- A montagem brasileira de Tráfico, dirigida por Victor Garcia Peralta, prescinde de cenário e mobília, dividindo a peça em três atos.
- Robson Torinni interpreta Alex, com o alter ego do dramaturgo, o Francês, impulsionando a violência descrita no texto de Sergio Blanco.
- Dois retrovisores gigantes no palco refletem a plateia, tornando o público parte da cena e impedindo desvios de olhar.
- O design de som de Marcello H. alterna ruídos urbanos e silêncios densos, reforçando o isolamento do protagonista.
- A peça quebra a quarta parede desde o início ao convidar o público a tocar no ator, criando energia variável conforme cada sessão.
A montagem brasileira de Tráfico, dirigida por Victor Garcia Peralta, despoja o palco de cenários e móveis. Em cena, Robson Torinni interpreta Alex, rapaz que transita entre garotos de programa e assassino de aluguel, em três atos. O formato prioriza transparência em cada passagem dramática.
O uso de retrovisores gigantes reflete a plateia durante toda a apresentação. Quem assiste não apenas observa, mas integra a encenação, ficando sob o olhar de quem está em cena. A iluminação corta, mantendo o espaço quase deserto ao redor do ator.
A dramaturgia de Sergio Blanco coloca o Francês como alter ego que financia e incentiva a violência. Blanco, ao aparecer como figura de poder, confronta o papel da criação artística na degradação mostrada na peça. Torinni sustenta a entrega com precisão clínica.
Elementos de produção
Sob a direção de Peralta, o corpo de Torinni permanece como único elemento vivo. A peça abandona objetos de cena para enfatizar a montagem como mecanismo. A iluminação de Bernardo Lorga acentua o isolamento do personagem, enquanto a construção sonora de Marcello H. alterna ruídos urbanos e silêncios densos.
Alex narra encontros sexuais e estrangulamentos com descrição objetiva, sem sentimentalismo. O espetáculo não oferece fugas; a vida de Alex cabe no corpo do ator e em sua atuação contida. A força do monólogo está no distanciamento técnico da narrativa.
Torinni descreve, sem pedir perdão, a ascensão que o leva à violência. O texto reúne o olhar do próprio autor e o desejo da figura em cena, criando uma dinâmica de observação contínua entre ator, personagem e dramaturgia.
Sobre a interação com o público
O monólogo quebra a quarta parede desde o início, com o ator apresentando-se e convidando o público a tocar nele. A proximidade física altera a energia entre apresentação e plateia a cada sessão. A troca entre vulnerabilidade e participação é constante.
Em entrevistas, Torinni ressaltou que a relação de confiança com o diretor permitiu explorar zonas mais intensas de invenção cênica. A liberdade apareceu como parte da construção, ao lado de uma parcela de risco criativo.
O ator descreveu a experiência de contracenar com o alter ego do dramaturgo como um estado de observação permanente. A presença do Francês transforma o processo em um experimento vivo, com apresentações ganhando camadas diferentes a cada noite.
O conjunto evidencia que o público, ao colaborar com a peça, passa a compor o cenário e o efeito emocional da encenação. O efeito é de tensão contínua, sem explicações finais ou justificativas.
Entre na conversa da comunidade