- A moda de contar o passado cresce no cinema brasileiro e mundial, com filmes baseados em fatos reais ou ficcionais das décadas de sessenta a oitenta.
- A inteligência artificial é usada para restaurar ou recriar imagens do passado, o que pode reinterpretar a memória de forma romantizada se não houver critério.
- No Nkanda 360, a IA entra após a decisão conceitual, servindo à memória e não à aparência, mantendo fidelidade histórica e responsabilidade criativa.
- A autoria passa a ser humana para a ideia inicial, enquanto quem opera a IA tem função interpretativa; a IA não é autora.
- No contexto latino-americano, a IA pode ampliar o acesso e a visibilidade de narrativas locais, mas há risco de traduzir imagens para vocabulário dominante, exigindo transparência e critérios éticos.
A reconstrução do passado está cada vez mais presente no cinema. Filmes como Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto (2025) apostam em acontecimentos das décadas de 60 a 80. Outros títulos estrangeiros também exploram esse recurso, com lançamento recente e projeção ao Oscar de 2026.
Essa tendência coincide com avanços tecnológicos, especialmente a inteligência artificial, que ajudam a manter a memória histórica viva, mas podem reinterpretar fatos de forma romantizada. Surge o desafio de equilibrar memória e tecnologia.
Para Fernanda Thurann, atriz, CFO da Nkanda 360 e CEO da Brisa Filmes, o equilíbrio ocorre antes da IA entrar no processo. O uso da tecnologia deve ser orientado por memória e critério. Fidelidade histórica não significa congelar o passado, nem liberdade criativa sem responsabilidade.
As telonas como máquina do tempo
A Nkanda 360 atua na democratização do acesso a tecnologias de pós-produção para produtores da América Latina. O foco é VFX e IA, e a discussão central é quando a IA deixa de ser ferramenta técnica e passa a influenciar a narrativa cultural.
Fernanda afirma que a IA passa a interferir quando não resta apenas restauração, mas escolha do que deve ser visto, sentido ou lembrado. Decisões de cor, textura e ritmo podem refletir padrões aprendidos, não evidência histórica.
Autoria em camadas
Quem assina o projeto é o humano ou a IA? A criadora original mantém a intenção e o sentido histórico. A operadora de IA assume autoria interpretativa, escolhendo referências e tomando decisões estéticas e éticas.
A IA não é autor, pois não tem intenção nem memória cultural. A transparência é essencial: quem definiu cada decisão e qual o grau de reconstrução. O equilíbrio depende de clareza editorial.
O futuro do passado latino
No campo latino-americano, a IA facilita circulação, restauração e adaptação de formatos, ampliando a presença de narrativas regionais. Pode fortalecer identidades, desde que haja visão crítica sobre referências dominantes do eixo Europa–EUA.
O risco é que modelos de IA traduzam imagens para um vocabulário global. O objetivo é usar a IA para valorizar especificidades locais, mantendo sotaques visuais e ritmos culturais.
Entre preservação e reescrita
Os limites éticos ainda estão sendo consolidados. Evitar distorções históricas e falas não registradas é crucial. A memória audiovisual do futuro será preservada e reescrita, desde que haja critérios claros e transparência nas escolhas.
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