- A peça Língua, centrada na festa de aniversário de um filho surdo, estreou no Rio de Janeiro em 2024 com encenação bilíngue em português e Libras.
- O diretor Vinicius Arneiro percebeu que o público surdo buscava os intérpretes no início e, desde então, a Libras ocupa espaço central na encenação; a peça foi apresentada também na MITsp e, recentemente, no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação.
- Ricardo Boaretto interpreta o taxista surdo Matias; três dos quatro atores ouvintes são fluentes em Libras; a montagem envolve um intérprete na fase de preparação, garantindo comunicação entre equipe e elenco.
- A obra, vencedora do Prêmio Shell no Rio, emerge de um projeto bilíngue anterior realizado pelo Itaú Cultural durante a pandemia e busca ir além da simples acessibilidade, integrando a Libras ao processo criativo.
- A mostra também integra a cena teatral surda brasileira, com espaços como a Mostra Surda de Teatro, que chega à terceira edição em 2024, fortalecendo a presença de propostas bilíngues no cenário.
No Rio de Janeiro, a estreia da peça Língua, em 2024, trouxe à tona a centralidade da Libras no espetáculo. A obra, criada e encenada em português e em Libras, surpreendeu ao mostrar que o público surdo já circulava pela plateia buscando áreas com melhor visualização da interpretação.
O diretor Vinicius Arneiro percebeu que os espectadores surdos entravam pelo teatro e se acomodavam nos cantos onde intérpretes costumam ficar. Ele conversou com os primeiros a chegar, com a ajuda de um intérprete, e explicou que poderiam sentar em qualquer lugar. A encenação, porém, já fluía com presença de Libras em todo o espaço.
A montagem fez temporada bem-sucedida no Rio e ganhou palco na MITsp, em São Paulo. A estreia paulista ocorreu no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, com apresentações até o fim do mês. A comunidade surda participou ativamente, inclusive no saguão, com uso de Libras antes do sinal inicial.
Desafios e avanços na encenação
Na capital paulista, ficou claro que o público surdo se articulou para acompanhar a peça. No fim, os aplausos foram gestualizados com as mãos, sinalizando envolvimento da plateia. A história acompanha uma festa de aniversário organizada por uma mãe para o filho surdo, revelando dilemas e dinâmicas entre ouvintes e não ouvintes.
O personagem principal, o taxista Matias, é interpretado por Ricardo Boaretto, um ator surdo. Entre os quatro atores, três são ouvintes fluentes em Libras. A dramaturgia, premiada com o Shell no Rio de Janeiro, resulta de uma parceria entre Vinicius Arneiro e Pedro Emanuel, originada de um projeto anterior bilíngue pelo Itaú Cultural durante a pandemia.
A ideia central é ir além da acessibilidade, integrando a inclusão ao processo criativo. O diretor relata que o trabalho exigiu aprender mais sobre Libras e lidar com ruídos de comunicação na sala de ensaio, o que abriu espaço para novas estratégias dramáticas.
A experiência também envolveu o ator Marcelo William, que participou de uma montagem bilíngue anterior e contribuiu para ampliar a compreensão da relação entre Libras e português. A cada etapa, Arneiro destacou a necessidade de enfrentar situações desafiadoras sem romantizar dificuldades.
A Mostra Surda de Teatro, realizada em Curitiba, serve como referência para artistas e produtores surdos. Em sua terceira edição, a mostra reuniu apresentações que discutem linguagem de sinais como instrumento de memória, expressão poética e participação do público.
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