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Por que os esportes universitários lotam estádios nos EUA?

Tradição centenária e identidade regional transformaram universidades em verdadeiros clubes

Imagem: Reprodução / Universidade de Nebraska

Para quem acompanha esportes no Brasil, pode parecer estranho observar mais de 100 mil pessoas reunidas para assistir a uma equipe formada por estudantes. Nos Estados Unidos, porém, os principais times universitários não são tratados como simples representantes de uma instituição de ensino. São símbolos comunitários, familiares e regionais. A dimensão do esporte universitário americanos […]

Para quem acompanha esportes no Brasil, pode parecer estranho observar mais de 100 mil pessoas reunidas para assistir a uma equipe formada por estudantes. Nos Estados Unidos, porém, os principais times universitários não são tratados como simples representantes de uma instituição de ensino. São símbolos comunitários, familiares e regionais.

A dimensão do esporte universitário americanos é gigantesca. Se não fosse, por que os estádios seriam tão grandes e estariam sempre lotados? O Ohio Stadium, da Universidade Estadual de Ohio, por exemplo, tem capacidade oficial para 102.780 pessoas. Inaugurado em 1922, o estádio já recebeu dezenas de milhões de torcedores ao longo de sua história e é maior do que qualquer estádio do futebol brasileiro.

Imagem: Reprodução / ohiostatebuckeyes.com

Além disso, é nas universidades que muitos dos futuros astros do esporte americano ganham projeção antes de chegar às principais ligas profissionais.

Tradição anterior à estrutura esportiva atual

O futebol americano universitário começou a ser praticado muito antes de os campeonatos universitários adquirirem o formato atual. A partida entre Princeton e Rutgers, disputada em 6 de novembro de 1869, é reconhecida pelas organizações do esporte como o primeiro jogo da modalidade universitária.

A organização que deu origem à NCAA surgiu somente em dezembro de 1905, durante um movimento para reformar as regras e reduzir a violência do futebol americano. A entidade foi formalmente constituída em março de 1906 e passou a usar o nome National Collegiate Athletic Association em 1910.

A NCAA é a entidade que regulamenta grande parte dos esportes universitários nos Estados Unidos. Ela estabelece regras, organiza campeonatos nacionais e divide as instituições em três divisões, conforme estrutura esportiva, nível de competição e oferta de bolsas. Durante a temporada, boa parte dos jogos é organizada pelas conferências regionais das universidades.

Isso significa que universidades já disputavam partidas, criavam tradições e desenvolviam rivalidades havia décadas quando a estrutura nacional começou a ser organizada. Algumas das grandes equipes universitárias, portanto, não precisaram construir uma torcida do zero, elas cresceram junto com o próprio esporte.

Essa ligação também passou de geração em geração. O time dos avós pode virar o time dos pais e, depois, dos filhos, mesmo que ninguém da família tenha estudado naquela universidade.

Foto: Olympics.com

Torcer pela universidade é pertencer a uma comunidade

Um estudo publicado em 2016 no Journal of Sport Management acompanhou 158 pessoas ligadas a uma universidade do sudoeste dos Estados Unidos, que estava criando um time de futebol americano. A pesquisa mostrou que, quanto mais os participantes se identificavam com a nova equipe, maior era o envolvimento deles com a instituição. O time também ajudou parte do grupo a se sentir mais integrada à comunidade universitária.

O próprio trabalho ressalta que a identificação com um time pode nascer por influência da família, dos amigos, da instituição ou da comunidade. A equipe passa, então, a simbolizar algo maior do que seus jogadores.

Por isso, não é necessário ter frequentado determinada instituição para torcer por ela. Uma pessoa pode escolher o time por tradição familiar, proximidade geográfica ou identificação cultural, da mesma forma que um brasileiro pode herdar o clube de futebol de seus pais sem nunca ter vivido perto do estádio.

Outro fator é a distribuição das grandes ligas profissionais. Como nem todos os estados possuem franquias da NFL, NBA, MLB ou NHL, equipes universitárias acabam ocupando, em algumas regiões, o espaço de principal representante esportivo local.

