Na última segunda-feira (6), o rapper americano Kanye West foi impedido de viajar ao Reino Unido pelo governo britânico. A proibição ocorreu após o Ministério do Interior rejeitar um pedido de viagem feito por meio de uma Autorização Eletrônica de Viagem (ETA). De acordo com o orgão, a decisão foi tomada após as recentes polêmicas […]
Na última segunda-feira (6), o rapper americano Kanye West foi impedido de viajar ao Reino Unido pelo governo britânico. A proibição ocorreu após o Ministério do Interior rejeitar um pedido de viagem feito por meio de uma Autorização Eletrônica de Viagem (ETA).
De acordo com o orgão, a decisão foi tomada após as recentes polêmicas envolvendo o cantor e declarações de teor racista, antissemita e nazista.
Kanye West viajaria ao país para se apresentar no Wireless Festival, onde seria uma das principais atrações. No entanto, nesta terça-feira (7), após a rejeição da entrada do rapper no país, o evento foi cancelado e os compradores começaram a receber o reembolso.
Antes mesmo de o rapper ser barrado no país, grandes patrocinadoras do evento já haviam se afastado, como a Pepsi, que detinha os naming rights com o PEPSI MAX presents Wireless, além da marca de bebidas alcoólicas Diageo e do PayPal.
No entanto, as polêmicas envolvendo o artista vêm de muito antes e a mais grave, além de uma das mais recentes, é a relacionada ao antissemitismo.
Quem é Kanye West no mundo da música?
Kanye Omari West, que hoje usa apenas o nome Ye, nasceu em 8 de junho de 1977, em Atlanta, na Geórgia, e se tornou um dos nomes mais influentes do rap mundial, além de ser considerado por alguns como um dos maiores gênios musicais do gênero.
O início da carreira de Kanye West aconteceu nos anos 1990, como produtor musical em Chicago, onde foi fortemente influenciado pela cena local e pelo trabalho de nomes como No I.D.
O grande salto veio quando ele passou a circular pela Roc-A-Fella e ganhou projeção como produtor de faixas de Jay-Z, especialmente em The Blueprint (2001).
Após um acidente de carro em 23 de outubro de 2002, Kanye gravou a faixa “Through the Wire” com a mandíbula ainda presa por fios. A música se tornou um marco por apresentar um artista capaz de transformar vulnerabilidade, humor e ambição em narrativa musical, em contraste com o padrão dominante do rap comercial da época.
A consagração veio com The College Dropout, álbum lançado em 2004 que estreou na segunda posição da Billboard 200, venceu o Grammy de Melhor Álbum de Rap naquele ano e marcou o momento em que Kanye deixou de ser apenas um produtor para se tornar uma estrela do hip hop.
Depois disso, ele teve uma ascensão muito rápida com Late Registration (2005), que ampliou seu alcance comercial e a aclamação da crítica, e Graduation (2007), que ajudou a consolidá-lo como um dos maiores nomes do rap naquele período.
Como produtor, Kanye West ficou associado ao uso de samples acelerados de Soul, estilo que ficou conhecido como “chipmunk soul” e ajudou a redefinir o som do Rap nos anos 2000.
Como artista, também empurrou o gênero para outras direções com 808s & Heartbreak (2008) que ajudou a popularizar um Rap mais melódico, emotivo e apoiado em Auto-Tune, influência frequentemente apontada depois em artistas como Drake e Kid Cudi e, por extensão, em boa parte do pop rap da década seguinte.
Outro ponto importante para entender quem ele representa na música é que Kanye se consolidou como um artista em constante reinvenção, algo que ficou evidente em Yeezus (2013), ao apresentar um som mais abrasivo e experimental.
Mesmo com uma proposta mais difícil e menos radiofônica, o álbum estreou em primeiro lugar na Billboard 200, com 327 mil cópias vendidas na primeira semana.
A figura polêmica que ultrapassou os limites do mercado musical
Em meio às vendas de álbuns e aos recordes na indústria, o que mais marcou a trajetória de Kanye West desde sua ascensão até os dias atuais, muitas vezes ofuscando a própria carreira musical, foram as polêmicas.
A primeira grande polêmica aconteceu em 2005, durante o programa A Concert for Hurricane Relief, show beneficente organizado para ajudar as vítimas do furacão Katrina, quando o rapper afirmou ao vivo que “George Bush não se importa com pessoas negras”.
Depois disso, ele se envolveu em conflitos com Taylor Swift que remontam a 2009, quando interrompeu o discurso da cantora no palco do MTV Video Music Awards para dizer que Beyoncé deveria ter vencido. O episódio deu início a uma das rivalidades mais conhecidas da cultura pop, reforçada em 2016 com a música “Famous”, na qual Kanye afirmou que a ajudou a ficar famosa.
Em 2018, as polêmicas de Kanye passaram a se misturar mais com política e questões sociais. Naquele ano, durante uma visita ao Salão Oval ao lado de Donald Trump, de quem havia se aproximado, ele fez um discurso longo e confuso no qual disse que o boné MAGA, sigla para Make America Great Again e um dos principais símbolos de apoio a Trump e ao conservadorismo americano naquele período, o fazia se sentir poderoso.
No mesmo ano, o rapper revelou que havia sido diagnosticado com transtorno bipolar em 2016, após uma internação psiquiátrica.
Em 2020, Kanye se lançou candidato à Presidência dos Estados Unidos e, no comício de estreia, fez um discurso errático no qual atacou o aborto e a pornografia, discutiu com pessoas da plateia e chorou no palco ao falar sobre aborto.
