A NFL desembarca neste domingo (27) no Maracanã, que recebe o jogo de Baltimore Ravens e Dallas Cowboys na visita anual da liga de futebol americano (National Football League) ao Brasil. Assim como outras grandes ligas esportivas americanas, a NFL conta com alguns dos atletas mais bem pagos do mundo. Alguns deles nem são muito conhecidos mundialmente, mas recebem salários próximos ou até superiores aos de grandes estrelas do futebol tradicional, que nasceu no Reino Unido e se tornou o esporte mais popular do planeta.
Neste momento, o atleta da NFL mais bem pago é o quarterback (jogador com função de ataque) Patrick Mahomes, do KansasCity Chiefs, que recebe US$ 66 milhões (R$ 342,5 milhões, pela taxa de câmbio atual) por ano.
Mas, afinal, como um mercado esportivo de alcance muito menor que o futebol tradicional consegue dar tanto dinheiro até para jogadores que não estão no primeiro escalão?
Uma parte importante da resposta está justamente em uma característica que ajudou a transformar o futebol tradicional no maior esporte do planeta. Ele movimenta grandes mercados em diferentes países, e o dinheiro acaba espalhado entre várias ligas, em vez de ficar concentrado em uma só, como acontece nos grandes esportes americanos.
“As ligas americanas têm uma centralização muito maior de receita, interesse, captação e distribuição dentro do mesmo núcleo. O futebol é mais fragmentado, por isso a distribuição é muito maior”, diz o especialista em marketing esportivo José Ricardo Leite.
O futebol é gigante, mas fragmentado
Os melhores jogadores de futebol do mundo não estão reunidos em um único campeonato, como é o caso da NFL. Estão espalhados por Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália, França e outros mercados. O mesmo vale para o dinheiro.
Real Madrid, Liverpool, Bayern de Munique e Inter de Milão disputam o mesmo mercado internacional de jogadores, mas pertencem a ligas diferentes, recebem receitas de competições diferentes e exploram comercialmente suas próprias marcas.
Nos principais esportes americanos, a elite ficou concentrada. A NFL tem 32 franquias. NBA e MLB, 30 cada. A NHL, 32. São os principais mercados de cada um desses esportes e que cabem em poucas franquias.
Só as cinco principais ligas nacionais do futebol europeu somam atualmente 96 clubes. O número ainda deixa de fora outras primeiras divisões, divisões inferiores e todo o mercado existente fora da Europa.
Olhar apenas para o faturamento total de cada esporte não resolve a questão. O futebol pode movimentar uma quantidade gigantesca de dinheiro, mas essas cifras são distribuídas por uma estrutura muito maior. Já nas grandes ligas americanas, esse dinheiro fica concentrado em uma única competição e é dividida entre um número pequeno de franquias.
Ser o maior clube não permite comprar quem quiser
No futebol, grandes clubes construíram marcas que ultrapassam em alcance a competição nacional da qual fazem parte. Nos Estados Unidos, a relação é diferente. Mesmo uma franquia histórica não ocupa dentro daquele esporte o que a liga ocupa. Ela é, se não a principal, uma das grandes marcas do produto.
O tamanho da equipe também pesa de maneira diferente nos dois mercados. Por exemplo, Real Madrid e Athletic Bilbao jogam a mesma LaLiga, mas estão muito distantes em faturamento, alcance internacional e capacidade comercial.
As ligas europeias possuem regras financeiras e distribuem receitas coletivas — principalmente de televisão —, mas não transformam seus participantes em empresas com o mesmo poder de investimento.
Nos Estados Unidos, também existem franquias muito mais ricas e populares que outras. Dallas Cowboys e Jacksonville Jaguars não têm o mesmo tamanho comercial. Lakers e Charlotte Hornets tampouco.
Só que essa diferença é reduzida por um modelo chamado revenue sharing, que distribui entre as franquias uma parcela importante das receitas geradas pela liga. Ao mesmo tempo, mecanismos como o teto salarial limitam quanto cada equipe pode gastar com jogadores. Assim, uma franquia que arrecada mais com estádio, patrocínios e outras receitas próprias pode ter mais dinheiro para investir em estrutura e operação, mas isso não significa que possa simplesmente montar uma folha salarial muito maior que a das concorrentes.
O Dallas Cowboys não pode decidir gastar US$ 500 milhões com sua folha enquanto um concorrente utiliza US$ 200 milhões. Ambos precisam obedecer ao mesmo teto da NFL.