Os times também representam cidades e regiões

A ligação com o território é especialmente importante no futebol americano universitário. Um estudo publicado em 2019 na revista Northeastern Geographer analisou a distribuição das emissoras de rádio que transmitiam os jogos dos principais times universitários dos Estados Unidos.

Os pesquisadores concluíram que as fronteiras entre os estados ainda influenciavam a distribuição das torcidas. O estudo também identificou uma forte ligação com o futebol americano universitário no sul do país.

Imagem: Reprodução / goheels.com

Essa relação regional explica rivalidades universitárias como Alabama e Auburn, Michigan e Ohio State, ou Duke e North Carolina. Esses confrontos envolvem não apenas duas equipes, mas também ex-alunos, famílias, cidades e comunidades que convivem durante todo o ano.

Como muitos rivais tradicionais se enfrentam apenas uma vez por temporada, a partida ganha ainda mais importância. Uma derrota pode continuar sendo discutida até o reencontro do ano seguinte.

O jogo começa horas antes da partida

Outra diferença importante está na experiência oferecida ao público. Nos esportes universitários, o evento não se resume ao tempo em que os atletas estão em campo.

Na Universidade do Alabama, por exemplo, a programação de um jogo inclui a chegada dos jogadores pelo chamado Walk of Champions, a apresentação da banda Million Dollar Band, áreas de entretenimento, shows, praça de alimentação e os tradicionais tailgates (aquecimento), encontros realizados antes das partidas em estacionamentos ou espaços do campus.

O sábado de jogo pode se tornar um compromisso de dia inteiro, com refeições, reencontros e rituais repetidos ao longo dos anos. A banda, o mascote, os cânticos e as cerimônias anteriores à partida também ajudam a diferenciar cada universidade. 

A televisão transformou rivalidades locais em atrações nacionais

A expansão da cobertura televisiva aumentou o alcance dessas competições. O primeiro acordo da ESPN com a NCAA foi firmado em março de 1979 e já previa transmissões ao vivo e gravadas de eventos universitários.

Com o passar das décadas, a quantidade de campeonatos exibidos aumentou. O acordo iniciado em setembro de 2024 entre a ESPN e a NCAA passou a abranger 40 campeonatos masculinos e femininos, além de ampliar a cobertura das divisões inferiores.

A televisão permitiu que rivalidades originalmente estaduais ou regionais conquistassem públicos nacionais. Ao mesmo tempo, manteve a narrativa construída em torno das universidades, de seus ex-alunos e de suas tradições.

Um dos exemplos históricos dessa força foi a final do basquete masculino universitário de 1979, disputada por Michigan State, de Magic Johnson, e Indiana State, de Larry Bird. Segundo a NCAA, a transmissão obteve o maior índice de audiência já registrado pelo evento.

Foto por GREGORY SHAMUS / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

NCAA por todo o país

A dimensão do esporte universitário também está relacionada ao número de instituições participantes. A NCAA reúne mais de 1.100 universidades, faculdades e conferências distribuídas por três divisões, com diferentes níveis de orçamento, exposição e concessão de bolsas esportivas.

Essa capilaridade permite que praticamente todas as regiões tenham equipes próximas, mesmo quando elas não estão entre as maiores potências nacionais. O sentimento pode existir em uma universidade conhecida nacionalmente ou em uma instituição menor, cujo público é formado principalmente pela comunidade local.

Embora futebol americano e basquete concentrem grande parte da atenção, a mobilização pode alcançar outras modalidades. Em 2023, um evento de vôlei feminino organizado pela Universidade de Nebraska reuniu 92.003 pessoas e estabeleceu, na ocasião, um recorde mundial de público para um evento esportivo feminino. No mesmo ano, 55.646 torcedores assistiram a uma partida de exibição do basquete feminino de Iowa em um estádio de futebol americano.

Imagem: huskers.com

Mais parecido com um clube do que com um time universtitário

Para o público brasileiro, a comparação mais próxima é imaginar uma universidade tradicional exercendo também o papel de um clube esportivo. Tudo o que um clube tem, essas universidades tem também: história, identidade, formação de atletas e uma comunidade de ex-alunos (jogadores) que continua ligada à instituição mesmo depois da graduação.

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