- Milo Rau, diretor do Wiener Festwochen, convidou e depois desconvideu o empresário Peter Thiel após resistência de parte do público e de produtores.
- Rau transformou o festival em “República de Viena” e mantém o formato de “tribunais” que reúnem testemunhas reais e argumentos para julgamentos simbólicos.
- O tema deste ano, “República dos deuses”, gerou controvérsias, principalmente pela associação de Thiel a ideias de extrema direita.
- Além do caso Thiel, os tribunais de Rau já trataram de Pussy Riot, Congo e casos de abusos, ampliando debate político e social na dança, teatro e música.
- O retorno do público e a recepção crítica divergem: críticos elogiam o formato, mas há questionamentos sobre a fronteira entre ficção e realidade e sobre a eficácia dos tribunais no palco.
O diretor suíço Milo Rau, conhecido por transformar julgamentos em teatro, protagonizou uma polêmica em Viena ao convidar e depois cancelar a participação do bilionário Peter Thiel no festival Festwochen. O episódio ocorreu no início de 2023 e ganhou novo desdobramento no fim de maio, quando a decisão gerou críticas sobre a linha entre ficção e realidade no formato de “tribunais” que Rau moldou ao longo de quase duas décadas.
Rau dirige o Wiener Festwochen desde 2023, transformando o festival multiarte em espaço de debate político. O tema deste ano é a “República dos Deuses”, moldado pelo formato de tribunas com testemunhas reais e sentenças simbólicas ao final. A participação de Thiel, apoiador de posições conservadoras, provocou resistência de setores do público e de organizadores, levando à desistência de uma participação pública.
A controvérsia atingiu a imagem de Rau e suscitou debates sobre os limites entre teatro e ativismo. A crítica aponta que as tribunas, antes vistas como espaço de reflexão, podem amplificar tensões externas ao teatro. Em paralelo, Rau mantém a produção em turnê sobre Gisèle Pelicot, dedicada à vítima de violência sexual, que já passou por cidades como Oslo e Copenhague, mantendo o foco em questões de justiça e memória.
Repercussões na gestão do festival
O embate envolvendo Thiel trouxe à tona a decisão de cancelar a participação para evitar boicotes de produções financiadas ou apoiadas por entidades locais. A direção afirmou ter considerado impactos institucionais e a viabilidade de manter o formato de debate público, ainda que sob pressão de diferentes setores.
A avaliação interna do festival aponta que a participação de figuras polarizadoras pode redefinir a relação com o público. Embora alguns críticos defendam a continuidade do método, outros destacam riscos de distração em relação aos temas centrais das obras em cartaz.
Desdobramentos artísticos e recepção crítica
O caso também acende o debate sobre a recepção de obras que tratam de temas sensíveis via teatralidade documental. Críticos divergem entre elogios à audácia conceitual e preocupações com a colocação de figuras públicas em posição de confronto com o público.
Paralelamente, o Tribunal da Pelicot, dedicado a destacar a resistência de Gisèle Pelicot frente à violência masculina, segue em tournée. A produção, criada em parceria com a dramaturga Servane Décle, obtém avaliações mistas na imprensa francesa, com debates sobre o formato e sua contribuição para o tema.
Rau permanece ativo na cena europeia, mantendo a marca de provocar discussões intensas sobre justiça, poder e memória. O próximo foco inclui a reinvenção de temas da operística alemã, com foco em obras que discutem culpa histórica e responsabilidade coletiva.
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