- Após o empate do Brasil com o Marrocos na Copa de 2026, o técnico e jogadores destacaram a ansiedade como um dos principais fatores do desempenho abaixo do esperado.
- A pressão não surge apenas no jogo: ela começa nos treinos, nas disputas por convocação e acompanha os atletas quando ninguém está olhando.
- A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 entrou em vigor em 26 de maio, exigindo que empresas identifiquem, previnam e gerenciem riscos psicossociais no trabalho.
- O Work Relationship Index da HP aponta que apenas 29% dos profissionais estão na Zona Saudável, 34% na Zona Crítica e 71% dos brasileiros dizem que as exigências no trabalho aumentaram no último ano.
- No alto rendimento, a preparação psicológica é integrada ao treino; no meio corporativo, estratégias como visualização, foco em variáveis controláveis e recuperação começam a ganhar espaço para reduzir a pressão.
A ansiedade vem sendo apontada como um dos principais obstáculos ao desempenho da seleção brasileira na estreia da Copa do Mundo de 2026, após o empate de 1 a 1 com o Marrocos. Treinadores e atletas citam a pressão como variável que atrapalha a leitura tática e a transição entre setores.
Para o técnico Carlo Ancelotti, a ansiedade compromete o controle das ações na primeira etapa, com transições perigosas. Lateral Danilo e Ibañez também destacam a cobrança emocional como entrave ao rendimento da equipe.
Essa pressão não se restringe aos minutos de jogo. Ela antecede a estreia, atravessa treinos, disputas por convocação e acompanha os atletas mesmo fora do ambiente competitivo.
Como o cérebro interpreta a pressão
Especialistas dizem que o esporte de alto rendimento integrou a preparação psicológica à rotina de treino, diferente do que ocorre em muitas empresas. No campo corporativo, a saúde emocional costuma emergir apenas após o desgaste.
A Norma Regulamentadora nº 1, que entrou em vigor em maio, busca mudar esse cenário ao exigir identificação, prevenção e gerenciamento de riscos psicossociais no trabalho, como sobrecarga e pressão excessiva.
Dados de um estudo global indicam que apenas 29% dos profissionais estão na chamada Zona Saudável, enquanto 34% estão na Zona Crítica, associada a desgaste emocional significativo. Brasil participa do levantamento.
No Brasil, 2025 registrou mais de 546 mil concessões de benefícios por incapacidade por transtornos mentais, segundo o Ministério da Previdência Social. Ansiedade, depressão e estresse lideram as ausências.
O mecanismo da pressão no cérebro
O pesquisador Gustavo Drago, da USP, observa que pessoas expostas às mesmas condições reagem de maneiras distintas, fisiológica e emocionalmente. O ambiente pode ser interpretado como ameaça ou como estímulo.
Um exemplo é competir em casa versus fora de casa. Alguns atletas veem a situação adversa como ameaça, elevando cortisol e prejudicando o desempenho. Outros respondem como estímulo, aumentando foco e agressividade.
Essa diferença se explica pelo conceito de cérebro preditivo: o cérebro reage às previsões, não apenas ao ambiente. Assim, ambientes idênticos geram experiências diversas entre profissionais.
Essa percepção constante de avaliação eleva o custo cognitivo, reduz a criatividade e atrasa decisões. No trabalho, o efeito é similar: estados de alerta contínuo dificultam a inovação.
Avaliação permanente
O sócio-líder de Auditoria da CLA Brasil, Thiago Brehmer, observa que estruturas organizacionais ampliam a avaliação constante e metas de curto prazo. O erro é visto como falha de caráter em algumas culturas.
A hiperconectividade intensifica esse quadro. Julgamento em tempo real, métricas contínuas e exposição digital criam cenário de cobrança constante, com impacto na performance.
No esporte, o preparo para lidar com a pressão já acontece de forma estruturada, com visualização, controle emocional e recuperação. No ambiente corporativo, essas estratégias caminham, ainda de modo incipiente.
Recuperação x produtividade
No alto rendimento, descansar faz parte da estratégia de desempenho. Monitoramento, controle de carga, acompanhamento psicológico e recuperação protegem contra quedas de rendimento e burnout.
No âmbito corporativo, a associação entre produtividade e disponibilidade é mais comum. Jornada extensa, hiperconectividade e dificuldade de desconexão mantêm o estado de alerta como regra.
Especialistas defendem que a performance sustentável depende de fatores como confiança, autonomia e segurança psicológica. O esporte já demonstra que a cobrança precisa de preparação para ser eficaz.
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