Ainda criança, perdeu os pais de forma violenta, cresceu longe deles e precisou aprender a conviver com uma ausência que o acompanha desde os sete anos. Nesta quarta-feira (21), mais uma vez, foi o grande herói palmeirense. São três pênaltis defendidos no mata-mata da Libertadores, dois contra a LDU, nas quartas de final, e o terceiro contra o Fluminense, que garantiu a vaga na final da competição.

(Imagem: Cesar Greco / Palmeiras).
Noites diferentes
Aos 28 anos, Carlos viveu a maior noite de sua carreira, mas, 21 anos antes, viveu, com certeza, a mais dolorosa. Ele tinha apenas sete anos quando criminosos invadiram a casa de sua família, em Macaé, no Rio de Janeiro. Seus pais, José Cláudio Zaquieu Pereira e Elenise, foram assassinados. Ele e o irmão mais velho, também chamado José Cláudio, sobreviveram porque conseguiram se esconder em um quarto.
Mesmo depois daquela noite, os irmãos continuaram com medo de que os responsáveis voltassem. Sem os pais, foram criados pelas tias Ana Cláudia e Ana Maria e pela avó Maria Aparecida, em Cardoso Moreira, no interior do Rio de Janeiro. Ana Maria assumiu a guarda dos meninos e acompanhou boa parte da formação do futuro goleiro.
As consequências do assassinato acompanharam Carlos durante a infância e a adolescência. Reservado, tinha dificuldades para se relacionar com outras pessoas, situação que também interferiu em seus primeiros anos no futebol. Segundo a reportagem, o acompanhamento psicológico contribuiu para uma mudança de comportamento quando passou pelo Boa Esporte, em 2021.
Apesar das dificuldades, a vontade de jogar futebol permaneceu. Ana Maria contou que Carlos sempre foi determinado a seguir carreira, mesmo diante dos obstáculos que surgiram após a morte dos pais. A escolha pela posição de goleiro também tinha uma ligação especial com a família.

Carlos Miguel, tias, avó e irmão. (Foto: Arquivo Pessoal)
O sonho de ser goleiro vinha do pai
José Cláudio, pai do jogador, havia defendido o Botafogo na década de 1970. O irmão mais velho também tentou seguir a profissão e chegou a integrar as categorias de base de Vasco e Fluminense, mas acabou deixando o futebol. Carlos, por sua vez, continuou buscando uma oportunidade.
Na infância, chegou a praticar basquete e disputar competições amadoras em Cardoso Moreira. Com o passar dos anos, o tamanho se tornou uma de suas principais características. Hoje, com 2,04 metros, é o goleiro mais alto da Série A.
A primeira oportunidade em um grande clube surgiu no Flamengo, após ser aprovado em um teste. Carlos Miguel passou cerca de um ano nas categorias de base rubro-negras, onde integrou a mesma geração de Vinícius Júnior. Em 2016, transferiu-se para o Internacional, ainda em formação.
No clube gaúcho, ganhou destaque na Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2018, quando a equipe chegou à semifinal. O desempenho, porém, não foi suficiente para garantir espaço imediato no time principal. Em 2020, acabou emprestado ao Santa Cruz, mas deixou o clube sem disputar uma partida oficial.
No ano seguinte, recebeu uma nova oportunidade no Boa Esporte, de Minas Gerais, onde fez suas primeiras partidas como profissional, e mesmo com a equipe rebaixada no Campeonato Mineiro, conseguiu chamar a atenção do Corinthians, que anunciou sua contratação em agosto de 2021.
A chegada ao Corinthians e a passagem pela Inglaterra
No Corinthians, Carlos Miguel passou a conviver com Cássio, um dos principais nomes da história do clube e uma referência para ele desde a infância. Na apresentação, contou que havia acompanhado a conquista do Mundial de Clubes de 2012 pela televisão e que trabalhar ao lado do goleiro era uma oportunidade especial.
As primeiras chances demoraram. Carlos estreou pelo Corinthians em 2022 e continuou como reserva durante boa parte de sua passagem, até ganhar mais oportunidades em 2024. Mesmo com poucos jogos, chamou atenção pelas boas atuações e chegou a completar 12 partidas de invencibilidade, com dez vitórias e dois empates.
Em maio daquele ano, Cássio deixou o Corinthians para defender o Cruzeiro, e Carlos Miguel assumiu definitivamente a titularidade. O bom desempenho aumentou seu prestígio entre os torcedores e despertou o interesse de clubes europeus. Em julho, após 26 partidas pelo clube paulista, foi contratado pelo Nottingham Forest, da Inglaterra.
A experiência na Premier League não teve a sequência esperada. Carlos Miguel entrou em campo apenas três vezes pelo clube inglês e permaneceu como reserva, sem conseguir se firmar entre os titulares. Em agosto de 2025, o Palmeiras decidiu contratá-lo. O goleiro retornou ao Brasil aos 26 anos e assinou um vínculo válido até julho de 2030.
Decisivo novamente
Pouco mais de um ano após chegar ao Palmeiras, Carlos Miguel se tornou o principal personagem da campanha do clube na Libertadores. Nas quartas de final, contra a LDU, já havia defendido duas cobranças na disputa de pênaltis, em Quito, garantindo a classificação à semifinal. Na ocasião, impediu os chutes de Lucas Rodríguez e Segovia.

Carlos Miguel consultando suposta “cola” de batedores do Fluminense. (Imagem: Cesar Greco / Palmeiras).
Na quarta-feira (21), a atuação se repetiu diante do Fluminense. Após vencer o primeiro jogo por 2 a 1 no Maracanã, o Palmeiras perdeu por 1 a 0 no Nubank Parque, com gol de Hércules, e viu a decisão da vaga ser levada para os pênaltis.
O goleiro defendeu a cobrança de Nonato, enquanto os cinco jogadores palmeirenses converteram suas tentativas. Com a vitória por 5 a 3 nas penalidades, o time comandado por Abel Ferreira garantiu sua oitava participação em uma final de Libertadores.
Antes da defesa, Carlos Miguel chamou atenção ao consultar uma toalha próxima à trave, aparentemente em busca de informações sobre os cobradores adversários. Questionado sobre o assunto depois da partida, preferiu guardar segredo.
“Sobre a minha estratégia, não conto para ninguém”, respondeu o goleiro, que também agradeceu aos companheiros pela eficiência nas cobranças.
A decisão da Libertadores está marcada para 28 de novembro, no Estádio Centenário, em Montevidéu, no Uruguai. O Palmeiras busca seu quarto título continental, após as conquistas de 1999, 2020 e 2021.
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