Houve uma noite, não muito tempo atrás, em que Orlando Gill não pensava em Copa do Mundo e muito menos em ser herói de um país. Pensava em contas. Em remédios. Em como pagar o tratamento de Lautaro, filho recém-nascido que havia chegado ao mundo com graves problemas de saúde. Goleiro reserva do Sportivo San […]
Houve uma noite, não muito tempo atrás, em que Orlando Gill não pensava em Copa do Mundo e muito menos em ser herói de um país. Pensava em contas. Em remédios. Em como pagar o tratamento de Lautaro, filho recém-nascido que havia chegado ao mundo com graves problemas de saúde. Goleiro reserva do Sportivo San Lorenzo, um clube modesto do Paraguai, ganhando pouco e brigando por minutos, ele fez a única coisa que podia: vendeu o que tinha. Roupas, chuteiras e, no momento de maior aperto, até a camisa que guardava como recordação de sua passagem pela seleção paraguaia sub-20. A esposa Melissa Ávalos resumiu: “Vendeu tudo”.
Essa história é o alicerce do que aconteceu em Houston na tarde desta segunda-feira (29): o goleiro de 1,99m, hoje apelidado de “Courtois paraguaio” pelo porte físico, defendeu dois pênaltis na vitória do Paraguai sobre a Alemanha e eliminou os tetracampeões mundiais da Copa nos pênaltis, por 4 a 3, depois do empate no tempo normal e na prorrogação. Pegou as cobranças de Kai Havertz e Nick Woltemade. Ainda incomodou Jonathan Tah o suficiente para que o alemão desperdiçasse outra. Do outro lado da meta estava Manuel Neuer, um dos maiores goleiros da história. E foi Gill quem brilhou mais forte.
Não foi sempre assim. Até 2024, ele havia disputado apenas duas partidas oficiais como profissional. Eterno reserva no San Lorenzo do Paraguai, decidiu arriscar tudo de novo e foi para a Argentina, mais uma vez como suplente, desta vez do tradicional San Lorenzo de Almagro. A oportunidade só surgiu por acaso: duas tentativas de contratação de goleiros mais experientes, o costarriquenho Keylor Navas e o holandês Andries Noppert, esbarraram em lesões, entraves contratuais e não se concretizaram. Foi nesse vácuo que Gill, até então desconhecido, ganhou minutos em amistosos e impressionou.
Críticas e a grande resposta
Mesmo assim, as críticas não pararam. José Luis Chilavert, ídolo histórico da posição no Paraguai, chegou a dizer publicamente que o goleiro “joga mudo” e que sua escalação revelava insegurança do técnico Gustavo Alfaro. Gill seguiu calado e deixou o campo responder.
A resposta veio em 120 minutos de luta contra uma das melhores seleções do mundo. Seis defesas de alto nível ao longo do jogo, uma postura que ajudou o VAR a anular um gol da Alemanha por interferência irregular sobre o goleiro, e, na hora decisiva, a frieza para abrir o caminho da classificação nos pênaltis.
“Foi um jogo difícil. Conseguimos aguentar. Graças a Deus, consegui defender dois pênaltis. É um privilégio, eliminamos o campeão”, disse Gill após a partida, dedicando a vitória ao povo paraguaio.
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