- A Bienal de Veneza apresenta pavilhões nacionais marcados pela ruína — física, arquitetônica e histórica — como leitura crítica do presente.
- Alemanha, com a série Ruin de Henrike Naumann e Sung Tieu, questiona a arquitetura do pavilhão e o conceito de “arte-washing”, em meio à controvérsia de que a direção da mostra perdeu o júri.
- Japão apresenta Grass Babies, Moon Babies, de Ei Arakawa-Nash, um nursery carnavalesco que aborda parentalidade, identidade queer e críticas à história ultranacionalista.
- Peru estreia representation indígena com Sara Flores, no pavilhão From Other Worlds, destacando kené (prática de reparo) e a defesa de um território cultural diante do desmatamento.
- Outros focos relevantes incluem: Sérvia e Palmyra na Síria; Brasil com Rosana Paulino e Adriana Varejão em Comigo ninguém pode; Morocco com Amina Agueznay em Asetta; e Portugal (Britain) com Lubaina Himid explorando história, migração e casa.
Os pavilhões nacionais da Bienal de Veneza indicam um tom de ruína que permeia a mostra. Obras destacadas associam deterioração física, arquitetônica e histórica a narrativas políticas e culturais em curso. A relação entre passado e presente emerge como tema central.
A edição atual evidencia rupturas no espaço expositivo: períodos de memória, deslocamentos de soberania e questões de identidade. Entre curadorias marcadas por polêmicas, a curadoria se torna parte da própria obra, provocando leitura crítica sobre o papel das instituições.
A cobertura abaixo sintetiza o que aconteceu, quem está envolvido, onde e por quê, com foco em informações verificáveis e linguagem factual.
Alemanha
No Pavilhão Alemão, a instalação de Henrike Naumann, concluída postumamente, forma uma leitura sobre arquitetura fascista. Sung Tieu contribui com obras que dialogam com memórias da era socialista e o ambiente de habitação do Leste. A curadoria ficou a cargo de Kathleen Reinhardt.
A obra The Home Front reúne objetos cotidianos em uma grid de itens sem rosto, enquanto o conjunto Human Dignity Shall Be Inviolable, com 3 milhões de tesselas, retrata um bloco habitacional pré-mabricado. Uma segunda peça apresenta esculturas de invasores de percepções na história.
Austria
A Áustria apresenta Sea World de Florentina Holzinger, com performance que envolve nudez e elementos de instalações com água, detritos e odores. A proposta questiona o que é visto como poluição e o que permanece oculto diante de crises ambientais.
A experiência ocorre em meio a uma tensão entre choque estético e reflexão sobre o papel da arte diante de situações de crise ecológica, apresentando uma leitura provocativa sobre responsabilidade e percepção pública.
Peru
O Pavilhão do Peru, com From Other Worlds, destaca Sara Flores da comunidade Shipibo-Konibo, a primeira artista indígena a representar o país na Bienal. A instalação enfatiza relação com a natureza, recuperação de saberes e defesa ambiental.
As obras utilizam têxteis feitos à mão e videoinstalações, ressaltando kené, filosofia de reparo da comunidade. O foco é a urgência de equilíbrio entre conservação ecológica e preservação cultural.
Japão
No Pavilhão do Japão, Ei Arakawa-Nash transforma o espaço em uma espécie de berçário carnivalesco. Infantes simulados aparecem pela fachada e no interior, com poemas que acompanham cada peça.
A obra Grass Babies, Moon Babies aborda a relação entre parentalidade, identidade e pressões sociais. A narrativa contrapõe políticas históricas ao espaço de criação artística, mantendo o tom de experimentação.
Coreia
A Coreia apresenta Liberation Space: Fortress/Nest, com instalação de Hyeree Ro e Choi Goen. Um tubo industrial externo simboliza vínculos históricos entre Japão e Coreia, enquanto o interior é formado por padrões de organza.
A exposição combina oito espaços temáticos — luto, memória, observação, vida, espera, planejamento, compartilhamento e reparo — com obras que dialogam com memórias coletivas e identidades nacionais.
Brasil
O Brasil retorna com Comigo ninguém pode, reunindo Rosana Paulino e Adriana Varejão. A curadoria é de Dina Lima, com obras históricas que dialogam com o legado da escravidão e a resistência cultural.
Paulino apresenta Aracnes, um mural de concreto com fotografias de mulheres escravizadas, enquanto Varejão apresenta Still Life amid Ruin, reflexões plásticas sobre rupturas históricas que cercam o país.
Dinamarca
Maja Malou Lyse, em parceria com o DIS, propõe uma leitura sobre fertilidade e futuro por meio de vídeos e performances. A apresentação traz dados de reprodução e cenas de maternidade, com tom restrito a propostas de políticas públicas e tecnologias.
A instalação inclui também registros de “corridas de esperma”, apresentada como estudo de futuro, em tom quase devocional, para discutir possibilidades de mudança social.
Marrocos
Ajam de Amina Agueznay representa Asetta, uma instalação têxtil coletiva que celebra artesanato Amazigh com cerca de 150 tecelãs. O projeto enfatiza a fusão entre arte contemporânea, design tradicional e saber-fazer comunitário.
A obra destaca ritmo, movimento e passagem entre espaço público e privado, evidenciando uma visão de futuro que preserva memória e prática artesanal.
Uzbequistão
Uzbequistão apresenta The Aural Sea, inspirado no Aral. A mostra utiliza obras de artistas locais para refletir sobre a seca, a migração e a identidade cultural. O projeto é curado pela primeira turma da Bukhara Biennial Curatorial School.
Instalações interativas, como Lost Form Archive, permitem aos visitantes moldar sal cristalizado em formas de peixes, enquanto outras peças exploram narrativas de reconstrução e pertencimento.
Grã-Bretanha
Britânicos apresentam Predicting History: Testing Translation, assinado por Lubaina Himid. A obra mistura pinturas, esculturas e uma trilha sonora que trata de migração, pertença e memória.
Himid descreveu o projeto como reflexão sobre o que é casa e como reconstruí-la diante de deslocamentos, destacando a experiência de representatividade histórica no cenário da Bienal.
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