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Backrooms e o fenômeno da lenda urbana digital que virou sucesso de bilheteria

Diretor do filme, Kane Parsons, trouxe a idéia de sua série do youtube para o cinema com a ajuda da distribuidora A24

Foto: Divulgação

Nos últimos dias, o filme “Backrooms”, que chegou ao Brasil com o título “Backrooms: Um Não-Lugar”, tomou conta das salas de cinema e se tornou um sucesso de bilheteria. Dirigido pelo jovem Kane Parsons, de apenas 20 anos, e distribuído pela A24, o longa foi um sucesso de bilheteria, arrecadando US$216,2 milhões no mundo todo, […]

Nos últimos dias, o filme “Backrooms”, que chegou ao Brasil com o título “Backrooms: Um Não-Lugar”, tomou conta das salas de cinema e se tornou um sucesso de bilheteria.

Dirigido pelo jovem Kane Parsons, de apenas 20 anos, e distribuído pela A24, o longa foi um sucesso de bilheteria, arrecadando US$216,2 milhões no mundo todo, sendo US$138,6 milhões nos EUA e no Canadá e US$77,6 milhões no mercado internacional.

A estreia no mercado doméstico foi de US$81,4 milhões, número alto para um terror da A24. Kane também quebrou um recorde ao se tornar, aos 20 anos, o diretor mais jovem da história a comandar um filme que alcançou o primeiro lugar nas bilheterias dos Estados Unidos.

Foto: Reprodução/Reddit

Porém, o filme tem uma ligação muito direta com a internet, principalmente com uma lenda urbana que há anos se tornou febre no meio digital e já conta com histórias, jogos e, agora, um filme nas grandes telas.

O que são as Backrooms?

Backrooms, traduzido literalmente como “salas dos fundos” ou “bastidores”, tornou-se um conceito muito aprofundado no nicho de terror digital há anos.

O conceito consiste em uma espécie de outra realidade conectada ao nosso mundo, que, originalmente, tem o visual de paredes de escritório amareladas, luzes fortes e carpetes que se estendem por um espaço enorme e vazio.

Essa lenda surgiu em 2019 com um singelo post feito no 4chan, rede social de usuários anônimos.

Foto: Reprodução/Reddit

“Se você não tomar cuidado e se esbarrar em uma superfície para sair da realidade nas áreas erradas, você vai parar nos Backrooms, onde só existe o cheiro de carpete velho e úmido, a loucura do amarelo monocromático, o ruído de fundo interminável de luzes fluorescentes no máximo e aproximadamente seiscentos milhões de quilômetros quadrados de salas vazias segmentadas aleatoriamente para ficar preso.
Que Deus te proteja se você ouvir alguma coisa andando por perto, porque com certeza ela já te ouviu.”

Com o tempo, a simples postagem virou uma espécie de lenda urbana da internet, em que o nicho de terror se aprofundou no conceito, criando “níveis” com novas estéticas, monstros e formas de escapar do local, mas tudo de forma maleável, por meio de fóruns, jogos e produções audiovisuais.

Junto com a lenda das Backrooms, também se popularizou o conceito de “espaços liminares”. A palavra vem de “liminar”, ligada ao latim limen, que significa algo como limiar, soleira ou fronteira.

O conceito foi apresentado inicialmente pelo francês Arnold van Gennep, que usou a ideia de liminaridade em 1909, no livro Les Rites de Passage, para falar da fase intermediária dos rituais de passagem, quando uma pessoa já deixou um status antigo, mas ainda não assumiu o novo.

Depois, o antropólogo Victor Turner ajudou a tornar o conceito mais conhecido nas ciências sociais, especialmente nos anos 1960, ao estudar rituais, transições sociais e a sensação de estar “entre” uma identidade e outra.

Na internet, porém, isso virou uma estética ainda relacionada ao conceito inicial da palavra, onde espaços liminares são locais vazios que transmitem certa estranheza, mesmo sendo ambientes comuns.

Foto: Reprodução/Facebook

O principal foco dessa estética é explorar lugares que normalmente estariam cheios, ou pelos quais você passaria pouco tempo, transformando-os em foco do medo: agora vazios, são espaços onde você deve andar por milhas e milhas, quase como o limiar entre a nossa realidade e outra considerada “errada”.

Alguns exemplos são: corredores infinitos de hotéis, parques de diversões vazios, estacionamentos desertos, escritórios, escolas ou shoppings sem pessoas.

Foto: Reprodução/Threads/@luscafusca150

A estética virou um subgênero de terror, em que, mesmo sem utilizar as Backrooms em si ou todo o seu conceito aprofundado, já é explorada em outras produções.

Kane “Pixels” e o início do seu caminho até o cinema

Há quatro anos, em 7 de janeiro de 2022, Kane Pixels, codinome utilizado por Kane Parsons em seu canal no YouTube, lançava o vídeo “The Backrooms (Found Footage)”, que já conta com mais de 80 milhões de visualizações.

