Recentemente, três filmes vêm chamando a atenção nas grandes telas, cada um com uma proposta diferente, mas com um ponto em comum. O primeiro é “Backrooms: Um Não-Lugar”, dirigido por Kane Parsons e divulgado pela A24. O filme transformou uma lenda urbana da internet em um longa de terror e suspense, com a maior estreia […]
Recentemente, três filmes vêm chamando a atenção nas grandes telas, cada um com uma proposta diferente, mas com um ponto em comum.
O primeiro é “Backrooms: Um Não-Lugar”, dirigido por Kane Parsons e divulgado pela A24. O filme transformou uma lenda urbana da internet em um longa de terror e suspense, com a maior estreia de bilheteria da produtora, arrecadando US$81,4 milhões no mercado doméstico.
O segundo é “Obsessão”, longa de terror psicológico e suspense dirigido por Curry Baker e produzido pela Tea Shop Productions, em parceria com a Capstone Pictures e a Blumhouse Productions. O filme começou com uma estreia menor, de US$17,2 milhões, mas logo transformou o orçamento de US$750 mil em US$224,8 milhões de arrecadação ao redor do mundo.
Por fim, há o filme “The Amazing Digital Circus: O Último Ato”, o mais recente da lista, lançado nos cinemas em 4 de junho. A produção funciona como o último episódio da série digital de fantasia, que conta com uma comunidade engajada, refletida em sua estreia de US$21,8 milhões no mundo em menos de uma semana.
Mas o que mais chama a atenção não é a bilheteria nem o gênero dos filmes, e sim o fato de todos estarem ligados, de alguma forma, ao YouTube. Sem a plataforma, provavelmente esses longas nunca veriam a luz do dia.
Cada um, porém, tem sua própria peculiaridade, o que torna cada vez mais tênue a divisão entre a rede social e as telonas.
Backrooms e a série adaptada da internet para o cinema

“Backrooms”, que chegou ao Brasil com o título “Backrooms: Um Não-Lugar”, foi um dos filmes mais aguardados dos três, principalmente por já se tratar de um fenômeno da internet, que já estava sendo temperado há anos para sair da bolha digital e chegar a outros meios.
O filme arrecadou US$81,4 milhões no primeiro fim de semana nos EUA e no Canadá, número altíssimo para um terror de origem digital. Ao todo, somou US$135,1 milhões no mercado doméstico, US$77,6 milhões no exterior e US$212,7 milhões no mundo, com orçamento de US$10 milhões.
O diretor Kane Parsons também alcançou um grande feito: aos 20 anos, tornou-se o diretor mais jovem da história a emplacar um filme em 1º lugar na bilheteria norte-americana.
O filme deriva de uma longa história, sendo o início com a lenda urbana da internet chamada Backrooms, ou Bastidores, que surgiu em 2019 com um post feito no 4chan, rede social de usuários anônimos.

“Se você não tomar cuidado e se esbarrar em uma superfície para sair da realidade nas áreas erradas, você vai parar nos Backrooms, onde só existe o cheiro de carpete velho e úmido, a loucura do amarelo monocromático, o ruído de fundo interminável de luzes fluorescentes no máximo e aproximadamente seiscentos milhões de quilômetros quadrados de salas vazias segmentadas aleatoriamente para ficar preso.
Que Deus te proteja se você ouvir alguma coisa andando por perto, porque com certeza ela já te ouviu.”
A partir desse simples post, uma febre se instaurou na internet, tratando as chamadas Backrooms como uma espécie de lenda urbana ou creepypasta, histórias de terror espalhadas pela internet, que se transformou em jogos, produções audiovisuais e outros formatos.Entre essas produções está a série que mistura terror analógico com elementos de found footage de Backrooms, criada por Kane, que usa na internet o nome “Kane Pixels”. Ao longo de 18 episódios, a produção soma mais de 200 milhões de visualizações.

Com apenas 17 anos, ele foi contratado pela A24 para levar sua série de terror às telonas, onde nesse caso, o cinema serviu para traduzir uma lenda urbana espalhada por fóruns e jogos para fora da internet.
Curry Baker e o holofote do Youtube para novos criadores
O filme de terror dirigido por Curry Baker, “Obsessão”, registrou uma das maiores bilheterias de terror deste ano. A produção estreou com um valor mais baixo do que os outros, de US$17,2 milhões nos EUA e no Canadá, mas depois chegou a US$152,1 milhões no mercado doméstico, US$72,7 milhões no exterior e US$224,8 milhões no mundo todo.
O terror foca em Bear, um jovem tímido que trabalha em uma loja de música e é apaixonado por Nikki, sua amiga de infância e colega de trabalho. Na trama, ele faz um pedido para que ela o ame “mais do que qualquer pessoa no mundo”, transformando-a em uma pessoa obsessiva e perigosa.

