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“A gente transformava restos em um banquete”: Pacho relembra caminho até o PSG

Zagueiro falou sobre a infância no Equador, a morte da mãe no dia da estreia e os tropeços antes de chegar à Europa

Paris Saint-Germain's Ecuadoran defender #51 Willian Pacho celebrates at the end of the UEFA Champions League second-leg, semi-final football match between FC Bayern Munich and Paris Saint-Germain (PSG) in Munich, southern Germany on May 6, 2026. (Photo by FRANCK FIFE / AFP)

Willian Pacho, zagueiro do Paris Saint-Germain, da seleção equatoriana e um dos melhores do mundo na posição, perdeu sua mãe no dia em que faria sua estreia no futebol profissional. Essa história veio à tona nesta segunda-feira (10), em  uma carta no The Players’ Tribune escrita pelo jogador que relembra sua trajetória até chegar ao […]

Willian Pacho, zagueiro do Paris Saint-Germain, da seleção equatoriana e um dos melhores do mundo na posição, perdeu sua mãe no dia em que faria sua estreia no futebol profissional. Essa história veio à tona nesta segunda-feira (10), em  uma carta no The Players’ Tribune escrita pelo jogador que relembra sua trajetória até chegar ao futebol europeu. O texto é impactante e, principalmente, uma homenagem a quem criou a família praticamente sozinha e partiu quando o sonho se realizou.

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Futebol ou não?

Pacho conta que durante boa parte da infância sequer imaginava o futebol como profissão. Seu plano era entrar para a Marinha, pois achava muito interessante poder ganhar dinheiro dentro de um barco. 

Em casa, a mãe também tinha dificuldade para acreditar que o esporte pudesse garantir o futuro do filho. Quando surgiu a possibilidade de colocá-lo em um clube do bairro, questionou como ele poderia sustentar uma família jogando futebol.

Ainda assim, foi ela quem deu condições para que ele continuasse.

O zagueiro cresceu em Quinindé, no Equador. Pela manhã, a mãe trabalhava em uma barraca de comida próxima à escola de uma das filhas. À noite, ganhava dinheiro lavando roupas de moradores do bairro.

A família também criava animais no quintal. Quando a situação apertava, eram galinhas. Em períodos melhores, porcos. Enquanto isso, Pacho ficava responsável por buscar restos de comida nas casas dos vizinhos para alimentá-los.

Era uma tarefa da qual não gostava. Além do cheiro e da sujeira, conta que era alvo de piadas de outras crianças e até de alguns adultos. No Natal, porém, sua mãe fazia questão de dividir a carne dos animais com todos no bairro, inclusive com aqueles que não haviam ajudado durante o ano.

Foi dali que Pacho tirou uma frase que usa mais de uma vez para explicar a própria trajetória. “Nós transformamos os restos em um banquete”.

Pacho e sua mãe. (Imagem: Reprodução / Arquivo Pessoal)

Altos e baixos

Aos 15 anos, tentar jogar futebol já era a realidade, e Pacho deixou a família para morar na academia do Independiente del Valle, a algumas horas de casa.

No alojamento, dividiu quarto com outro garoto equatoriano que também tentava chegar ao profissional. Moisés Caicedo, hoje peça-chave no meio-campo do Chelsea, se viu lado a lado com o zagueiro durante seus primeiros passos dentro do esporte.

Os dois se tornaram melhores amigos e mais tarde chegaram a dividir um apartamento para reduzir os gastos. Um preparava a comida e o outro lavava a louça. No dia seguinte, invertiam as tarefas.

Caicedo chegou primeiro ao time principal. Quando começou a ganhar um pouco de dinheiro, comprou um carro. Ali, Pacho percebeu com mais clareza que também poderia conseguir.

Um dia, quase subindo para o profissional, recebeu uma notícia de casa. A mãe tinha um tumor embaixo do braço, inicialmente benigno, mas que depois da retirada, veio o diagnóstico de câncer.

Pacho diz que ela evitava contar a gravidade da situação. Sempre que conversavam, dizia que estava bem e pedia para que o filho não voltasse para casa por causa dela.

Em uma folga, em 2019, ele pegou um ônibus para Quinindé e percebeu que as coisas estavam diferentes. A mãe havia perdido muito peso e já tinha passado por uma cirurgia para retirada do seio esquerdo. Naquela noite, Pacho dormiu ao lado dela e esperou que pegasse no sono para chorar sem ser visto.

Na hora de ir embora, pensou em tirar uma foto com a mãe, mas desistiu por acreditar que ainda teria outras oportunidades.

Poucos meses depois, recebeu a notícia de que finalmente estrearia pelo time principal. Animado, tentou ligar para ela, mas não conseguiu. Na véspera, os dois haviam conversado, e a mãe dizia estar muito cansada. Pacho então mandou uma mensagem pedindo que ela não dormisse cedo no dia seguinte, porque precisava assistir ao jogo.

Na manhã da estreia, acordou com o celular cheio de mensagens de condolências.

Pacho ligou para uma das irmãs, que disse que a história da morte não passava de um boato espalhado pela cidade. Afirmou que a mãe estava em casa, descansando depois de voltar do hospital.

Ele acreditou e entrou em campo pensando que ela acompanhava tudo pela televisão.

O Independiente del Valle terminou a partida sem sofrer gols. Depois do jogo e de uma boa estreia, Pacho foi levado pelo treinador até uma sala próxima ao vestiário. Lá, o pai e o cunhado esperavam por ele para dar a notícia de que a mãe havia morrido naquela manhã.

