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Documento de 135 anos inspira a primeira encíclica de Leão XIV

135 anos após a encíclica de Leão XIII, Leão XIV redefine subsidiariedade e proteção da pessoa frente à IA e à economia digital

Leão XII e Leão XIV: semelhança vai além do nome. (Foto: Domínio Público e EFE/EPA/GIUSEPPE LAMI)
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  • O Papa Robert Prevost, que passou a usar o nome Leão XIV, foi eleito em oito de maio de 2025; em seus primeiros discursos, afirmou que enfrentaria a inteligência artificial como Leão XIII enfrentou a Revolução Industrial.
  • Em quinze de maio de 2026, exatamente cento e trinta e cinco anos after a promulgação de Rerum Novarum, Leão XIV assina a encíclica Magnifica Humanitas, tratando da salvaguarda da pessoa humana na era da IA.
  • A encíclica traça paralelos entre a transformação econômica do fim do século XIX e a digitalização atual, argumentando que a mudança tecnológica de agora é tão significativa quanto a Revolução Industrial.
  • Leão XIV revisita a subsidiariedade, afirmando que hoje os grandes motores do desenvolvimento são sujeitos privados e não apenas o Estado, e amplia o conceito para incluir dados, algoritmos e infraestrutura tecnológica.
  • A encíclica também aponta riscos de discriminação e opacidade algorítmica, chama a regulamentação da propriedade de dados e recomenda ações específicas para pais, escolas, trabalhadores, empresários, programadores e cidadãos.

Robert Prevost foi eleito Papa em 8 de maio de 2025 e adotou o nome Leão XIV. A escolha chamou atenção por ser o retorno ao nome de Leão XIII, que morreu em 1903. Em seus primeiros discursos, o papa afirmou que enfrentaria a inteligência artificial como Leão XIII enfrentou a Revolução Industrial. A data de 15 de maio de 2026 foi marcada como marco: 135 anos após a promulgação da Rerum Novarum, ele assinou a encíclica Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da IA.

A publicação reescreve o vínculo entre as encíclicas e a transformação tecnológica. A comparação com 1891 projeta uma continuidade histórica: a doutrina social da Igreja nasceu para dialogar com a modernidade econômica frente à indústria, e hoje encara a digitalização, a IA e a robótica como novos horizontes.

O que Leão XIII criou

Antes da Rerum Novarum, não havia um corpo doutrinário social articulado. Princípios morais existiam, mas não uma síntese que dialogasse com a economia moderna. A encíclica respondeu à ascensão da classe operária urbana, oferecendo uma visão que não era nem socialista nem liberal.

A obra central foi o método. Leão XIII defendeu a propriedade privada como direito natural, ao mesmo tempo em que estabeleceu que o salário deve sustentar dignamente o trabalhador e a família. A propriedade tem função social e o mercado não dispensa critérios morais.

Entre esses pilares, a doutrina social do século XX ganhou desenvolvimentos como subsidiariedade, direitos humanos e a maneira como a Igreja se relaciona com a modernidade. Leão XIII abriu espaço para futuras leituras ou ajustes diante de novas situações econômicas.

Magnifica Humanitas e a nova estrutura

Logo no início, Leão XIV reconhece a filiação com a encíclica de 1891, afirmando que a novidade atual é a digitalização, a IA e a robótica. Ele sugere uma transformação civilizacional comparável à da Revolução Industrial, com dados indicando impactos no mercado de trabalho.

A principal inovação está na atualização da subsidiariedade. O papa aponta que a instância superior agora inclui grandes agentes econômicos e tecnológicos que exercem poder sobre a vida comum, não apenas o Estado. A ideia é conter o capital tecnológico concentrado, mantendo a tradição.

Dados, propriedade e justiça

O documento propõe incluir dados, algoritmos e plataformas entre bens cuja propriedade não pode ser privada em exclusividade. Segundo o texto, a propriedade dos dados deve ser regulada e não pode ficar a cargo de poucos; a regulação é necessária ante a contribuição de muitos.

Algoritmos opacos podem reforçar discriminações sem identificação clara. O texto cita a exclusão estrutural resultante de sistemas técnicos, ampliando um problema já discutido por papas anteriores. A defesa é pela visibilidade e pela responsabilidade.

Questões de dependência e escravidão

Em uma passagem marcada, Leão XIV descreve dependências geradas pela economia digital, destacando trabalhadores invisíveis na etiquetagem de dados e moderação de conteúdos, além de riscos para jovens e crianças. O papa cita fontes e estudos para sustentar a análise.

Ele compara a situação atual ao passado da escravidão, reconhecendo uma ferida na memória cristã. O pontífice afirma que é necessário reconhecer erros e, se preciso, pedir perdão, para evitar repetir a cegueira moral de outras eras.

Recomendações para diferentes atores

O documento orienta pais a proteger jovens da exposição precoce a conteúdos digitais, cobrando responsabilidade pública. Compete às escolas recuperar o tempo de formação diante da cultura da rapidez.

Para trabalhadores e sindicatos, há um convite à adaptação às novas formas de trabalho sem aceitar a precariedade. Empresas devem adotar critérios éticos e transparência nas cadeias produtivas, reconhecendo o trabalho invisível de plataformas.

Programadores e pesquisadores de IA recebem a convocação de considerar valores éticos no desenho de sistemas. O texto ressalta que cada decisão de projeto reflete uma visão de humanidade.

Chamada ao cidadão e ao futuro

O papa incentiva que as pessoas questionem, antes de adotar uma nova ferramenta, quem paga o preço material. A possibilidade de opacidade ser tratada como neutralidade é rejeitada, com a ideia de uma ecologia da comunicação que valoriza o encontro humano e a crítica pública.

A encíclica não oferece uma conclusão, mas delimita princípios para orientar políticas, educação e inovação. Leão XIV busca manter a pessoa humana como referência, mesmo diante de mudanças rápidas no cenário tecnológico.

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