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Cílvio Meireles fala sobre seu novo lançamento da série ‘Abdullah’ e a perseguição cristã no Oriente Médio

Novo livro se aprofunda na história do muçulmano que se converteu ao cristianismo

Segundo livro da série Abdullah demorou 7 anos para ser feito - Foto: Divulgação
  • O jornalista e escritor Cílvio Meireles lançou o livro “Abdullah: Por que eu não sou mais um muçulmano”, sequência da biografia de um ex-extremista que se converteu ao cristianismo.
  • A obra detalha os conflitos e perseguições que Abdullah enfrentou após sua conversão, incluindo ameaças e atentados.
  • O livro traz o testemunho inédito da esposa de Abdullah e reflexões sobre o Líbano, seu país natal.
  • Meireles destaca a busca de Abdullah por dignidade e segurança, além de sua firmeza na fé, mesmo diante de perseguições.
  • O autor espera que a obra inspire pessoas em crises espirituais e valorize a liberdade religiosa, ressaltando a realidade de cristãos em países muçulmanos.

Após publicar “Abdullah, escravo de Deus”, o jornalista e escritor Cílvio Meireles lançou “Abdullah: Por que eu não sou mais um muçulmano”, continuação da biografia do ex-extremista que rompeu com o islamismo para seguir a fé cristã.

A nova obra aprofunda os conflitos e perseguições enfrentados por Abdullah após tornar pública sua conversão, e mostra episódios de ameaças, atentados e a luta constante por dignidade e segurança.

O livro amplia a dimensão humana da história ao incluir o testemunho inédito da esposa de Abdullah e reflexões sobre o Líbano, seu país natal.

Com uma linguagem direta e pesquisa detalhada, Meireles oferece um relato sobre fé e recomeço que ultrapassa fronteiras religiosas e abre espaço para o dialógo sobre liberdade espiritual e o poder da transformação pessoal através da fé.

O Portal Tela entrevistou Cílvio Meireles, que se aprofundou nas questões abordadas no livro, sobre a vida de Abdullah e sua vivência com a religião cristã em países muçulmanos. Confira a entrevista completa a seguir:

1. Como você conheceu Abdullah e o que te motivou a escrever os livros e trazer sua vivência para o público?

Cílvio: “Já sou estudioso da religião islâmica há bastante tempo e morei no Egito, além de passar por alguns países em pesquisas e trabalhos humanitários na área de islã. Voltei para Fortaleza, onde moro hoje, e em 2008 a igreja que eu frequentava foi onde Abdullah apareceu pela primeira vez, ainda na transição do islamismo para o cristianismo. Ele precisava de cuidados, e a gente se mobilizou para ajudá-lo, encaminhando-o para uma casa de recuperação, porque ele era envolvido com drogas, marginalizado, odiado pela sociedade local, um criminoso.

Na casa de recuperação, demos apoio com roupas, higiene, coisas básicas. Ele se libertou das drogas, conheceu Cristo, deixou o islamismo e se converteu ao cristianismo. Depois de um ano e meio, saiu e foi para um seminário bíblico cristão, onde fortaleceu a fé e passou por perseguições por ter deixado o islamismo. Estudou também em São Paulo, e depois retornou quando a situação se estabilizou.

Nove anos depois, marquei com ele na cafeteria para conversar sobre um livro sobre terrorismo, mas na conversa surgiu a ideia de escrever a biografia dele. Hoje ele divulga seu testemunho nas igrejas pelo Brasil e ajuda pessoas em situações similares à que ele vivia.”

2. O que mais te tocou na história do Abdullah, enquanto ele deixava o extremismo e se aproximava do cristianismo?

Cílvio: “O que mais me tocou foi a sede dele por Deus, acima de tudo. Ele era um cara que entrou nos níveis máximos do crime: trabalhou com drogas e com coisas pesadas, bem complicado. Ele cansou daquilo, viu que não dava futuro e decidiu mudar.

Ele já buscava um Deus, não era o Deus que o salvou de verdade, mas buscava, e, no desespero, buscou ajuda celestial para sair da vida que tinha. Até tentou tirar a própria vida, mas não teve coragem. Eu sempre digo: quando alguém se ajoelha e clama por todos os deuses pedindo ajuda, o verdadeiro aparece. E o verdadeiro apareceu.

Hoje ele é muito firme na fé: acorda de madrugada, tem momentos de oração. Tudo o que sofreu perseguições, ameaças de morte; até irmão dele quis matá‑lo por ter abandonado o islã não o fez recuar. Ofereceram grana, cargos, mesa cheia de dólares para que voltasse, e ele rejeitou tudo, isso está no segundo livro.

A fé dele é o que mais me impactou; foi o que o segurou até hoje, apesar dos sequestros, das tentativas de morte. No islamismo, abandonar a fé é uma vergonha para a família; a pessoa pode ser morta ou forçada a fugir. Por isso a situação dele foi tão perigosa.”

3. Você acha que hoje em dia ainda é muito difícil ser aceito como cristão em países de maioria muçulmana?

Cílvio: “Sim, sim, é muito difícil. Essa é uma informação até muito mal transmitida hoje na internet, nos estudos. Neste exato momento, mais de 1.500 cristãos já foram mortos na Nigéria, e está havendo um genocídio grande contra os cristãos naquela região, porque o islã quer eliminar os cristãos daquele local.

São líderes muçulmanos que têm uma agenda de dominação e querem eliminar, devastar mesmo, os cristãos e outras crenças dessas regiões. Então, em países muçulmanos é muito difícil. Eu morei no Egito três anos, um pastor não pode nem reformar um banco da igreja sem pedir permissão ao governo. Ele é oprimido, perseguido; igrejas são destruídas, fechadas.