A família e o clube decidiram não contar antes da partida. 

Quando chegou a Quinindé, encontrou a rua lotada de pessoas que tinham ido se despedir da mãe. Entrou no quarto dela e ficou uma semana sem sair.

Imagem: Reprodução / Arquivo Pessoal

Recomeços

Voltar ao futebol não foi simples. Pacho diz que, depois da perda, a sensação ao entrar em campo era diferente. Ele carregava raiva, impotência e dor.

Com o passar do tempo, começou a direcionar aquela intensidade nos sentimentos de outra maneira. Deixou de jogar dominado pelo medo e passou a atuar com mais agressividade e fome. A evolução nos dois anos seguintes pelo Independiente del Valle chamou a atenção do Borussia Mönchengladbach, que tentou contratá-lo em 2021.

Para Pacho, o negócio estava praticamente fechado. A expectativa era tão grande que ele decidiu comprar uma casa para os irmãos antes mesmo de viajar para a Alemanha.

Era um desejo antigo. Quando criança, ouvira da mãe que o futebol não seria capaz de colocar um teto sobre a cabeça da família e, como já não podia comprar uma casa para ela, resolveu fazer isso pelos irmãos. O problema é que a transferência não aconteceu, pois o clube alemão não conseguiu concluir a operação dentro do prazo por questões financeiras. 

Ele já havia feito uma despedida pública do Independiente del Valle, o clube já tinha buscado outro zagueiro e ainda faltava pagar metade da casa. O que fazer? Na época, só lhe restava treinar e continuar atuando em alto nível.

Foto por FRANKLIN JACOME / POOL / AFP

Mas a situação piorou pouco depois. Em sua segunda partida após o negócio fracassar, Pacho deslocou os dois ombros. Um deles já apresentava problemas desde a infância, mas, daquela vez, seria necessário operar ambos.

O médico sugeriu uma cirurgia de cada vez. Pacho preferiu fazer as duas juntas, mesmo sabendo que passaria meses sem conseguir utilizar os braços. Durante a recuperação, dependia da irmã para comer, tomar banho e realizar tarefas simples do dia a dia.

Foi justamente nesse período que apareceu o Royal Antwerp.

O clube belga decidiu contratá-lo antes mesmo que estivesse novamente em condições de treinar. Pacho chegou à Europa ainda em recuperação e sem falar inglês ou francês. Treinava sozinho e praticamente não conseguia se comunicar com os companheiros.

Foi quando voltou a recorrer a Moisés Caicedo. Anos antes, quando o amigo havia trocado o Equador pela Inglaterra, era Caicedo quem ligava chorando por causa da solidão. Agora, Pacho mandava mensagens dizendo que finalmente entendia o que ele tinha vivido.

A adaptação melhorou, Pacho conquistou espaço no time e terminou a temporada como campeão belga, o primeiro título do Antwerp em 66 anos. Mais uma vez, transformando restos em um banquete.

A passagem pela Bélgica abriu caminho para o Eintracht Frankfurt e depois de uma temporada na Alemanha, veio o contato do Paris Saint-Germain.

Luís Campos, consultor de futebol do clube francês, marcou um jantar com Pacho e, durante a conversa, surpreendeu o zagueiro ao colocar Luis Enrique em uma chamada de vídeo. O treinador disse que ele não precisava chegar a Paris tentando justificar imediatamente a contratação e que ainda tinha espaço para evoluir.

Para ele, Luis Enrique foi uma das principais razões para tudo que conseguiu no PSG, mas faz questão de acrescentar que fala disso pensando primeiro no treinador como pessoa, e não apenas no profissional. 

O zagueiro não esperava virar titular tão rápido, muito menos conquistar duas Champions League em duas temporadas. Ele mesmo fala que no começo era: “51? Quem é o 51?”. Para depois, ter seu nome gritado por todo o estádio.

Sonhos realizados

Antes da primeira final de Champions League contra a Inter de Milão, conversou por vídeo com os irmãos, que pediram apenas que brigasse por todas as bolas, em todos os lances.

Aos 20 minutos, depois de cabecear a bola em direção ao próprio gol, Pacho correu para evitar que ela saísse para escanteio e conseguiu mantê-la em campo com um movimento que, na carta, compara a uma cena de filme de kung-fu. A recuperação deu início ao contra-ataque que terminou no segundo gol do PSG.

Foto por FRANCK FIFE / POOL / AFP

Naquele dia, se tornou o primeiro jogador equatoriano a vencer uma Champions. Pacho lembra que durante a infância, era difícil imaginar jogadores do país chegando aos principais clubes e competições da Europa.

Também diz que ainda se pergunta por que alguns conseguiram seguir esse caminho enquanto tantos outros jogadores talentosos que conheceu ficaram pelo caminho.

O fim da carta é reservado, mais uma vez, à mãe. Pacho lembra que costumava colocar o Grupo Aventura para tocar e dançar bachata com ela dentro de casa. Durante meses, tentou aprender os passos olhando para os pés da mãe, até conseguir acompanhar o ritmo.

Com o tempo, essa lembrança passou a ocupar o lugar da fotografia que ele pensou em tirar antes de perdê-la, mas que nunca existiu. Para Pacho, a imagem dos dois dançando juntos acabou valendo mais do que a foto que ficou faltando.

 

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