- O cineasta húngaro László Nemes discute Orphan, seu drama novo inspirado pela memória familiar do Holocausto, e o processo de lidar com traumas passados.
- Orphan explora Andor, um adolescente judeu na Hungria pós‑Segunda Guerra Mundial e na insurreição de 1956, entre o Holocausto e o sonho de um pai ausente.
- Nemes conta que seu pai, András, vivenciou conflitos semelhantes aos do personagem; o filme é parte de sua tentativa de confrontar sombras familiares.
- O diretor critica a cobertura e a “overclass” de Hollywood, acusando uma orge antissemita e uma politização da cinema, que atrapalham a distribuição de Orphan.
- Moulin, biografia de Jean Moulin, foi selecionado para Cannes, e Nemes afirma desejar aproveitar as mudanças políticas recentes na Hungria como potencial eclipse de momentos sombrios, mantendo o foco em temas difíceis.
László Nemes, aclamado diretor húngaro, concedeu entrevista em Londres para falar de Orphan, seu novo drama, e do filme Moulin, de Cannes. A conversa ocorre em meio a discussões sobre o peso da memória do Holocausto e o que ele vê como uma escalada de preconceito global. Nemes comenta a relação entre passado e presente, e como isso molda sua visão de cinema.
Orphan acompanha Andor, um jovem judeu na Hungria que cresce à sombra da Segunda Guerra e da revolta de 1956. O filme aborda o trauma familiar, as mentiras e as escolhas que moldam identidades. Nemes explica que se trata de uma história sobre pais e filhos, e sobre enfrentar partes de nós mesmos que desejamos ocultar.
Nemes relembra que seu pai, András, viveu uma trajetória marcada por conflitos familiares e traumas herdados. O diretor revela que o longa traz elementos de sua própria história, usados como lente para entender o peso do passado na geração de Andor. A produção também é interpretada como um exercício de reconciliação pessoal.
Em relação ao cenário cinematográfico, o diretor afirma que houve dificuldade de distribuição para Orphan nos EUA, atribuindo isso a uma resistência ao tema judaico em debates públicos. Ele descreve a indústria de Hollywood como uma “overclass” que impõe padrões morais e políticos, dificultando a circulação de obras que tratam de questões sensíveis.
Antissemitismo e política cultural
Nemes denuncia o que chama de “orgia de antisemitismo” presente no Ocidente, vinculando esse fenômeno a movimentos identitários e a uma moralização excessiva nas redes e na indústria do cinema. O cineasta diz que a politização das obras pode excluir abordagens históricas complexas, especialmente sobre o Holocausto.
O debate se estende para a atuação de celebridades e propostas de boicote a Israel, segundo ele, muitas vezes acompanhadas de uma retórica que, na visão dele, desvia o foco dos direitos humanos para uma pauta identitária. O diretor critica a forma como a opinião pública, segundo ele, é moldada pela chamada “overclass” de Hollywood.
Para Nemes, tais tendências promovem uma visão simplista do mundo, com uma divisão entre bons e maus. Ele afirma que isso dificulta o entendimento das realidades regionais e questiona quem realmente defende direitos humanos. O diretor acrescenta que a responsabilidade de quem faz cinema envolve compreender a complexidade dos contextos retratados.
Cannes e próximos passos
Apesar das críticas, Nemes mantém o otimismo: Moulin, retratando a vida de Jean Moulin, foi selecionado para Cannes, e Orphan já encontra-se em distribuição no Reino Unido. O filme marca uma continuidade de seu interesse em temas históricos e familiares, mesmo diante de adversidades no mercado internacional.
O cineasta também comenta o momento político na Hungria, citando a derrota de Viktor Orbán como um “momento bonito” de mudança, com possibilidades significativas para a cultura e a democracia. Ele admite que o mundo vive uma fase de grandes turbulências, mas vê oportunidades de avanço e renovação.
Orphan está em cartaz nos cinemas do Reino Unido, enquanto Moulin tem estreia prevista em Cannes. Nemes reforça a ideia de que o cinema pode ser uma via para enfrentar sombras do passado sem abandonar a coragem de explorar verdades difíceis.
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