Tem países muçulmanos mais “light”? Tem sim, inclusive há países que nem permitem ser cristão, são mortos, assassinados. Existe um glamour, às vezes, em cima do islã que a gente conhece no Brasil, muito livre, tranquilo, mas a agenda da liderança islâmica é diferente do povo. O seguidor do islã é como eu, é como você, quer seguir um Deus, trabalhar, comprar uma Mercedes, viajar, ter um iPhone. O seguidor é igual a qualquer pessoa.

Mas a agenda da liderança islâmica é muito mais forte; eles pegam isso dos livros do islã e acabam induzindo nas pessoas narrativas de perseguição e de que ‘temos que dominar o mundo, eliminar quem não aceita nossa crença’. É muito difícil. Eu vivi isso na pele.

Ao morar no Egito, vi o quão forte é essa perseguição contra outras crenças, principalmente contra o cristianismo.”

4. Como foi a experiência de viver 3 anos no Egito? Principalmente na questão religiosa onde 90% da população é islâmica e 10% cristã. O que pôde aprender neste período lá?

Cílvio: “Quando você entra num país como esse, você entra como se fosse numa bolha. Você se sente preso, oprimido, controlado.

Eu trabalhava com refugiados e pessoas marginalizadas no Egito, onde mais de 50% da população vive abaixo da pobreza. Éramos monitorados, nossos telefones, onde morávamos, até um vigia observando nossas ações.

Queríamos abrir uma escola de computação para adolescentes, não foi permitido; escolas de artes para mulheres, também não. Ao sair do Egito, conversei com um egípcio no aeroporto e percebi que eles vivem tanto numa bolha que não notam a falta de liberdade. Ele me perguntou: ‘O que você não gostou do Egito?’ Eu respondi: ‘Vocês não têm liberdade, não podem falar contra o governo ou a religião.’

O cristianismo ainda sobrevive no Egito por causa de uma geração rica de cristãos e pela igreja copta, fundada pelo apóstolo Marcos.

Você não pode evangelizar na rua, distribuir Bíblias, tudo é vigiado. Cheguei a fugir de egípcios falando português na rua, por medo de espionagem, mesmo estando em trabalhos humanitários.

Falar de Cristo era opcional, ninguém era obrigado. Nossa missão era servir aquele povo tão sofrido. Mas vivíamos numa paranoia constante: gestos, postura, tudo podia ser interpretado errado.”

5. Você comentou que o livro levou mais de sete anos para ser concluído. Qual foi a parte mais difícil de todo esse processo?

Cílvio: “Uma das partes difíceis que encontramos nessa caminhada foi mostrar como ele era antes, como criminoso, sem que isso prejudicasse ele hoje. Ele cometeu crimes graves, matou pessoas. A questão era: como não tornar esse livro uma prova de crime? Hoje ele está totalmente limpo na justiça.

Ele não tem problemas legais no Brasil ou no Paraguai. No Líbano, ele era da milícia islâmica e tirou muitas vidas. Aqui, inclusive, o juiz que o prendeu várias vezes depois casou ele na igreja e deu toda a documentação legal para a esposa e o filho.

Ele procurou reparar os crimes que cometeu, como roubos e outros danos. Ele procurou as pessoas que ele prejudicou para restituí-las. Quando se converteu ao cristianismo, isso quebrou muitos corações de pessoas influentes, inclusive muçulmanos na cidade, que passaram a respeitá-lo.

Essa parte de contar o passado criminoso sem criar provas legais foi muito delicada. A outra parte também foi tratar o islã sem ofender ou gerar ódio. Tivemos muito cuidado em trabalhar essas duas questões.”

6. Que impacto você espera que esse segundo livro tenha em pessoas que estão passando por crises espirituais, familiares ou até mesmo de perseguição da própria fé?

Cílvio: ““Eu acredito que quero que esse livro alcance as pessoas, que elas sejam inspiradas e encontrem força para continuar lutando pela vida, pela fé, pelos ideais, junto com Deus. É o testemunho de alguém que só quer sobreviver e manter a fé, mas enfrenta barreiras que tentam impedir isso.

Vivendo no Brasil, em um país livre, onde podemos seguir qualquer Deus e abrir qualquer igreja, espero que o livro ajude a valorizar nossa liberdade religiosa, algo muito raro lá fora.

O livro tem um impacto grande porque mostra uma realidade que não conhecemos. Ele não é o único ex-terrorista; conheço outras pessoas que foram de facções islâmicas e hoje são cristãs, mas ainda é algo muito raro. É um livro quase surreal pela força da realidade que apresenta.

O Líbano é um país marcado por conflitos constantes, onde a violência é presente. Espero que o livro encoraje as pessoas e desperte curiosidade para conhecer mais profundamente o islã verdadeiro e o cristianismo de verdade.”

7. Está trabalhando em outros livros/projetos no momento? O que pode adiantar?

“Sim, tenho outros projetos, inclusive na área acadêmica. Tenho minha própria editora com livros já publicados e pretendo lançar em breve mais livros sobre a história islâmica. Trabalho e acompanho estudiosos do mundo todo, e nosso foco agora é mais histórico.

Não queremos mais abordar temas como o que Maomé fez, com quem dormiu ou o que comeu, o objetivo é focar em questões como se ele existiu ou não, se Meca existiu, buscando provas arqueológicas que deem mais embasamento ao que temos estudado.

Nosso foco hoje é histórico. O único livro que aborda um pouco disso em português é o segundo livro do Abdula, mas daqui para frente pretendo lançar mais autores e traduções de livros de outros países para o português.

Tenho alguns projetos pessoais engavetados, quem sabe eu os retome, mas o foco agora é buscar provas históricas e a verdade sobre o islã. Esse é o nosso objetivo.”

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