Na NBA, Lakers e Hornets também trabalham submetidos ao mesmo sistema de salary cap, ainda que suas receitas e valores de mercado sejam completamente diferentes.
Essa força da liga permite que uma franquia de mercado menor continue disputando jogadores dentro do mesmo sistema de uma das marcas mais valiosas do esporte. Para o atleta, significa que seu mercado não depende apenas do tamanho comercial do clube interessado nele.
Uma fatia do bolo já pertence aos jogadores
Nas principais ligas americanas, os jogadores negociam coletivamente com os proprietários quanto do dinheiro gerado pelo negócio ficará com os atletas. Na NBA, o atual acordo coletivo estabelece que os jogadores recebam, em conjunto, entre 49% e 51% da chamada Basketball Related Income. Na NFL, o acordo firmado entre liga e jogadores prevê uma participação de pelo menos 48% das receitas definidas pelo contrato coletivo.
Isso não significa que cada atleta fique com metade do que sua equipe arrecada. Até porque, diferentemente do futebol, nos esportes americanos boa parte da arrecadação passa pela própria liga. A divisão é feita sobre o conjunto das receitas da competição e depois se reflete em mecanismos como o teto salarial e, por fim, nos contratos individuais.
Na NFL, o resultado desse crescimento pode ser acompanhado ano a ano. O teto salarial por franquia era de US$ 208,2 milhões em 2022. Em 2026, chegou a US$ 301,2 milhões. Quanto mais dinheiro a liga produz, maior pode se tornar o montante disponível para remunerar jogadores.
É aí que contratos enormes deixam de depender apenas de o atleta ser uma celebridade global. Um time precisa preencher dezenas de posições dentro de uma folha que pode passar dos US$ 300 milhões. Na NBA, são menos atletas dividindo uma parcela de um negócio bilionário.
Os Estados Unidos conseguiram concentrar os melhores
O modelo, sozinho, não produziria o mesmo resultado em qualquer lugar. As grandes ligas cresceram dentro da maior economia do mundo, com um mercado consumidor enorme e uma indústria de mídia capaz de sustentar contratos bilionários.
Mas há uma vantagem ainda mais importante: NFL, NBA, MLB e NHL conseguiram concentrar grande parte dos melhores atletas de suas modalidades.
No futebol americano, chegar ao topo significa chegar à NFL. No basquete, os melhores jogadores do mundo estão principalmente na NBA. A MLB é o centro do beisebol, enquanto a NHL, dividida entre Estados Unidos e Canadá, ocupa o principal nível do hóquei profissional.
Talento, audiência e dinheiro acabam circulando dentro do mesmo sistema. No futebol, não.
Uma estrela pode estar em diversos mercados. Os clubes disputam atletas em todo o mundo e podem precisar desembolsar dezenas de milhões de euros apenas para comprar os direitos de um jogador de outra equipe antes mesmo de negociar seu salário.
Nos esportes americanos, as transferências seguem mecanismos diferentes e não há um mercado de compra e venda de atletas equivalente ao futebol europeu. No futebol, parte do investimento em um jogador pode ficar na transferência, enquanto nos Estados Unidos uma parcela maior do custo de aquisição de talento aparece no próprio contrato.
Os mecanismos mais comuns são:
- Draft: equipes selecionam jogadores que estão entrando na liga, seguindo uma ordem definida pelas regras de cada competição.
- Trade: franquias trocam jogadores, escolhas de draft e outros ativos entre si. Em geral, não funciona como a compra de um atleta por uma quantia de transferência.
- Free agency: ao ficar livre de contrato, o jogador pode negociar diretamente um novo vínculo com outras franquias, dentro das regras da liga.
- Waivers: determinados jogadores dispensados passam por um sistema no qual outras equipes podem reivindicar seu contrato antes que se tornem totalmente livres.
As regras variam entre NFL, NBA, MLB e NHL, mas não existe um mercado de transferências equivalente ao do futebol, no qual um clube normalmente paga a outro para contratar um atleta que ainda possui vínculo.
No fim, o salário de um atleta não mede apenas o tamanho de sua fama ou sua posição entre os melhores do mundo, ele também revela o mercado em que joga.
O futebol criou o maior ecossistema esportivo do planeta, mas dividiu sua riqueza entre países, campeonatos, clubes e um número enorme de atletas. As grandes ligas americanas fizeram o movimento contrário, concentrando boa parte do dinheiro e do talento de suas modalidades dentro de poucas dezenas de franquias e estabelecendo mecanismos para que uma parcela relevante dessas receitas chegue aos jogadores.
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