- Abraccine lança a lista de cem filmes brasileiros essenciais para 2026, em ordem cronológica e sem classificação de “melhores”.
- As diretoras aparecem com vinte e poucos títulos no total (16), aumentando a presença feminina em relação a 2015; nomes como Adélia Sampaio, Helena Solberg, Juliana Rojas e Lucia Murat ganham espaço.
- Restauros passam a ser parte importante, ampliando a visibilidade de obras raras ou circuladas pouco em cópias atuais, como “Também Somos Irmãos” (1949).
- Glauber Rocha perde o posto de cineasta mais citado; Nelson Pereira dos Santos fica com o maior número de menções, com atuação que vai dos anos cinquenta aos oitenta.
- Há ausências discutidas, como a de André Novais Oliveira, e a lista enfatiza temáticas de escravatura, racismo e identidade, com a década de sessenta dominando o cânone.
A Abraccine — Associação Brasileira de Críticos de Cinema — divulgou a lista de 100 filmes brasileiros considerados essenciais para 2026. A novidade não está apenas na quantidade, mas na forma de apresentação: os títulos passam a ser chamados de essenciais e são apresentados em ordem cronológica, em vez de classificados por voto.
A mudança de nomenclatura envolve também a visão sobre o que compõe o cânone: obras antes vistas como “melhores” passam a ser tratadas como parte de um repertório essencial, com foco na retomada histórica e em novas leituras. A escolha evidencia a ascensão de grupos que buscam maior inclusão de perspectivas até então sub-representadas.
O que mudou em relação a 2015
A lista de 2026 traz mudanças expressivas em relação à sondagem de 2015. Os filmes restaurados ganham protagonismo, permitindo a reavaliação de obras que circularam pouco ou ficaram restritas a cópias de arquivo. Exemplo citado é o drama Amor Maldito, de 1984, cuja restauração facilita o acesso e a percepção crítica.
O conjunto sinaliza uma democratização do cânone, com maior presença de filmes dirigidos por mulheres e por diretores negros. O acréscimo de nomes como Adélia Sampaio, primeira diretora negra de ficção no Brasil, reforça esse movimento. Também passam a constar nomes como Gilda de Abreu, responsável por O Ébrio (1946).
Dados relevantes da lista atual
As diretoras aparecem em 16 dos 100 títulos, frente a apenas 5 em 2015, representando uma triplicação na participação feminina, incluindo codireção em alguns casos. A inclusão de Kátia Lund como codiretora de Cidade de Deus mostra evolução na autoria dos filmes mais reconhecidos.
Entre as obras, há destaque para a atuação de cineastas negras, como Adélia Sampaio, e para nomes ligados ao cinema novo, que reaparecem em novas leituras históricas. A lista mantém Atem 1931 Limite e 1933 Ganga Bruta como representantes dos anos 1930, mas concentra a maior parte nos anos 1960, considerados marco de nascimento de uma cinematografia nacional.
Mudanças de liderança e temas
Glauber Rocha perde espaço como autor mais citado, sendo ultrapassado por Nelson Pereira dos Santos, que aparece com quatro títulos distribuídos entre as décadas de 1950 a 1980. O recorte temático evidencia menor peso de obras policial-policiais e de filmes de edição mais comercial, com impacto observado em itens antes fortemente citados.
A lista também aponta lacunas ainda presentes: cineastas negros contemporâneos aparecem com menor frequência, possivelmente pela menor visibilidade de obras recentes. A ausência de André Novais Oliveira, apesar de obras premiadas, é mencionada pelo público especializado como surpresa.
Perspectivas e desdobramentos
Especialistas destacam que a renovação do cânone reflete debates sobre inclusão e identidade no cinema brasileiro. A presença de títulos premiados em festivais internacionais, como Oscar e Cannes, ao lado de obras restauradas, ilustra a diversidade de caminhos que compõem a produção nacional.
A Abraccine ressalta que a seleção não é estática e pode abrir espaço para novas revisões futuras. A comunicação entre crítica, produção e público segue em movimento, com o objetivo de ampliar a compreensão sobre a história do cinema brasileiro.
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