- O cineasta Luca Guadagnino dirige pela primeira vez uma ópera em mais de quinze anos, The Death of Klinghoffer, em Florença, gerando grande controvérsia desde o anúncio.
- A ópera de John Adams (música) e Alice Goodman (libreto) retrata o seqoustro do navio Achille Lauro em 1985 e a morte do turista judeu americano com deficiência Leon Klinghoffer, provocando críticas de antisemitismo.
- O trabalho costuma ser chamado de “ópera CNN”, mas Guadagnino afirma que a obra busca ampliar a visão moral, apresentando dois coros (exilados palestinos e exilados judeus) e cenas de monólogo intercaladas por corais.
- A produção anterior enfrentou protestos e cancelamentos em grandes palcos; defensores afirmam que a peça expõe a moralidade e evita o triunfalismo, enquanto críticos contestam a romantização de terroristas.
- O diretor enfatiza a coreografia como elemento central, com sua equipe preparando uma leitura que integra dança, texto e música para ampliar a compreensão do público sobre o tema.
Luca Guadagnino encara a direção de uma obra controversa: The Death of Klinghoffer, ópera de John Adams que chega a Florença após provocar debates e protestos desde a estreia, em 1991. A produção foca no seqüestro do transatlântico Achille Lauro pelo PLF e na morte do turista judeu americano Leon Klinghoffer, além do luto da viúva Marilyn. A escolha gerou críticas sobre possível romantização do terrorismo.
Em ensaio na casa de ensaios acima dos bastidores do Maggio Musicale Fiorentino, Guadagnino apresenta a coreografia aos coristas. O diretor italiano, conhecido por cinema como Call Me By Your Name, dirige pela segunda vez uma ópera e pela primeira em mais de 15 anos. O elenco de Klinghoffer inclui Laurent Naouri e Susan Bullock, num palco que une música de Adams a uma narrativa bélica e moral complexa.
Conduzido pelo maestro Lawrence Renes, o ensaio discute a dificuldade de executar Adams, com ritmo repetitivo e escrita coral melismática. Renes aponta que a partitura oferece amplas possibilidades de interpretação, principalmente na arquitetura musical. A obra apresenta seis corais entre os monólogos, destacando vozes de exilados palestinos e judeus.
O conceito de Guadagnino valoriza a coreografia, que deve reverberar além dos coros. A bailarina Ella Rothschild coordena 12 bailarinos e enfatiza que a dança amplia a clareza do texto, música e movimento. Segundo a encenadora, a coreografia cria um espaço de entendimento diferente entre audiência e cena.
O encenador anunciou a meta de mostrar as contradições morais da história. A produção anterior da Klinghoffer, sob outros formatos, enfrentou críticas de famílias de Klinghoffer e de grupos judaicos, que apontaram a obra como uma permissão de “romantizar terroristas”. O dramaturgo Alice Goodman defende a peça como centro moral que questiona nacionalismos acelerados.
Ao longo de décadas, a ópera enfrentou protestos, cancelamentos e debates sobre contexto histórico. Em 2014, a montagem do Metropolitan Opera gerou repúdio de familiares de Klinghoffer e de autoridades, levando ao cancelamento de uma exibição em simulcast. Alguns críticos, como Taruskin, afirmaram que a obra romantiza ações extremistas, crítica que permanece discutida.
Goodman ressalta que uma cena prologal com vizinhos dos Klinghoffer foi removida, mas que, na visão dela, a narrativa deveria manter um contraponto moral entre a vida cotidiana e o nacionalismo romântico. A autora sustenta que o tema central é o peso humano da convivência entre otimismo e violência.
Entre na conversa da comunidade