A final da Copa do Mundo de 2026 entre Argentina e Espanha reforça uma tendência que domina o futebol de seleções há mais de uma década: os últimos campeões mundiais foram comandados por técnicos “da casa”, conhecedores profundos da cultura local e, em geral, sem uma trajetória marcada por grandes trabalhos em clubes antes de […]
A final da Copa do Mundo de 2026 entre Argentina e Espanha reforça uma tendência que domina o futebol de seleções há mais de uma década: os últimos campeões mundiais foram comandados por técnicos “da casa”, conhecedores profundos da cultura local e, em geral, sem uma trajetória marcada por grandes trabalhos em clubes antes de assumir a seleção.
Joachim Löw: continuidade alemã até o título de 2014
Antes de conquistar a Copa do Mundo de 2014, a Alemanha já vinha acumulando resultados consistentes em grandes torneios.
Foi terceira colocada na Copa de 2006, vice-campeã da Eurocopa de 2008, terceira colocada na Copa de 2010 e semifinalista da Euro de 2012, mostrando uma evolução contínua ao longo dos anos.
Joachim Löw não chegou à seleção alemã como um técnico de currículo gigantesco em clubes.

Foto: Creative Commons
Antes de assumir a Alemanha, havia treinado equipes como Stuttgart, Fenerbahçe, Karlsruher, Adanaspor, Tirol Innsbruck e Austria Viena. Seu maior trabalho, porém, foi construído dentro da própria seleção.
Löw foi auxiliar de Jürgen Klinsmann na Copa de 2006 e assumiu o comando depois do torneio. A partir dali, manteve a base, amadureceu a geração e levou a Alemanha ao título mundial em 2014, no Brasil.
O caso alemão é um exemplo clássico de continuidade federativa. O técnico conhecia o ambiente, falava a língua do futebol local e passou anos moldando uma geração até o auge. Não era um “salvador” contratado no mercado.
Didier Deschamps: campeão como jogador e técnico
Didier Deschamps tinha uma trajetória mais forte em clubes do que os outros nomes da lista.
Antes da França, comandou Monaco, Juventus e Olympique de Marselha, chegou a uma final de Champions League com o Monaco e foi campeão francês pelo Marseille.
Ainda assim, seu maior ativo na seleção era outro: Deschamps conhecia a França por dentro. Foi capitão da equipe campeã mundial em 1998 e campeã da Euro em 2000. Quando assumiu como treinador, em 2012, levou para o cargo a autoridade de quem entendia o peso da camisa e os códigos do futebol francês.

Foto: Creative Commons
Antes de conquistar a Copa do Mundo de 2018, a França de Deschamps também teve resultados relevantes. Foi vice-campeã da Eurocopa de 2016, disputada em casa, e chegou às quartas de final da Copa de 2014, mostrando evolução até o título.
Em 2018, montou uma França pragmática, física e equilibrada. A equipe não precisava encantar o tempo todo. Precisava competir melhor do que os rivais. Deu certo. Deschamps virou o terceiro homem a vencer a Copa como jogador e técnico, depois de Zagallo e Beckenbauer.
Lionel Scaloni: de interino desacreditado a campeão mundial
Lionel Scaloni talvez seja o maior símbolo dessa tendência. Quando assumiu a Argentina, após a Copa de 2018, era tratado como solução provisória. Não tinha carreira relevante como treinador de clubes e vinha de trabalhos na comissão técnica de Jorge Sampaoli e nas seleções de base argentinas.
O que parecia improviso virou projeto. Scaloni reorganizou a seleção, aproximou o elenco, deu estabilidade emocional a Messi e criou um ambiente competitivo. A Argentina venceu a Copa América de 2021, a Finalíssima de 2022 e a Copa do Mundo do Catar.

Foto: Creative Commons
Em 2026, Scaloni levou a Argentina a mais uma final. A equipe eliminou a Inglaterra por 2 a 1 na semifinal e agora tenta ser a primeira seleção desde o Brasil de 1962 a conquistar duas Copas consecutivas.
A trajetória mostra que, em seleção, o currículo de clube nem sempre é o fator principal. Scaloni ganhou força pela gestão do grupo, pela leitura da identidade argentina e pela capacidade de transformar uma geração pressionada em um time estável mentalmente.
Luis de la Fuente: a escola espanhola como projeto
Luis de la Fuente é outro caso de técnico formado dentro da estrutura da federação. Antes de assumir a seleção principal da Espanha, passou anos nas categorias de base do país. Foi campeão com a Espanha sub-19, sub-21 e olímpica, além de conquistar a Eurocopa de 2024 com a equipe principal.
Sua carreira em clubes foi discreta. O trabalho mais importante veio no desenvolvimento de jogadores e na convivência direta com diferentes gerações espanholas.

Foto: Creative Commons
Na Copa de 2026, essa lógica apareceu com força. A Espanha chegou à final depois de vencer a França por 2 a 0 na semifinal, em uma atuação marcada por controle coletivo, força no meio-campo e organização tática.
Se for campeã, De la Fuente confirmará a tese: mais uma vez, a Copa terá sido vencida por um técnico nacional, formado na cultura do próprio país e ligado a um projeto de seleção, não por um nome contratado pelo peso do currículo em clubes.
Ancelotti no Brasil: a aposta oposta
É nesse contexto que o Brasil escolheu um caminho totalmente diferente. A CBF contratou Carlo Ancelotti em maio de 2025 e, em 2026, renovou o vínculo do italiano até 2030.
A própria entidade destacou que, em um ano de trabalho, ele havia dirigido a Seleção em dez partidas.
Ancelotti é praticamente o oposto do modelo recente dos campeões. Não é brasileiro, não foi formado dentro da CBF e construiu sua grandeza no futebol de clubes. É um dos maiores treinadores da história, multicampeão por Milan e Real Madrid, vencedor de Champions League e referência mundial.

Foto: Creative Commons
O Brasil, portanto, apostou no currículo, na experiência de elite e na experiência de um técnico acostumado a comandar vestiários estrelados.
A lógica é compreensível, principalmente depois de anos de instabilidade, mas vai contra o caminho que tem produzido campeões mundiais.
Entre na conversa da comunidade