<span style=”font-weight: 400;”>Aaron Wan-Bissaka é filho de congoleses e defendeu a seleção da RD Congo na Copa do Mundo de 2026. No dia 21 de agosto, o Aston Villa anunciou sua contratação, por empréstimo do West Ham United, com obrigação de compra em torno de 18 milhões de libras (cerca de R$ 126 milhões).</span>
Aaron Wan-Bissaka é filho de congoleses e defendeu a seleção da RD Congo na Copa do Mundo de 2026. No dia 21 de agosto, o Aston Villa anunciou sua contratação, por empréstimo do West Ham United, com obrigação de compra em torno de 18 milhões de libras (cerca de R$ 126 milhões).
O detalhe que chamou atenção, porém, não foi o valor do negócio, mas o assunto delicado por trás do reforço.
A camisa do clube de Birmingham é patrocinada pela “Visit Rwanda”, marca de turismo do governo de Ruanda, que vive há décadas uma relação tensa com a RD Congo.
Toda a confusão começou em 1994, com o genocídio ruandê. Em cerca de 100 dias, milícias hutus mataram entre 800 mil e 1 milhão de tutsis, um grupo étnico rival desde o período colonial.
O massacre só terminou quando um grupo rebelde tutsi (a Frente Patriótica Ruandesa) tomou o poder em Ruanda. Com a derrota, os responsáveis pelo genocídio (as milícias hutus) fugiram para o leste do país vizinho, então chamado Zaire (hoje República Democrática do Congo), e se instalaram lá.
Desde então, Ruanda passou a enxergar essa presença hutu no território congolês como uma ameaça constante à sua segurança, e usou esse argumento para justificar décadas de incursões militares dentro do Congo.
Esse conflito nunca foi realmente resolvido, ele só foi mudando de nome e de grupo armado ao longo dos anos. Hoje, sua versão mais recente é o M23, um grupo rebelde que controla parte do leste congolês. Segundo a ONU, o M23 recebe apoio militar de Ruanda (de Kigali, a capital), algo que o governo ruandês nega oficialmente.
O episódio virou assunto nas redes sociais, mas é só a ponta mais recente de uma prática que já tem nome entre organizações de direitos humanos: sportswashing.
O que é sportswashing
O termo descreve o uso do esporte (patrocínios, compra de clubes, sede de grandes eventos) como estratégia para construir uma imagem internacional favorável e desviar a atenção pública de violações de direitos humanos, repressão interna ou conflitos armados. A lógica é associar o nome de um país a algo que desperta paixão e visibilidade global, como o futebol europeu, para ofuscar o que esse mesmo país faz fora das quatro linhas.
A prática não é exclusiva de Ruanda. Nos últimos quinze anos, o futebol europeu se tornou vitrine para uma série de governos com históricos questionados em direitos humanos.
Três dos clubes mais ricos da Europa hoje pertencem a fundos soberanos de países do Golfo. O Manchester City é controlado por Abu Dhabi desde 2008, o Newcastle United passou às mãos do fundo soberano saudita PIF em 2021, e o Paris Saint-Germain é do fundo soberano do Catar desde 2011.
Mas quais são acusações? De acordo com a Human Rights Watch:
- Emirados Árabes Unidos: denuncia penas extremas de prisão por posts em redes sociais, o aumento alarmante do uso da pena de morte e os abusos severos contra migrantes nas obras dos grandes megaprojetos
- Arábia Saudita: política de tolerância zero contra críticas ao governo, usando leis cibernéticas para silenciar ativistas e prender quem se manifesta na internet
- Catar: leis de tutela masculina controlam a vida das mulheres (exigindo permissão de guardiões para casar, viajar ou até fazer check-in em hotéis) e como os trabalhadores continuam sofrendo calotes salariais crônicos
O motivo por trás dos três é o mesmo: usar a popularidade global do futebol para ofuscar críticas de direitos humanos que esses governos enfrentam internacionalmente.
A Anistia Internacional resumiu o padrão ao chamar a compra do Newcastle de “sportswashing puro e simples”, nas palavras do chefe de campanhas da entidade no Reino Unido, Felix Jakens. Anos depois, segundo a ESPN, o próprio príncipe herdeiro saudita admitiu publicamente investir em esporte para elevar o PIB do país, tratando o termo quase como elogio ao efeito prático da estratégia.
De volta a Ruanda
O caso de Ruanda é diferente porque o país não comprou um clube. A estratégia foi investir diretamente em patrocínios por meio da marca Visit Rwanda.
A empresa patrocinou o Arsenal entre 2018 e o fim da temporada 2025/26 e mantém acordos com PSG, Bayern de Munique, Atlético de Madrid e Aston Villa. O Arsenal encerrou a parceria após anos de críticas relacionadas à situação dos direitos humanos em Ruanda e, mais recentemente, às acusações de apoio do país ao grupo rebelde M23.
É por isso que a contratação de um jogador congolês por um clube patrocinado pela Visit Rwanda chamou atenção. Um atleta da RD Congo passa a vestir uma camisa que divulga um país acusado de apoiar um grupo armado que atua dentro do território de seu país.
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