- Uirá Machado escreveu a biografia de Henrique Mecking, mas o campeão brasileiro de xadrez inicialmente resistiu, recusando a entrevista e buscando orientação espiritual.
- Mecking, que chegou a ser considerado o Pelé do xadrez, enfrentou uma doença neuromuscular rara (miastenia grave) que quase o fez abandonar tudo.
- Após buscar cura na Renovação Carismática, ele ganhou a fé e decidiu entrar no seminário em Taubaté; não foi ordens, segundo ele, por não ter recebido o aval de um bispo.
- De volta ao xadrez nos anos noventa, passou a conciliar prática de jogo com orações entre lances e, ao longo dos anos, passou a falar de profecias e do fim dos tempos.
- Em 2022, tornou pública a ideia de ser uma das duas testemunhas do Apocalipse, anunciando que, para ser reconhecido como profeta, ainda depende do aval de um bispo; hoje vive em Taubaté, aos 74 anos, dedicando-se à oração e ao treino.
Mequinho, conforme registro do livro Entre bispos e reis, de Uirá Machado, recusou a proposta de biografia ao falar com o jornalista: orou pedindo orientação e recebeu um não. O texto narra a trajetória do enxadrista Henrique Mecking, considerado o maior nome do xadrez brasileiro pela Federação Internacional de Xadrez.
Nascido em São Lourenço do Sul, no Rio Grande do Sul, Mecking começou a jogar ainda criança, sob orientação de um delegado local. Aos 12 anos já colecionava troféus, e aos 13 tornou-se o campeão brasileiro mais jovem da história.
A fama ganhou alcance internacional. No fim dos anos 1960 e início dos 1970, recebeu o apelido de Pelé do xadrez na Argentina. Em 1972 tornou-se o primeiro grande mestre internacional brasileiro, chegando às quartas de final no Torneio de Candidatos.
A doença e a virada religiosa
Quando tinha 25 anos, Mecking adoeceu com miastenia grave, doença autoimune que enfraquece músculos. A condição o levou a isolar-se, com episódios de mudo e cansaço intenso, em meio a dúvidas sobre continuidade na vida pública.
Buscou suporte na Renovação Carismática Católica. Em 1979, a Tia Laura o visitou em casa, e, segundo relatos, houve um momento de confirmação de cura após três perguntas sobre fé. A partir daí, passou a tratar a recuperação com termos de fé, repetindo ter ficado 99% curado por Jesus.
Do tabuleiro ao seminário e de volta ao jogo
Após a cura, Mecking ingressou no seminário de Taubaté, em 1989, para estudar teologia. A tentativa de ordens sacerdotais não se concluiu, com ele afirmando que a decisão foi negada por motivos que envolvem questões institucionais. Mesmo sem a ordenação, manteve a prática religiosa como parte de sua rotina.
Ao retornar ao xadrez, reapareceu nos anos 1990, misturando oração e jogos. Em entrevistas, discutiu a relação entre fé, vitória e jogo, destacando que pedir vitória no esporte não envolve contradição com a fé.
O profeta do apocalipse
Com o tempo, a figura pública de Mecking se tornou marcada pela crença em sinais apocalípticos. Em 2011, vinculou seu desempenho a eventos mundiais, dizendo que o rating estaria ligado às guerras e crises globais. Depois, afirmou ter sido escolhido por Jesus como uma das duas testemunhas do Apocalipse.
Em entrevista publicada pelo jornalista Uirá Machado na Folha de S. Paulo, ele passou a falar de um possível reconhecimento mundial como profeta, condicionando isso ao aval de um bispo. Enquanto não há confirmação, ele continua dedicado à oração.
Aos 74 anos, em Taubaté, Mecking permanece ativo nas partidas de xadrez e na prática religiosa, aguardando o desfecho de sua suposta missão espiritual, sem abrir mão das partidas que ainda disputa.
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