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Como o consumo de pornografia pode destruir você

Estudo aponta que, aos poucos, o consumo de pornografia afeta a capacidade de concentração, aumenta a ansiedade e dificulta o desenvolvimento de relacionamentos afetivos.

Como o hábito pode destruir a vida de milhares de pessoas e família. Imagem: Free Pik.

Em 2021, a cantora Billie Eilish chocou parte do público ao revelar que consumia pornografia desde os 11 anos. “Destruiu meu cérebro. Eu me sentia totalmente devastada por consumir tanta pornografia”, afirmou. Desde então, ela passou a criticar o consumo desse tipo de conteúdo: “É uma vergonha”. A artista relata que a exposição a materiais […]

Em 2021, a cantora Billie Eilish chocou parte do público ao revelar que consumia pornografia desde os 11 anos.

“Destruiu meu cérebro. Eu me sentia totalmente devastada por consumir tanta pornografia”, afirmou. Desde então, ela passou a criticar o consumo desse tipo de conteúdo: “É uma vergonha”. A artista relata que a exposição a materiais violentos e abusivos alterou a forma como enxergava o próprio corpo e prejudicou seus relacionamentos afetivos.

O depoimento ganhou repercussão ao expor, de forma direta, os impactos desse tipo de conteúdo na sexualidade de jovens.

Antes restrita a uma indústria marginal, a pornografia se popularizou com a internet e se tornou amplamente acessível ao público jovem. Uma pesquisa da Common Sense Media, de 2025, mostrou que 42% dos adolescentes entre 13 e 17 anos já consumiram esse tipo de conteúdo — um dado considerado alarmante.

Consumo cobra um preço alto

A ideia de que a pornografia é um hábito privado, sem grandes consequências, vem sendo cada vez mais questionada. Nos últimos anos, pesquisas passaram a investigar seus efeitos no cérebro e no comportamento.

Um estudo intitulado The impact of internet pornography addiction on brain function: a functional near-infrared spectroscopy study” analisou diretamente o funcionamento cerebral de usuários. Os resultados indicam que o consumo frequente não apenas influencia o comportamento, mas pode alterar o funcionamento do cérebro, afetando cognição, emoções e tomada de decisão. 

O problema vai além da frequência. O terapeuta Giovanni José Oliveira e Silva afirma que, com o tempo, a pornografia pode alterar o comportamento e a personalidade:

“A pornografia não afeta apenas o desejo sexual; pode empobrecer a vida emocional e reduzir a capacidade de autocontrole.”

O consumo excessivo está associado a efeitos mentais, psicológicos e comportamentais, como aumento da ansiedade, dificuldade de concentração, sensação de vazio, irritabilidade e episódios depressivos.

“Além disso, pela neuroplasticidade, o cérebro pode criar vias neurais associadas a estímulos artificiais, condicionando o desejo. Em casos mais graves, há objetificação nas relações e dificuldade de sustentar atenção em atividades como estudo e trabalho”, destaca o terapeuta.

Do prazer inicial ao vício

A pornografia não começa como uma doença, mas pode evoluir para um quadro de dependência. A partir daí, passa a funcionar como uma disfunção, ao desorganizar o cérebro, afetar as emoções e reduzir a liberdade da pessoa.

O ponto de virada ocorre quando o comportamento deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade:

“Começa a atrapalhar a vida da pessoa, e ela já não consegue parar mesmo querendo”, afirma Giovanni.

Segundo ele, esse processo ocorre em três etapas.

Aprendizagem
O cérebro associa o consumo ao prazer ou ao alívio emocional, reforçando a repetição do comportamento.

Formação do hábito
O consumo passa a ser utilizado para lidar com emoções como estresse, tristeza ou solidão, tornando-se frequente e automático.

Dependência
O desejo surge quase como um reflexo. Há tolerância: a pessoa precisa consumir mais — ou conteúdos mais intensos — para obter menos satisfação.

Queda no desempenho cognitivo

Um dos principais achados do estudo foi a alteração no desempenho cognitivo após o consumo.

Os participantes realizaram um teste que mede atenção, controle cognitivo e capacidade de lidar com informações conflitantes. Antes da exposição, não havia diferença entre os grupos. Depois, usuários frequentes apresentaram maior tempo de resposta e menor precisão.

Em outras palavras, o desempenho mental piorou.

