- A religião evangélica cresce rapidamente no Brasil, atraindo jovens com novos estilos de culto e linguagem acessível.
- O estudo “Gospel Power”, da Estúdio Eixo e Zygon, analisa essa expansão e suas origens, utilizando mais de 200 mil menções em redes sociais.
- A região Norte tem a maior proporção de evangélicos, com 35,8% da população, destacando estados como Acre e Amazonas.
- A pesquisa aponta que a igreja evangélica muitas vezes substitui o Estado em áreas carentes, oferecendo apoio e acolhimento à comunidade.
- O Censo de 2022 revela que 26,9% da população se declara evangélica, com projeções indicando que esse grupo pode ultrapassar os católicos até 2049.
A religião evangélica é uma das que mais crescem no Brasil e, com isso, se ressignifica cada vez mais. Isso ajuda numa nova onda de popularidade atraindo até os jovens, com novos estilos de culto, linguagem mais descolada e diferentes formas de espalhar a palavra de Deus.
O estudo “Gospel Power”, publicado pela Estúdio Eixo junto com a Zygon, busca justamente explicar não só essa crescente, mas de onde ela vem e para que direção está seguindo. A pesquisa foi feita utilizando mais de 200 mil menções em redes sociais e diversos especialistas que aprofundam as diferentes facetas da nova religião do Brasil.
O berço evangélico brasileiro
A região Norte possui o maior percentual médio de evangélicos, com 35,8% da população. Ela também concentra os estados com as maiores proporções de evangélicos: Acre (44,4%), Amazonas (38,8%), Rondônia (35,4%), Amapá (34,2%) e Roraima (33%)
O motivo para esse crescimento é derivado de diversos fatores que variam desde a forma como a região é tratada hoje em dia até o processo de colonização sofrido pela região há séculos. Em entrevista ao Portal Tela, Kika Brandão, CEO do Estúdio Eixo e uma das principais coordenadoras da pesquisa, se aprofundou nesses pontos ao explicar o motivo dessa concentração na região norte.
*”Existe uma questão do aumento da população evangélica muito atrelado aos lugares do Brasil onde o Estado não chega. Lugares onde a gente precisa de mais acesso, de mais atenção, e a região Norte, a gente tá falando de uma região que historicamente sofreu um processo de colonização católico”* relatou Kika
O primeiro ponto apresentado por Kika é um dos principais para explicar por que o evangelho é tão forte na região Norte: as igrejas chegam a lugares onde o Estado não chega. Segundo dados do IBGE de 2021, a região Norte apresenta um índice de pobreza de 36,9%, um dos mais altos do país
A igreja muitas vezes substitui o Estado nesses casos ao oferecer o apoio que ele não fornece, por possuir um caráter assistencialista e funcionando como ponto de encontro da comunidade. Kika cita, por exemplo, como ex-presidiários e pessoas em situação de exclusão social são recebidos como iguais no meio evangélico.
*”A gente vê isso como um padrão no Brasil, o crescimento evangélico nas periferias, nos interiores, nos bairros mais afastados, nas localidades mais afastadas, que são de fato os lugares onde as pessoas mais precisam de estrutura, precisam de apoio e isso é inclusive uma estratégia da igreja evangélica”* reforça Kika
Outro ponto importante é o processo de colonização dos indígenas, quando os portugueses chegaram ao Brasil e catequizaram a população, o que confere um caráter histórico de religião imposta nessa sociedade há muito tempo, e que, agora, está apenas se moldando para algo mais moderno e que se espalha rapidamente Brasil afora.
A crescente dos evangélicos e declínio dos católicos
O Brasil é um país profundamente religioso, com mais de 89% da população acreditando em Deus ou em uma força maior. Segundo o Censo de 2022, 56,6% se declararam católicos e 26,9% evangélicos
Embora a diferença entre os grupos pareça grande, os evangélicos estão em um constante crescimento, sendo o grupo religioso que mais aumentou no Brasil nos últimos anos – atualmente, são mais de 47 milhões de pessoas no país.
Em termos de comparação, em 1970, a porcentagem de evangélicos no Brasil era de 5%, em 2010, 21,7%. De acordo com as projeções, é estimado que em 2049 os evangélicos ultrapassem os católicos e se tornem predominantes no Brasil.
Vários fatores explicam o crescimento dos evangélicos e o declínio dos católicos, começando pela tradição da igreja católica, que mantém métodos antigos e formais, muitas vezes dificultando o contato direto da pessoa comum com a autoridade religiosa na igreja, como o padre, e, por consequência, afeta a relação com Deus.
Já a igreja evangélica se modernizou: cultos mais descolados, pastores com roupas comuns e uma linguagem mais próxima do povo, o que reduz as barreiras hierárquicas e facilita a identificação do fiel com o pastor.
*”Se antes o padre, ou até mesmo o pastor era aquela pessoa séria, de terno, aquele homem super alinhado com uma certa rigidez. Hoje, o pastor usa boné, tênis, hoje o pastor tá no TikTok. Então, temos uma ruptura dos códigos muito grande.”,* explica Kika
Além disso, o próprio templo religioso, no caso as igrejas, influencia essa dinâmica. As igrejas católicas geralmente ficam em centros urbanos, longe das periferias, obrigando o fiel a se deslocar para buscar a Deus.
Já no meio evangélico, a estratégia é diferente: as igrejas estão mais presentes em periferias e outros locais, além de contar com missionários que levam a palavra de Deus diretamente às pessoas.
“A lógica dos evangélicos ali, desde os missionários, pensam assim, as pessoas saem para ir para as casas das pessoas para pregar. Elas têm uma estratégia de ir até as pessoas, de ir em outros bairros. A igreja católica sempre foi: ‘Você vem até mim’. E aí, a lógica do evangelho qual é? A gente vai até você, a gente vai na sua casa, a gente leva uma palavra.”, diz Kika
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