Mesmo que mais discreta, a produção também tem uma ligação com o YouTube. Desta vez, a conexão passa pela descoberta do diretor Curry Baker, por meio de suas produções na plataforma.
O diretor veio do canal “That’s a Bad Idea”, criado com Cooper Tomlinson, onde fazia esquetes de comédia e curtas de horror. Os dois começaram a postar vídeos no YouTube enquanto estudavam cinema, mas largaram os estudos durante a pandemia e passaram a tratar o canal como uma “escola de cinema” fora da faculdade.
Antes de “Obsessão”, Baker chamou atenção com “Milk & Serial”, um terror found footage feito por cerca de US$800 e lançado gratuitamente no YouTube, onde conta com mais de 3 milhões de visualizações.. O filme acompanha dois criadores de pegadinhas que gravam tudo para conteúdo, até que a dinâmica entre eles sai do controle.

Aqui, a ponte com a internet serviu para colocar os holofotes em Baker, que não chegou ao cinema por uma rota comum de festivais ou curtas universitários, mas pelas redes. Foi nelas que mostrou que conseguia criar produções de qualidade, com pouco orçamento e apelo suficiente para chamar a atenção do público.
A linha direta entre internet e cinema com The amazing digital circus
Dirigido pela animadora e musicista Gooseworx, “The Amazing Digital Circus: o último ato” é o lançamento mais recente da lista, lançado em 4 de junho. Graças a uma comunidade de fãs bem engajada, a produção conseguiu bons números: em menos de uma semana, arrecadou US$19,47 milhões no mercado doméstico e US$23,18 milhões no mundo.
Além disso, liderou a bilheteria doméstica com cerca de US$7,8 milhões, passando à frente de estreias e franquias tradicionais em cartaz, como “Todo Mundo em Pânico 6” e “Mestres do Universo”.
O filme é uma junção dos dois últimos episódios da série lançada no YouTube “The Amazing Digital Circus”, que compõem o desfecho da trama. A história acompanha Pomni, uma mulher que fica presa em um mundo virtual com estética de circo ao lado de outros cinco humanos.

A série já conta com 8 episódios publicados gratuitamente no YouTube, onde o piloto ultrapassa 400 milhões de visualizações, enquanto a produção inteira passa de 1 bilhão.
Diferente das outras produções, que nasceram no YouTube ou serviram de holofote para criadores, este é um filme que leva diretamente a trama postada na plataforma para as telonas., que cria uma conexão direta entre a rede social e o cinema, fazendo do YouTube um ponto de origem para novas produções.
Então, estaria o youtube se tornando a galinha dos ovos de ouro de Hollywood?
Com isso, surge o questionamento: em meio a tantas franquias consolidadas no cinema e a uma possível saturação de temas no mainstream da sétima arte, os criadores de conteúdo do YouTube estariam se transformando na salvação do cinema?
Primeiro, é preciso destacar que o cinema em si não precisa de salvação, visto que, como toda arte, ele é diverso e apresenta várias facetas, com ótimas produções. Porém, o cinema popular, que ocupa diversas salas, torna-se cada vez mais saturado das mesmas fórmulas para atrair o público.
Seja nas franquias eternas, nos filmes de super-heróis recheados de CGI ou até mesmo no próprio terror, com as mesmas premissas, o meio popular do cinema se vê estagnado quando se olha apenas para a superfície do que bomba. Por isso, essas produções que saem da internet e chegam às telonas se tornam um diferencial e podem representar uma virada de chave.
Esse novo ponto de partida viria diretamente da liberdade criativa que esses criadores têm. No caso de Baker, por exemplo, ele teve uma ideia própria, popularizou essa proposta e, a partir disso, ganhou holofotes para exercer sua criatividade no cinema.

Também seria utilizada a própria popularidade em meio ao público, cada vez mais presente nas redes, para aproximar essa forma de arte de novas audiências.
“Obsessão” inclusive carrega essa marca do YouTube diretamente para o cinema, visto que Baker evita sustos tradicionais de casa assombrada e trabalha com um ritmo de edição estranho e instável, em parte ligado ao fato de vir do YouTube, editar os próprios filmes e ter origem na comédia de esquetes.
Porém, as redes não podem ser vistas como salvadoras totais, visto que influenciadores e conteúdos feitos apenas por views fáceis também ganham muita tração nas plataformas.

A melhor visão seria olhar para a plataforma como mais uma ponte entre novos cineastas e o cinema tradicional, assim como festivais independentes, apadrinhamentos de estúdio, curtas universitários e outros caminhos.
Com isso, esses artistas independentes podem divulgar suas ideias gratuitamente na plataforma. Junto da curadoria do cinema tradicional, de produtoras e críticos, esse movimento pode levar o melhor da criatividade da internet para as grandes telas.
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