Com informações do The New York Times. Gravada em três placas de pedra na Catedral de Canterbury está a lista de todos os arcebispos desde o ano 597. Os primeiros 105 nomes são de homens. O mais recente, no entanto, rompe essa tradição: Sarah Elisabeth Mullally. Casada e mãe de dois filhos, ela foi oficialmente […]
Com informações do The New York Times.
Gravada em três placas de pedra na Catedral de Canterbury está a lista de todos os arcebispos desde o ano 597.
Os primeiros 105 nomes são de homens.
O mais recente, no entanto, rompe essa tradição: Sarah Elisabeth Mullally.
Casada e mãe de dois filhos, ela foi oficialmente empossada nesta quarta-feira (25) como arcebispa de Canterbury. Aos 63 anos, tornou-se a primeira mulher a liderar a Igreja Anglicana, presente em 165 países e com cerca de 85 milhões de fiéis no mundo.
A cerimônia foi marcada por ritos tradicionais e reuniu cerca de duas mil pessoas, entre elas o primeiro-ministro britânico e o príncipe William, acompanhado de Catherine, princesa de Gales. Embora já estivesse no cargo desde janeiro, a posse marca o início simbólico de seu ministério.
“Instituir Sarah como nossa primeira arcebispa mulher teria sido quase inimaginável há 50 anos”, afirmou o reverendo David Monteith, decano da Catedral de Canterbury. “O dia de hoje é muito importante.”
Igreja assume nova líder em meio a tensões
Apesar do simbolismo, Mullally assume a Igreja em um momento de transição e tensão.
Há mais de duas décadas, a Comunhão Anglicana enfrenta divisões profundas sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo e a ordenação de mulheres e pessoas LGBTQIA+.
Sua nomeação foi criticada por setores conservadores, especialmente fora do Reino Unido, que defendem um episcopado exclusivamente masculino.
No país, o avanço do secularismo tem esvaziado as igrejas, cenário agravado pela crise de confiança após um escândalo de abuso sexual que, em 2024, levou à renúncia de seu antecessor, Justin Welby.
Ainda assim, há expectativa de renovação com a chegada de uma líder considerada experiente e respeitada, com trajetória fora do padrão tradicional do clero.
Ritos, tradição e simbolismo
A cerimônia seguiu rituais históricos.
No início, Mullally bateu à porta principal da catedral, em um gesto simbólico de ingresso no cargo. Em seguida, renovou seus compromissos religiosos e prestou juramento.
Ao final, foi entronizada na cadeira de Santo Agostinho, um assento de mármore do século XIII.
Nos dias anteriores, percorreu cerca de 140 quilômetros a pé, de Londres a Canterbury, tornando-se a primeira arcebispa da era moderna a realizar a peregrinação.
Da enfermagem ao topo da Igreja
Antes de ingressar na vida religiosa, Mullally construiu carreira na saúde pública britânica.Ela também constituiu família.
Foi enfermeira especializada em câncer e chegou a ocupar o cargo de chefe nacional de enfermagem da Inglaterra aos 37 anos.
Ordenada sacerdotisa em 2002, deixou o serviço público dois anos depois, decisão que descreveu como a mais importante de sua vida.
Em 2018, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de bispa de Londres.
Casada e mãe de dois filhos, leva para o novo posto uma trajetória marcada por liderança em grandes instituições, incluindo sua atuação na Câmara dos Lordes.
Presença oficial do Vaticano e mensagem do Papa
A posse também teve dimensão ecumênica.
A Igreja Católica enviou uma delegação oficial ao evento, liderada pelo cardeal Kurt Koch, prefeito do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos.
Durante uma oração conjunta na Catedral de Canterbury, o cardeal entregou à nova arcebispa uma mensagem do Papa Leão XIV, que destacou os desafios do momento e reforçou a importância do diálogo entre as Igrejas.
“Rezo para que ela seja guiada pelo Espírito Santo a serviço de suas comunidades e se inspire no exemplo de Maria, Mãe de Deus”, afirmou o pontífice.
O Papa também ressaltou que o ministério de Mullally começa em um período “desafiador” para a Comunhão Anglicana e defendeu a continuidade do diálogo ecumênico como caminho para enfrentar as divisões.
Uma Igreja cada vez mais global
Hoje, o centro da Igreja Anglicana já não está mais na Inglaterra.
A maioria dos fiéis vive no chamado “sul global”, especialmente na África, Ásia e América Latina.
Dados recentes mostram que, no Reino Unido, as congregações continuam encolhendo. Já em países africanos, o anglicanismo tende a ser mais conservador e resiste a pautas progressistas adotadas pela Igreja inglesa.
A própria cerimônia buscou refletir essa diversidade global, com orações em diferentes idiomas e participação de corais internacionais.
Entre na conversa da comunidade