Isso sugere impacto direto na capacidade de concentração, foco e tomada de decisão — habilidades essenciais para estudo, trabalho e resolução de problemas.

Giovanni observa esse efeito na prática clínica:

“A pessoa passa a ter dificuldade de sustentar atenção, estudar e trabalhar. Isso não acontece por acaso — é consequência da forma como o cérebro vai sendo moldado.”

Emoções mais intensas e instáveis

O estudo também analisou reações emocionais durante o consumo, utilizando reconhecimento facial.

Usuários frequentes apresentaram níveis mais altos de prazer, mas também maior presença de emoções negativas, como tristeza e irritação, além de expressões neutras ou “vazias”.

O resultado aponta um paradoxo: o mesmo estímulo que gera prazer intenso também está associado à instabilidade emocional.

Questionários aplicados indicaram ainda níveis mais elevados de ansiedade e depressão entre usuários frequentes.

Dopamina e o sistema de recompensa

Para entender esse processo, é preciso olhar para o funcionamento do cérebro. A pornografia atua no sistema de recompensa, regulado pela dopamina, neurotransmissor ligado à motivação e à expectativa de prazer.

A exposição contínua provoca liberações intensas e repetidas, o que pode gerar desejo crescente e dependência — mecanismo semelhante ao observado em dependências químicas.

“Com o uso repetido, ocorre um processo de dessensibilização. O cérebro se acostuma com níveis altos de estímulo, e aquilo que antes dava prazer deixa de ser suficiente”, explica Giovanni.

Com o tempo, há redução da sensibilidade a estímulos naturais, como relações afetivas e conquistas pessoais:

“A vida perde a graça. O trabalho desanima, as relações ficam mais difíceis, e a pessoa passa a depender daquele estímulo artificial.”

Impacto na sexualidade

A pornografia oferece estímulos intensos e constantes, criando um padrão artificial de excitação que não corresponde à realidade.

“O cérebro aprende a associar o desejo a estímulos artificiais. Depois, a pessoa encontra dificuldade em responder à realidade”, afirma o terapeuta.

Na prática, isso pode levar à dificuldade de excitação com parceiros reais, redução da satisfação sexual e busca por estímulos cada vez mais intensos.

O estudo também aponta maior excitação durante o consumo entre usuários frequentes, o que reforça esse padrão.

Além disso, há impacto nos relacionamentos:

“O amor exige que o outro saia de si. A pornografia é o contrário disso.”

O ciclo emocional do consumo

O consumo raramente é isolado — ele tende a se transformar em ciclo: prazer imediato, seguido de vazio ou culpa, e retorno ao comportamento.

“É estabelecido um ciclo de culpa, vergonha e queda da autoestima, e essas emoções passam a alimentar o próprio comportamento”, explica Giovanni.

O estudo associa esse padrão a níveis mais altos de ansiedade e depressão.

Os efeitos também se manifestam no corpo. Durante o consumo, há aumento da excitação fisiológica, alterações na frequência cardíaca e no sistema nervoso autônomo — respostas semelhantes às observadas em estímulos altamente recompensadores, como drogas.

Na prática, o que começa como um hábito se revela um mecanismo que envolve mente e corpo, reforçando um ciclo difícil de interromper.

Como interromper o ciclo

O tratamento exige mais do que interromper o consumo.

“Não é só parar. É reconstruir a pessoa que aprendeu a depender disso”, afirma Giovanni.

Isso porque a pornografia não se sustenta apenas pelo acesso, mas por uma estrutura interna já modificada — crenças, afetos, imaginário e a forma de lidar com dor, frustração e solidão. Sem tratar essa base, o comportamento tende a retornar.

Na prática, isso envolve reconhecer gatilhos, criar limites, substituir hábitos e buscar apoio. A terapia, especialmente a cognitivo-comportamental, pode ser um caminho importante — não apenas para conter o comportamento, mas para reorganizar a forma de viver.

Até as recaídas passam a ser parte do processo, funcionando como ajustes de rota. Para quem acredita, prática religiosa também pode oferecer suporte.

A mudança real não começa quando o acesso é bloqueado, mas quando o interior é transformado.

No fim, a questão deixa de ser apenas algo pontual para se divertir. E passa a ser exercício de autonomia: até que ponto suas escolhas ainda são, de fato, suas?

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