- América Latina ainda não tem um festival musical televisivo no estilo Eurovision, apesar do crescimento de artistas latino-americanos no cenário global.
- Projetos anteriores, como o Hispavisión, foram anunciados pela RTVE em 2022, mas não se concretizaram e ficaram em “stand-by”.
- A ideia também envolve a memória do Festival OTI (1972–2000), que acabou sendo descontinuado, em meio a estruturas industriais e políticas distintas.
- Especialistas destacam fatores históricos, geográficos e de mercado que dificultaram um esforço regional unido, além de uma indústria mais centrada em mercados nacionais.
- O momento atual, com plataformas digitais, streaming em expansão e presença de grandes empresas como Live Nation, é visto como possível fomentador de iniciativas regionais futuras, com potencial alcance além do mundo hispano.
A América Latina ainda não tem um mega-festival musical televisado no estilo do Eurovision, apesar do crescimento de artistas da região em palcos internacionais e nas paradas globais. A ideia de um formato semelhante já emergiu diversas vezes, envolvendo Espanha, América Latina e o mercado hispânico nos Estados Unidos, mas não saiu do papel.
Em 2022, a RTVE apresentou o projeto Hispavisión, inspirado no Eurovision para reunir nações de língua espanhola em um único palco. Cartagena de Indias, na Colômbia, chegou a ser citada como possível sede da edição inaugural em 2023. O projeto ficou em atraso e, meses depois, a própria emissora reconheceu o impedimento.
No entanto, o debate sobre uma competição regional não morreu. Em entrevista recente, um executivo da TelevisaUnivision mencionou abrir espaço para projetos musicais conjuntos entre Espanha, América Latina e o mercado hispânico dos EUA. Embora não tenha confirmado o retorno do antigo Festival OTI, apontou disposição para explorar formas de conectar a indústria entre as duas margens do Atlântico.
Segundo o pesquisador Pablo Solís, diretor da Latin American Cultural Connections, várias causas ajudam a compreender a ausência de um festival regional à altura do Eurovision. Entre elas, fatores históricos, industriais, geográficos e políticos, que dariam suporte a uma iniciativa mais estruturada e regional.
Ouro histórico do continente, o Festival OTI, criado em 1972 pela Organização de Televisão Ibero-americana, reuniu artistas de países de língua espanhola por décadas, mas acabou desaparecendo em 2000. A falta de uma estrutura industrial capaz de sustentar o projeto a longo prazo foi apontada como parte do problema.
A geografia e a lógica de mercado das redes de televisão também pesam. Enquanto a Europa avançou com processos de integração institucional, a América Latina permanece mais fragmentada e com broadcasters voltadas a públicos nacionais, o que dificulta acordos transnacionais estáveis.
Ainda assim, a cena musical regional não está parada. Festivais como Vive Latino, Cosquín Rock e Viña del Mar funcionam como espaços de circulação entre países, especialmente em grandes performances ao vivo. A diferença, segundo Solís, é que esses eventos costumam operar no formato presencial, sem o componente de produção televisiva compartilhada característico do Eurovision.
O momento atual pode, porém, favorecer possibilidades de iniciativas maiores. A disseminação de plataformas digitais, o crescimento do streaming e a maior presença de artistas latino-americanos no cenário global ampliam o ecossistema musical. Empresas internacionais, como a Live Nation, têm ganhado presença mais ampla na região, o que amplia oportunidades de projetos coletivos.
Para Solís, o terreno está mais fértil para iniciativas regionais ambiciosas, com mais festivais e plataformas que facilitem a circulação de artistas entre países. Um festival musical latino-americano poderia servir como vitrine internacional para a diversidade cultural da região e ampliar o alcance de sua música além das fronteiras.
A ideia de um festival latino-americano não se restringe ao âmbito televisivo ou industrial. Caso implementada, poderia representar uma ponte de comunicação e intercâmbio cultural que alcançaria públicos além do mundo de língua espanhola, destacando a diversidade musical do continente em uma escala maior.
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