O vídeo foi o primeiro episódio da série digital de Kane, que soma, no total, mais de 200 milhões de visualizações entre seus 18 episódios, principal vitrine para que ele levasse o conceito aos cinemas.

Foto: Reprodução/Youtube

O primeiro episódio mostra um personagem caindo sem querer nas Backrooms e acompanhando sua exploração pelo local, além de apresentar um de seus perigos, o chamado The Lifeform (A Forma de Vida) também conhecido como The Bacteria (A Bactéria), criatura humanoide longa e escura que se origina a partir do crescimento de mofo ou bactéria mutante nas salas.
Foto: Reprodução/Youtube

Ao longo da série, Kane apresenta uma proposta diferente da que aparece em outros locais, que tratam as Backrooms como algo sobrenatural ou cheio de entidades. 

Aqui, elas são apresentadas como algo misturado à ciência, em que a empresa Async as estuda para vender essa nova realidade como algo “revolucionário”, devido ao seu espaço vasto e quase infinito.

Foto: Reprodução/Youtube

A trama de backrooms, agora nos cinemas

Foto: Divulgação

Fora do YouTube e dentro das telonas, o filme das Backrooms mantém uma essência semelhante à de seu antecessor, visto que ambos exploram o mesmo conceito.

A trama segue Clark, um arquiteto fracassado que trabalha na loja de móveis “Império Otomano do Capitão Clark” e passa por momentos difíceis após um divórcio, além da pressão para lidar com um estabelecimento que não parece vender bem.Durante algumas de suas estadias no trabalho, Clark acaba descobrindo uma passagem para as Backrooms, que ele explora ao perceber que estaria embaixo de seu próprio estabelecimento.

Foto: Divulgação

Ao longo do filme, ele passa a explorar e estudar as Backrooms, ficando cada vez mais aficionado por elas, a ponto de arrastar seus funcionários Kat e Bobby, além de sua psicóloga, Mary.

A tradução da internet para o mundo da 7° arte

Ao tratar de um tema que foi abordado apenas no meio digital e de diversas formas diferentes, é difícil traduzir toda essa sensação para um formato de produção que, ao ser divulgado para as massas, exige um manejo diferente.

Kane conseguiu trazer o fenômeno das Backrooms de forma sólida para as telas de cinema, porém ainda com algumas ressalvas. O filme não é uma adaptação direta de sua série do YouTube para as telonas, mas, ao mesmo tempo, traz muitos conceitos apresentados nela para esse novo formato.

A forma como a trama é conduzida é o principal ponto que altera o desenvolvimento do filme.

Na série digital, Kane é muito mais sucinto ao apresentar a história para o público, até porque a produção também deriva bastante do analog horror, um gênero de terror popular principalmente na internet, que usa fitas VHS, gravações em baixa qualidade, programas de TV e alertas de defesa para contar uma história.

Foto: Reprodução/Youtube

Nesse gênero, a trama muitas vezes vira quase que um “enigma”, em que o espectador precisa assistir a diversos vídeos, prestar atenção aos detalhes e até observar mensagens escondidas em legendas e descrições para não deixar nada passar batido.

Por mais que a série de Kane não use tantos enigmas, ela ainda é mais sucinta, sem apresentar personagens principais com tramas próprias a serem desenvolvidas. 

O foco está muito mais em apresentar o ambiente das Backrooms em si, por meio de várias pessoas que funcionam quase como “personagens genéricos”, sem nomes e apenas com funções específicas.Isso se relaciona diretamente com o conceito de Backrooms, pois, ao focar mais no ambiente e menos nos personagens, ele consegue trazer a sensação de espaço liminar de forma muito mais forte e destacar o terror do vazio e da ausência de elementos, criando um forte horror psicológico.

Foto: Reprodução/Youtube

Já no filme, a proposta é um pouco diferente, pois temos personagens com nome, desenvolvimento, problemas e desejos, onde a trama foca muito mais no contato deles com as Backrooms do que se aprofundar nelas.

Isso acaba transformando o terror em algo muito mais focado nos personagens do que no aproveitamento do tema e do espaço em si, que sempre foi o foco das produções que o envolvia.

Por outro lado, mesmo que isso tire um pouco do “tempero” do gênero principal, também é necessário na hora de adaptar uma série de internet para as telonas, visto que, ao apresentar a história para um público mais abrangente, mudanças seriam necessárias para não torná-la uma obra muito maçante ou chata.

Porém, o ponto principal é justamente que o foco no psicológico dos personagens foi muito maior do que nas Backrooms em si, fazendo com que ela perdesse seu principal diferencial em meio a tramas individuais.

Foto: Divulgação

No fim, o filme consegue traduzir os conceitos da história original para criar um bom suspense, porém peca na hora de se aprofundar no próprio conceito do espaço.

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