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Arquivo pessoal revela cotidiano de mulheres negras no século 20

Arquivo pessoal de Nery Rezende, com mais de nove mil itens, pode reconstituir o cotidiano de mulheres negras em São Paulo na década de cinquenta

Braços com mãos enluvadas exibem porta-retratos com foto preta-e-branca de uma jovem mulher negra maquiada, usando um vestido tomara-que-caia
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  • O Museu do Ipiranga está catalogando o arquivo pessoal de Nery Rezende, mulher negra, com mais de nove mil itens, o primeiro desse porte de uma mulher negra no acervo da instituição.
  • O acervo, doado pela filha de Nery em 2020, reúne diários, cadernos, fotografias, correspondências, objetos e documentação variada sobre a vida de Nery, da irmã Alice Rezende e da mãe Maria Helena.
  • Alice Rezende, irmã de Nery, foi atriz e participou de produções do Radiatro Experimental do Negro; o material traz diários e roteiros que indicam atividades nos anos cinquenta.
  • Parte do arquivo de Alice, incluindo diários de 1954 relacionados ao Radiatro Experimental do Negro e ao filme Veneno (1952), ajuda a mapear a invisibilidade de artistas negros da época.
  • O conjunto está em tratamento e catalogação sob coordenação de Liliane Braga; há projeto de livro de Alexandre Araujo Bispo, financiado via Catarse, com apoio de Greissy Rezende.

Nery Rezende foi uma mulher negra, trabalhadora urbana, com breve percurso artístico, que viveu a cidade de São Paulo durante o século 20. Ela acumulou diários, cadernos, cartas, fotografias e papéis diversos ao longo da vida, formando um arquivo pessoal importante.

O acervo do Museu do Ipiranga reúne mais de 9 mil itens. É o primeiro de uma mulher negra a integrar o acervo do museu ligado à USP. O material chegou ao museu em 2020, por meio da doação da filha Greissy Rezende.

O arquivo traz informações sobre Nery, sua irmã Alice Rezende e a mãe Maria Helena Rezende da Silva. Maria Helena era trabalhadora doméstica e lavadeira; as três mulheres aparecem em recortes de vida, estudo, trabalho e cultura, na São Paulo da década de 1950.

Como o arquivo entra na pesquisa

A curadoria é comandada pela equipe do museu, com apoio de Solange Ferraz de Lima, professora e pesquisadora. O conjunto inclui fotos, documentos, objetos do cotidiano doméstico e itens de consumo, oferecendo visão da classe trabalhadora.

Alexandre Araujo Bispo, antropólogo da USP, foi quem intermediou a doação e fez o primeiro contato com o acervo, ao visitar o apartamento onde Nery viveu nos Campos Elíseos. Ele também integrou o estudo que originou o livro em preparo.

O pesquisador destaca que a variedade de itens permite investigar o cotidiano de uma mulher negra na metrópole, abrindo caminhos para estudos sobre consumo, preços e salários da época. O projeto soma reciclações de dados para entender a história social.

Foco em Alice Rezende e a cultura negra

Liliane Braga, pesquisadora do museu, está no processo de tratamento do material e aponta o dossiê da irmã Alice como peça central. O arquivo indica diários, roteiros e recortes que ajudam a mapear a atuação de Alice no Radiatro Experimental do Negro de São Paulo.

A atriz participou de produções da Companhia Veracruz, no cinema nacional dos anos 1950, e aparece em registros que sugerem sua presença em rodas de cinema e televisão. O material ainda revela datas de gravação, testes e aprov ações.

A pesquisadora ressalta a invisibilidade histórica de artistas negros da época e a importância do arquivo para compreender esse circuito cultural em formação. O filme Veneno, de 1952, é citado como exemplo de produção em que Alice atuou sem créditos diretos.

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