Nesse mesmo evento, ele fez uma declaração sobre Harriet Tubman, abolicionista e ativista afro-americana que ajudou a libertar dezenas de pessoas escravizadas e dedicou a vida ao combate à escravidão.
Kanye, por sua vez, afirmou que Harriet Tubman “nunca realmente libertou os escravizados” e que apenas os fez “trabalhar para outros brancos”.
Após o comício, ele publicou uma sequência de tuítes em que dizia que Kim Kardashian, então sua esposa, e outros familiares tentavam interná-lo, além de se comparar a Nelson Mandela.
A relação com Kim Kardashian também gerou diversas polêmicas. Após a candidatura, Kanye passou a expor questões familiares em público e, em 2021, o divórcio do casal abriu espaço para novos episódios controversos.
Em 2022, Kanye passou a atacar Pete Davidson, comediante que namorou Kim entre 2021 e 2022, tanto em músicas quanto nas redes sociais. Em um dos momentos mais graves, Kim enviou uma mensagem dizendo que ele estava criando um ambiente “perigoso e assustador” e alertou que “alguém vai machucar Pete, e isso será culpa sua”.
No clipe animado de “Eazy”, Kanye aparece sequestrando, enterrando e decapitando uma figura que fazia referência a Pete Davidson, o que gerou grande comoção, já que o vídeo foi interpretado como uma ameaça em meio a um cenário no qual ele já vinha hostilizando publicamente o então namorado de Kim.
Por fim, em meio a essas polêmicas, o apresentador Trevor Noah afirmou que a situação vivida por Kim parecia assustadora e que o comportamento de Kanye poderia ser interpretado como abusivo. Em resposta, o rapper publicou um insulto racial nas redes sociais.
Ainda em 2022, ele apareceu na Paris Fashion Week com uma camiseta estampada com a frase “White Lives Matter”, slogan frequentemente associado ao supremacismo branco na época e visto como uma reação ao movimento Black Lives Matter, criado no combate ao racismo.
Os casos mais graves de antissemitismo e racismo
As polêmicas de maior repercussão nos últimos anos envolvendo o cantor estão ligadas a falas antissemitas, nazistas e racistas, publicadas por ele nas redes sociais a partir de outubro de 2022.
Em uma das primeiras postagens desse tipo no Instagram, Kanye afirmou que o rapper Sean “Diddy” Combs estaria sendo controlado por judeus, o que levou à restrição de sua conta.
No Twitter, logo após dizer que havia sido restringido no Instagram, Kanye voltou à plataforma depois de quase dois anos e publicou uma sequência de postagens.
A publicação mais grave foi a que dizia: “Estou meio com sono esta noite, mas quando eu acordar vou entrar em modo ‘defcon 3’ contra os judeus”, em referência ao nível de alerta militar. Na mesma mensagem, ele também afirmou: “Vocês brincaram comigo e tentaram boicotar qualquer pessoa que se oponha à agenda de vocês”. Depois disso, sua conta no Twitter também foi restringida.
Depois disso, vieram as consequências. A Adidas encerrou a parceria com o rapper, assim como Gap e Balenciaga. A agência de talentos CAA, sigla para Creative Artists Agency, também deixou de representá-lo.
A crise se agravou em dezembro do mesmo ano, quando Kanye elogiou Hitler e os nazistas durante uma entrevista com Alex Jones, conhecido conspiracionista de extrema direita nos Estados Unidos.
Na mesma fase, o Twitter voltou a suspender sua conta depois de uma postagem com uma imagem que combinava uma suástica e uma estrela de Davi.
Em fevereiro de 2025, Kanye publicou uma série de tuítes com conteúdo nazista, antissemita e outras declarações polêmicas. Entre as postagens, escreveu frases como “Eu amo Hitler”, “Eu sou nazista”, “Todos os brancos são racistas” e “Todos os rappers querem o meu lugar. Todo rapper vivo quer ser o ‘Ye’”, além de afirmar que judeus odeiam pessoas brancas e usam pessoas negras.
Na sequência, ainda em fevereiro, Kanye colocou à venda em sua loja oficial uma camiseta estampada com uma suástica. Ele também exibiu um anúncio no Super Bowl de 2025 que direcionava o público para seu site, onde o produto era comercializado.
Pouco tempo depois do início das vendas, a Shopify tirou a loja do ar por violação dos termos da plataforma.
Por fim, uma das maiores polêmicas envolvendo antissemitismo e nazismo aconteceu em meados de 2025, quando o rapper lançou a faixa “Heil Hitler”, vista como apologia ao nazismo e elogio a Adolf Hitler. O episódio também contribuiu para que ele tivesse o visto banido pela Austrália.
Em 26 de janeiro de 2026, Kanye publicou um pedido de desculpas no The Wall Street Journal, no qual afirmou que perdeu o contato com a realidade durante um episódio maníaco e disse se arrepender profundamente das falas e atitudes que marcaram sua crise mais grave.
No texto, ele relaciona esse período ao transtorno bipolar tipo 1 e a um problema neurológico que, segundo ele, teria sido causado por seu antigo acidente de carro.
Ele admite que chegou a recorrer à suástica como símbolo de destruição, lamenta o que fez, afirma que não é nazista nem antissemita e diz amar o povo judeu. No mesmo texto, também pede desculpas à comunidade negra, que descreve como parte essencial de sua trajetória.
Na parte final da retratação, o rapper afirma que busca estabilidade por meio de tratamento, terapia, exercícios e uma rotina mais saudável.
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