- Em 27 de julho de 1945, Yehudi Menuhin realizou dois recitais em Bergen-Belsen, três meses após a libertação, acompanhado ao piano por um músico cuja identidade ele não revelou na época, conforme memória de Anita Lasker-Wallfisch.
- A cellista Anita Lasker-Wallfisch, sobrevivente de Auschwitz e Belsen, esteve presente a um dos concertos e ficou profundamente marcada pela performance.
- Lasker-Wallfisch descreveu o pianista como discreto e perfeito, e mais tarde lembra ter ficado fascinada por Britten, que também participou de apresentações com Menuhin em Aldeburgh.
- A experiência em Belsen é citada como influenciando Britten a trabalhar conteúdos de violência, justiça e humanidade, o que se refletiu na ópera The Rape of Lucretia e em outros projetos.
- Em 1968, Britten compôs Kinderkreuzzug, inspirado pelos horrores da guerra, para abordar, através do poema de Brecht, a futilidade do conflito e os limites da lei na punição de crimes contra a humanidade.
Three meses depois da libertação de Bergen-Belsen, Yehudi Menuhin fez duas apresentações no campo. Acompanhou-se de um pianist e tocou para sobreviventes, entre eles Anita Lasker-Wallfisch, então com 19 anos e violinista. O recital ocorreu no cinema do campo em 27 de julho de 1945.
Lasker-Wallfisch relatou que ficou impressionada com a noite, descrevendo o que ouviu e quem esteve no palco. Ela recordou o repertório variado, incluindo Bach, Kreisler, Kreutzer, Mendelssohn e Debussy, além de peças menos conhecidas. A avaliação sobre o ambiente e a plateia faz parte de sua memória histórica.
Entre os destaques, Lasker-Wallfisch lembrou o pianista que acompanhou Menuhin naquela ocasião, cuja presença discreta a marcou. Ela afirmou que, embora Menuhin tenha cumprido o papel com perfeição, parecia contido diante da atmosfera de Belsen. A violinista também mencionou Britten, então ainda próximo do tenor da época.
Legado e impacto
No início da década de 1960, Lasker-Wallfisch já integrava a English Chamber Orchestra e encontrou Britten em várias ocasiões, especialmente quando o compositor atuava como pianista ou maestro. Em 1969, pouco antes de um festival, ela mostrou a Britten uma carta de crítica musical escrita por alguém que assistiu ao concerto de Belsen; Britten ficou fascinado pela leitura.
Pouco tempo depois, o Snape Maltings, casa da instituição, foi incendiado, forçando uma reorganização na agenda. A troca de olhares entre Britten e Lasker-Wallfisch mostrou como as experiências vividas naquele verão moldaram a relação entre o músico e a intérprete. Menuhin, por sua vez, descreveu a apresentação em Belsen como um raio de luz na escuridão.
Ao revisitar a experiência, os dois artistas foram associados à ideia de que a arte pode servir como resposta humana a horrores. Britten, segundo relatos, encarou a lembrança de Belsen como algo que influenciou sua produção posterior, sem explicitá-lo em declarações públicas. A crítica celebra a conexão entre música e solidariedade humana emergente.
Contexto histórico e questões legais
O episódio também remete aos debates sobre justiça após o Holocausto. Lasker-Wallfisch participou de um julgamento do comandante de Auschwitz e descreveu a experiência como marcante. Ela questionou a aplicação do direito tradicional a crimes tão extremos, observando o contraste entre o ideal de inocência até prova em contrário e a gravidade das atrocidades.
Essa linha de pensamento guiou reflexões posteriores de Britten e de outros artistas que lidaram com a violência de guerra. Em paralelo, o compositor atendeu ao desejo de transformar a experiência em arte, visando ampliar a compreensão pública sobre as consequências humanas do conflito.
Brecht, Kinderkreuzzug e o peso da memória
Em 1968, Britten colocou em música um poema de Bertolt Brecht sobre crianças órfãs no início da guerra europeia. A peça, associada a uma campanha de Save the Children, foi traduzida por Hans Keller para marcar a data. A obra questiona os limites da justiça e da violência em tempos de conflito, reforçando o tema central da memória e da responsabilidade.
A relação entre Britten, Menuhin e Lasker-Wallfisch permaneceu marcada por encontros e colaborações que reforçaram a percepção de que a música pode oferecer resistência e dignidade. A memória de Belsen continua a inspirar leituras sobre o papel da arte diante de tragédias humanas.
Entre na conversa da comunidade