- Papa Leão XIV lançou a encíclica Humanitas, assinada em 15 de maio, com foco nos impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho e nas guerras, destacando questões éticas e geopolíticas.
- O anúncio ocorreu em 25 de maio, apresentado ao lado de Chris Olah, cofundador da Anthropic, empresa responsável pela ferramenta Claude.
- O documento pede cooperação internacional para regulamentar o uso da IA e defesa de políticas que protejam empregos e favoreçam a requalificação profissional, para que a tecnologia libere tempo e capacidades humanas.
- A encíclica aborda a chamada “cultura do poder” e alerta sobre decisões letais de sistemas militares autônomos, defendendo uma cadeia de responsabilização que envolva criadores e aplicadores.
- Especialistas citados ressaltam críticas a ideologias como transhumanismo e pós-humanismo, defendendo que o humano permaneça no centro das inovações e que a IA esteja a serviço das pessoas.
O Papa Leão XIV lançou nesta segunda-feira a primeira encíclica de seu papado, intitulada Humanitas. O documento, assinado em 15 de maio, aborda impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho e nas guerras, com foco ético e geopolítico.
Durante participação no WW, o analista de Internacional Lourival Sant’Anna destacou a fragilidade de separar emprego, economia e tecnologia no tema. Segundo ele, o aumento da automação tende a seguir a lógica econômica, independentemente do discurso moral.
Encíclicas constituem uma das formas mais altas de ensino papal para os fiéis. A data de assinatura não é casual: marca 135 anos de Rerum Novarum, de Leão XIII, documento histórico sobre condições trabalhistas na Revolução Industrial.
Leão XIV apresentou o texto ao lado de Chris Olah, cofundador da Anthropic, empresa responsável pela ferramenta Claude, que também discursou na apresentação da carta. A encíclica orienta governos a cooperarem internacionalmente para regulamentar o mercado de IA.
Para o líder da Igreja, o aumento da automação deve vir acompanhado de proteção ao emprego e requalificação, buscando que a tecnologia libere tempo e capacidades humanas, não gere exclusão social.
Cultura do poder
O documento alerta para a relação entre o uso militar da IA e a chamada cultura do poder, em que a dominação bélica supera limites éticos. Armas e sistemas que decidem alvos com base em dados são citados como exemplos de desumanização da guerra.
O papa defende que não é lícito confiar decisões letais a tais sistemas, defendendo uma cadeia de responsabilização que envolva desde quem projeta até quem aplica a tecnologia.
O pesquisador Alexandre Gonçalves, da Universidade de Illinois, disse que a encíclica aborda ideologias populares no Vale do Silício, como o transumanismo e o pós‑humanismo, defendendo que o humano deve permanecer no centro.
Gonçalves explicou que a encíclica afirma que a tecnologia deve servir ao ser humano, não o contrário, e enfatiza que a IA é parte de um conjunto de tecnologias que precisam estar a serviço do humano.
A influência da Igreja
Sant’Anna observou que a escolha de apresentar a encíclica em inglês, e não em italiano, sinaliza intenção de dialogar com grandes empresas de tecnologia. Ele destacou ainda o papel de Olah ao coordenar especialistas na elaboração do texto.
Segundo Sant’Anna, a Anthropic tem resistido a usos militares que invadam a privacidade de cidadãos. A instituição também tenta inserir limitações éticas no Claude, com base em direitos humanos.
Para Gonçalves, embora o papa não mencione nomes, o texto critica o oligopólio de grandes empresas de IA. Ele aponta que o poder da Igreja reside nas ideias, não em prerrogativas administrativas, e compara a importância histórica de Leão XIV com Leão XIII.
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