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Língua inverte lógica da opressão linguística e desafia plateia no Sesc

Espetáculo bilíngue em Libras e português no Sesc Consolação inova ao inverter opressão linguística e unir público pela experiência sensorial

Atores em cena da montagem bilíngue (português e LIBRAS) - Matheus José Maria / Divulgação
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  • A peça Língua, vencedora do Prêmio Shell de Melhor Dramaturgia em 2025, está em cartaz no Sesc Consolação e mistura português e Libras em uma montagem bilíngue.
  • A história acompanha a festa surpresa de Matias, com foco em segredos familiares, assédio, dilemas de adoção e a comunicação entre pessoas surdas e ouvintes.
  • A surdez de Matias não é o conflito central; o drama explora o abismo entre o que se sente e a dificuldade de expressá-lo, enfatizando que o afeto vai além da gramática.
  • Félix, único personagem monolíngue, funciona como espelho do público ouvinte, experimentando o peso de depender da tradução para existir na situação.
  • A encenação privilegia a tradução em Libras como parte da coreografia e utiliza uma ambientação sonora com frequências graves e vibrações para unificar surdos e ouvintes na experiência teatral.

A montagem Língua, criação de Vinicius Arneiro e Filipe Codeço, está em cartaz no Sesc Consolação e venceu o Shell 2025 de Melhor Dramaturgia. A peça bilíngue une Português e Libras, descentrando a fala para explorar comunicação por sinais e corpo. A proposta não é apenas representar surdos, mas repensar o espaço cônico da linguagem.

A trama se passa na festa surpresa de Matias, interpretado pelo ator surdo Ricardo Boaretto, cuja comemoração é interrompida por segredos familiares, assédio e dilemas de adoção. O foco não é a surdez como conflito, e sim a tentativa de expressar o inexplicável pela convivência entre línguas.

A encenação coloca o público dentro da casa, onde o som é menos o motor da história do que a presença física. Geralmente, intérpretes de Libras ficam à margem; aqui, a tradução acontece em cena, com coreografia e participação direta de todos os atores.

Estrutura e inovação cênica

A direção aposta na linguagem como experiência sensorial. Félix, o único personagem monolíngue, funciona como espelho da plateia, revelando o peso de depender da tradução para existir no diálogo. A obra convida o público a experimentar o isolamento que pode acompanhar quem não domina a comunicação dominante.

A trilha sonora, assinada por Felipe Storino, utiliza frequências graves e vibrações para sentir o espaço com o corpo. Essa sonoplastia busca unir surdos e ouvintes em um campo perceptivo comum, sem homogeneizar as experiências.

A concepção parte de uma continuidade com o trabalho de Arneiro e Codeço desde 2016, expandindo a visão para o campo político da intimidade. O ritmo das cenas e as deixas são elaborados de forma coletiva, incluindo intérpretes surdos e ouvintes.

O projeto também envolve a transcriação de Lorraine Mayer e a atuação de Erika Rettl, Jhonatas Narciso e Luize Mendes Dias, que traduzem em Libras com fluência orgânica. A interação entre fala, sinal e corpo cria uma comunidade cênica integrada.

A experiência sonora foi pensada para ampliar a percepção de todos na plateia, buscando uma leitura compartilhada do espetáculo. Ao final, a plateia costuma reagir com gestos de aprovação, em vez de aplausos sonoros tradicionais.

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