Se a SAFiel avançar no Corinthians, o clube poderá adotar uma estrutura inédita entre as grandes equipes do futebol brasileiro, mas que já encontra exemplos fora do país. A proposta de dividir o clube entre milhares de torcedores lembra, em alguns pontos, os modelos da Real Sociedad, da Espanha, e do Green Bay Packers, da NFL.
Os três casos estão longe de ser iguais. Packers e Real Sociedad têm estruturas jurídicas diferentes entre si, e a proposta apresentada ao Corinthians traz regras próprias. O ponto de encontro está na tentativa de evitar que uma única pessoa ou empresa concentre o controle da operação.
No projeto da SAFiel, o futebol do Corinthians seria transferido para uma Sociedade Anônima do Futebol e os torcedores poderiam comprar ações da Invasão Fiel S.A., holding criada para controlar a nova empresa.
A última versão do projeto prevê uma captação inicial de R$ 2,5 bilhões, com possibilidade de chegar a R$ 3 bilhões. Para isso, seriam disponibilizadas inicialmente 10 milhões de ações a R$ 250 cada.
O plano também estabelece um limite de 2% das ações por pessoa física, para impedir que um grande investidor concentre participação suficiente para controlar sozinho a sociedade.
A proposta, porém, ainda não foi aprovada pelo Corinthians.
Poder dividido entre diferentes tipos de acionistas
Os acionistas seriam separados em cinco grupos, chamados de distritos econômicos, de acordo com a quantidade de ações de cada um. O primeiro reuniria quem tivesse de uma a dez ações. O último seria formado pelos investidores com mais de 10 mil.
Cada grupo participaria da escolha de um integrante do Conselho de Administração, formado por cinco membros independentes.
Dessa forma, colocar mais dinheiro na companhia aumentaria a participação acionária do investidor, mas não daria a ele liberdade para escolher sozinho todo o conselho.
A administração cotidiana ficaria nas mãos de executivos profissionais. Segundo a proposta, o conselho teria a função de acompanhar e fiscalizar a gestão, enquanto áreas como futebol e finanças permaneceriam sob responsabilidade da estrutura executiva.
As ações também teriam valor econômico. Nos cinco primeiros anos, todo o lucro seria reinvestido na companhia. A partir do sexto, o projeto prevê que pelo menos 75% continue sendo reinvestido.
Real Sociedad espalhou ações entre os torcedores
A Real Sociedad passou por uma transformação parecida no início dos anos 1990, embora em um contexto completamente diferente.
A legislação espanhola obrigou a maioria dos clubes profissionais do país a se transformar em Sociedad Anónima Deportiva. A Real concluiu o processo em 1992 e dividiu seu capital em 65.750 ações.
Em vez de terminar sob o controle de um empresário, as ações ficaram amplamente distribuídas entre sócios e torcedores.
Em 2005, 9.623 acionistas tinham direito a participar das decisões da sociedade. Naquele momento, pouco mais de 81% das ações pertenciam a pessoas que possuíam entre uma e 15 unidades.
E essa pulverização também aparece nas regras do clube. Atualmente, o estatuto da Real Sociedad estabelece que nenhum acionista pode possuir mais de 2% do capital social. Cada ação dá direito a um voto, embora existam outras restrições para evitar concentração na votação.
É uma lógica parecida com a SAFiel. Nos dois casos, existe capital de verdade, direito de voto e uma trava para impedir que um único acionista acumule participação excessiva.
Mas há uma diferença importante. No time espanhol, os acionistas possuem diretamente ações da sociedade que controla o clube. No projeto apresentado ao Corinthians, os torcedores seriam acionistas da holding responsável pelo controle da SAF.
O modelo espanhol, porém, não impediu problemas financeiros. Em 2008, a Real Sociedad entrou em concurso de credores, com dívidas exigíveis próximas de 27 milhões de euros e patrimônio líquido negativo.
O clube conseguiu superar a crise, mas o caso mostra que dividir a propriedade não garante, por si só, uma boa gestão.
Packers têm quase 539 mil acionistas
O Green Bay Packers é um caso ainda mais conhecido de propriedade popular.
A franquia da NFL pertence a seus acionistas desde 1923 e não possui um dono individual. Atualmente, são quase 539 mil acionistas e mais de 5,2 milhões de ações.
O modelo é uma exceção dentro da própria NFL. Pelas regras atuais da liga, outras franquias precisam ter um proprietário controlador e não poderiam simplesmente copiar a estrutura de Green Bay.
Os acionistas participam da escolha do Conselho de Administração, mas as ações têm uma diferença importante em relação à SAFiel.
Quem compra um papel dos Packers não recebe dividendos e não deve esperar retorno financeiro. As ações têm transferência limitada e funcionam principalmente como uma forma de participação institucional e vínculo com a franquia.
Na SAFiel, os papéis teriam valor econômico e poderiam dar direito à distribuição de parte dos lucros no futuro.
Projeto do Corinthians cria modelo próprio
Real Sociedad e Packers mostram que distribuir a propriedade de uma organização esportiva entre milhares de pessoas não é uma ideia nova.
A SAFiel, porém, não copiaria nenhum dos dois modelos.
O projeto busca combinar participação dos torcedores, limite para grandes acionistas, gestão profissional e ações com valor econômico dentro da estrutura brasileira de uma SAF.
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