O rádio da sala ficava em cima de uma toalha de crochê marrom. A televisão era de válvulas e levava alguns minutos para aquecer e começar a transmitir, mas como a tela era grande para os padrões da época (diria que umas 25 polegadas), quando a imagem vinha parecia que estava num cinema. Primeiro vinha […]
O rádio da sala ficava em cima de uma toalha de crochê marrom. A televisão era de válvulas e levava alguns minutos para aquecer e começar a transmitir, mas como a tela era grande para os padrões da época (diria que umas 25 polegadas), quando a imagem vinha parecia que estava num cinema. Primeiro vinha um borrão azul. Depois os rostos. Depois o verde da camisa da seleção. Junho de 1982. Brasil x Escócia. Eu lembro da rua vazia antes do jogo e do barulho durante e depois. Lembro até do cheiro dos almoços da época. Das pessoas saindo para a calçada quando Zico fez o primeiro. Oscar – orgulho são-paulino doméstico – ampliando. Éder, que sempre batia na bola como se a coitada tivesse cometido atentado contra sua familia, marcando o terceiro com uma cavadinha suave. E Falcão completando o 4 a 1.

Mas o que mais impressiona, olhando hoje, não é o placar. É outra coisa. Era possível amar aquela seleção inteira. Não existia um protagonista absoluto engolindo o resto. O talento era coletivo. A memória também. Até hoje sei aquela escalação de cabeça. E não porque eu tenha decorado. Porque aquelas figuras ocuparam um espaço real no imaginário brasileiro.
Hoje, a Copa começa em poucas semanas e eu não faço ideia da aparência de mais de metade dos jogadores de nome composto que provavelmente estarão na convocação. Alguns jogam em países que ninguém acompanha. Outros existem mais como avatar de videogame, fantasy game ou recorte de TikTok do que como futebolistas reconhecíveis. O vínculo se dissolveu. E isso não aconteceu por acaso.
Os últimos dias ajudam a entender o processo.
No sábado, a Escócia parou para a rodada final do campeonato nacional. O Heart of Midlothian, conhecido como Hearts, estava a um empate de conquistar um título que não vence desde 1960. Um clube de Edimburgo tentando interromper décadas de domínio de Celtic e Rangers. Havia algo antigo naquela campanha. Algo de futebol antes da multitela.
O Hearts começou a temporada passada em sétimo lugar e apareceu, meses depois, liderando o campeonato de maneira improvável. Na rodada final, em pleno Celtic Park, saiu na frente pouco antes do intervalo. Lawrence Shankland fez 1 a 0 aos 42 minutos. Por alguns instantes, parecia que o futebol ainda permitia esses desvios românticos da lógica financeira.
Mas futebol também é crueldade organizada.
Antes do intervalo, Arne Engels empatou de pênalti. Ainda assim, o Hearts seguia campeão. O empate bastava. O segundo tempo virou uma espécie de contagem regressiva emocional. Cada minuto aproximava Edimburgo de um título histórico. Até que veio o colapso. Daizen Maeda virou aos 42 do segundo tempo, num lance inicialmente anulado e depois validado pelo VAR. Nos acréscimos, Callum Osmand fez o terceiro. O Celtic Park explodiu. Torcedores invadiram o gramado. Martin O’Neill, aos 74 anos, disse depois da partida algo que parece cada vez mais exótico no futebol moderno: “não teríamos conseguido vencer sem a torcida”.

Os jogadores do Hearts deixaram o estádio destruídos. Chorando no ônibus. Recebidos assim mesmo pela torcida ao voltarem para casa. Não com ironia. Não com meme. Não com cobrança performática de rede social. Com aplauso.
Porque existe uma diferença entre audiência e pertencimento.
Aquela cena só acontece quando há amor real entre clube e torcida. Quando o futebol ainda é percebido como extensão emocional de uma cidade, de uma infância, de uma vida comum. Não como plataforma de branding pessoal.
No dia seguinte, no Brasil, o assunto era outro. Ou melhor: o mesmo assunto de sempre há mais de uma década. Neymar.
Se deve ou não ser convocado. Se ainda decide. Se desequilibra. Se merece. Se agrega. Se atrapalha. Se o marketing pesa. Se a CBF precisa dele. Se ele precisa da CBF. O futebol brasileiro virou um eterno painel de debate sobre Neymar mesmo quando Neymar não joga futebol. E nos últimos anos ele não joga quase nunca.
Na véspera da convocação, ele chorou durante o hino antes de Santos x Coritiba. Fez cena. Criou fuzuê na substituição após confusão do quarto árbitro. Apareceu com a camisa da seleção. Gerou cortes, vídeos, engajamento, especulação. O velho mecanismo funcionando outra vez. Neymar talvez tenha se tornado o maior especialista brasileiro em permanecer no centro da conversa mesmo quando o futebol ao redor desmorona.
E a convocação da seleção acompanha esse espírito. Não será apresentada como anúncio esportivo, mas como evento transmídia. Banda. Helicóptero. Entrada cinematográfica de Carlo Ancelotti no Jornal Nacional. Coreografia para câmera. Produção para rede social. A seleção brasileira virou um conteúdo. Um produto de circulação contínua.

Não torcemos mais exatamente por jogadores. Torcemos por influência.
É um tal de Virginia opinando sobre seleção, e torcida para que continue como casal de Vini Jr para não abalar o 10 do Brasil. Influenciadores entram na pauta esportiva sem qualquer relação com futebol. O debate vira trending topic antes de virar jogo. Tudo parece existir para ocupar tela. Não memória.
E nesse processo, Neymar é personagem central.
Talvez tenha sido o maior talento individual surgido no Brasil desde Ronaldo Fenômeno. Foi até mais plástico. Mais imprevisível. Quando apareceu no Santos, parecia carregar algo raro: improviso genuinamente brasileiro num futebol que começava a ficar industrializado demais. Havia rua no jogo dele. Havia desaforo. Havia invenção.
Mas aos poucos Neymar foi se tornando o pior inimigo do próprio talento.
A carreira virou gestão permanente de celebridade. O futebol deixou de ser centro e virou um dos departamentos da própria imagem. Em torno dele se organizou um modelo novo de jogador brasileiro: menos líder esportivo, mais operador de atenção. Menos símbolo coletivo, mais marca individual. A camisa da seleção entrou nesse circuito. (e em outro que não irei misturar aqui.)
E talvez esteja aí a ruptura emocional da torcida brasileira com sua seleção.
Em 1982, o Brasil parava para ver Zico, Sócrates, Falcão e Cerezo porque aqueles homens pareciam representar alguma coisa do país – mesmo que idealizada. Hoje a relação parece invertida: a seleção existe para alimentar personagens que já são maiores que ela no ecossistema digital.
O resultado não é apenas técnico. É afetivo.
O Brasil deixou de reconhecer sua própria seleção.
E Neymar, goste-se ou não, é o rosto mais acabado dessa transformação.
Como torcedor, não sou favorável à convocação dele. Acho que simboliza muito do que fez a seleção brasileira perder conexão emocional com o país. Mas como jornalista, sou obrigado a admitir outra coisa: eu tenho de torcer para Neymar estar lá.
Porque, no fim, é ele quem dá notícia.
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