- A Nike fez uniformes para 16 seleções usando reciclagem química, firmando acordos com duas empresas e mantendo sigilo sobre a tecnologia e a escalabilidade.
- Especialistas dizem que, embora tecnicamente possível, roupas recicladas quimicamente não devem chegar ao consumidor em larga escala no curto prazo e dificilmente resolverão o problema de resíduos da moda.
- A reciclagem química pode produzir poliéster de qualidade semelhante ao virgem, mas tem limitações com resíduos têxteis pós‑consumo, que são variados e contêm contaminantes.
- O setor de moda gera mais de cem bilhões de peças por ano e responde por parte relevante de emissões e resíduos, com grande parte dos tecidos ainda indo para aterros ou incineração.
- Há incerteza sobre a viabilidade real, transparência das empresas envolvidas e planos de fábrica de grande escala, com negociações em aberto e sem respostas de Nike, Syre e Loop Industries.
The Nike lançou uniformes de seleções para a Copa do Mundo feitos a partir de resíduos, por meio de reciclagem química. A empresa firmou acordos com duas startups dos EUA, a Loop Industries, e a sueca Syre, para produzir poliéster circular a partir de resíduos têxteis. O projeto envolve 16 equipes.
Especialistas ouvidos pela imprensa destacam que, embora tecnicamente viável, a escala e a viabilidade prática dessa tecnologia ainda são questionadas. Não há detalhes públicos sobre o funcionamento específico das técnicas ou sobre a capacidade de produção futura.
Analistas lembram que a indústria da moda gera grande parte das emissões de gases de efeito estufa e uma parcela expressiva de resíduos têxteis. Mesmo com o avanço da reciclagem química, a transformação de grandes volumes para consumo não está garantida no curto prazo.
Tecnologias e parcerias
Nike assinou acordos com Syre, com planta de reciclagem em Vietnã, e Loop Industries, que atua nos EUA, para fornecer poliéster derivado de resíduos têxteis. A promessa é de fabricar material que preserve qualidade ao longo de múltiplas reciclagens, sem depender de garrafas plásticas.
Especialistas destacam que a reciclagem química exige materiais limpos e bem separados. Quando há misturas de fibras, couros, tinturas e componentes químicos, o processo se torna menos viável e requer etapas de pré-tratamento e classificação.
Alguns pesquisadores apontam que a vantagem real pode ocorrer com resíduos industriais, como retalhos de fábrica, e não com as roupas de consumo, que costumam chegar em composições variadas. A complexidade das matérias dificulta a repetição do ciclo de reciclagem sem perdas de qualidade.
Desafios e impactos
Estimativas indicam que o setor têxtil produz mais de 100 bilhões de peças por ano, gerando centenas de bilhões de toneladas de emissões e grande volume de resíduos, com parte significativa chegando a aterros ou países com gestão inadequada. A maior parte do poliéster atual deriva de óleo, mantendo o déficit ambiental.
Especialistas ressaltam que, mesmo com metas ambiciosas, a produção de poliéster circular tende a ficar atrás da demanda prevista para o setor. Economistas e engenheiros destacam que a infraestrutura para coletar, separar e reprocessar roupas usadas ainda está em desenvolvimento.
Indústria, governo e recicladores precisam colaborar para viabilizar o sistema de coleta e processamento. Perguntas sobre quem liderará esse ecossistema — marcas, governos ou operadoras de reciclagem — permanecem sem resposta, enquanto os lançamentos de moda circular ganham espaço, mas com resultados limitados.
Nike, Syre e Loop Industries não comentaram pedidos de entrevista nem forneceram respostas detalhadas sobre o funcionamento de suas tecnologias ou prazos de escalonamento, segundo apuração. A transparência sobre processos e resultados sofre com a confidencialidade do setor.
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