o rock acertou nos últimos 50 anos.
If You Want Blood (You’ve Got It)
Back in Black
Demon Fire
Shot Down in Flames
Thunderstruck
Have a Drink on Me
Hells Bells
Shot in the Dark
Stiff Upper Lip
Highway to Hell
Shoot to Thrill
Sin City
Jailbreak
Dirty Deeds Done Dirt Cheap
High Voltage
Riff Raff
You Shook Me All Night Long
Whole Lotta Rosie
Let There Be Rock
BIS:
T.N.T.
For Those About to Rock (We Salute You)
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