Catherine O’Hara passou a vida inteira fazendo o mundo rir com uma precisão rara: bastava um olhar, uma palavra deslocada ou até um silêncio milimetricamente calculado para transformar completamente uma cena. Conhecida mundialmente por papéis marcantes em Esqueceram de Mim, Beetlejuice e, mais recentemente, na série Schitt’s Creek, O’Hara construiu uma carreira rara: atravessou cinco […]
Catherine O’Hara passou a vida inteira fazendo o mundo rir com uma precisão rara: bastava um olhar, uma palavra deslocada ou até um silêncio milimetricamente calculado para transformar completamente uma cena.
Conhecida mundialmente por papéis marcantes em Esqueceram de Mim, Beetlejuice e, mais recentemente, na série Schitt’s Creek, O’Hara construiu uma carreira rara: atravessou cinco décadas mantendo relevância artística, respeito da crítica e uma popularidade alta, resultado de uma conexão afetiva duradoura com o público.
Mesmo perto do fim da vida, seguia em plena atividade. Seus trabalhos mais recentes incluem a sátira hollywoodiana The Studio, da Apple TV+, criada por Seth Rogen, e a segunda temporada de The Last of Us, da HBO. Em 2024, ela ainda retornou a um de seus personagens mais emblemáticos no filme Beetlejuice Beetlejuice.
Ao longo da carreira, Catherine O’Hara acumulou prêmios que refletem seu impacto na indústria: dois Emmys, um Globo de Ouro e dois troféus do Screen Actors Guild, entre outros reconhecimentos.
Do Canadá ao estrelato mundial
Nascida em Toronto, O’Hara deu os primeiros passos na comédia nos anos 1970, longe de Hollywood. Trabalhando como garçonete no teatro Second City, acabou sendo chamada para integrar o grupo de improvisação que se tornaria um dos mais influentes da história da televisão canadense.
No elenco do programa Second City Television (SCTV), dividiu cena com nomes como Eugene Levy e John Candy e ajudou a moldar um tipo de humor marcado pelo absurdo, pela ironia e pela observação afiada do comportamento humano. O programa se tornou um marco cultural no Canadá — e um trampolim para sua carreira internacional.
O’Hara costumava creditar suas origens canadenses à forma como enxergava a comédia. Em entrevistas, dizia que crescer em um país menos tomado pelo nacionalismo a ensinou a “não se levar tão a sério” — algo que se tornaria uma de suas marcas registradas.
A mãe de Kevin, em Esqueceram de mim
Poucas atrizes conseguiram criar personagens tão diferentes , e igualmente memoráveis, ao longo de uma mesma carreira. No cinema, talvez o momento mais emblemático de Catherine tenha sido o grito desesperado de “Kevin!” em Esqueceram de Mim. Como Kate McCallister, a mãe que esquece o filho em casa às vésperas do Natal, ela transformou um papel secundário em um dos retratos maternos mais lembrados da comédia, equilibrando humor, aflição e afeto.
Em Beetlejuice (1988), O’Hara deu vida à excêntrica Delia Deetz, artista performática, madrasta indiferente e figura central de uma das cenas mais icônicas da história do cinema: a sequência musical de “Day-O (The Banana Boat Song)”. Com humor calculado e um senso agudo de estranheza, a atriz transformou o exagero em linguagem cênica e ajudou a consolidar a identidade do filme de Tim Burton, equilibrando o grotesco e o cômico com precisão rara.
Décadas depois, quando muitos artistas já estariam se despedindo dos grandes papéis, Catherine O’Hara viveu um raro renascimento criativo. Em Schitt’s Creek, interpretou Moira Rose, uma ex-estrela de novelas marcada por figurinos extravagantes, sotaques mutantes e falas que rapidamente se tornaram virais. O personagem conquistou o público durante a pandemia e rendeu prêmios importantes à artista. Além disso, apresentou O´Hara a uma nova geração de fãs, transformando-a em ícone pop após anos de Hollywood.
Mesmo fora dos holofotes principais, sua versatilidade sempre esteve presente. No início da carreira, interpretou dezenas de personagens no SCTV, demonstrando uma capacidade única de transitar entre o grotesco e o sutil. Já nos últimos anos, viveu a executiva Patty Leigh em The Studio, sátira sobre os bastidores da indústria cinematográfica, provando que seu timing cômico e sua presença de cena permaneceram afiados até o fim.
Homenagens e legado
A morte da atriz provocou uma onda de homenagens. O cineasta Ron Howard O’Hara de “uma artista brilhante e uma colaboradora extraordinária”. Já Macaulay Culkin, seu filho fictício em Esqueceram de Mim, publicou uma mensagem comovente nas redes sociais, referindo-se a ela como “mamãe” e lamentando o tempo que ainda gostaria de ter ao seu lado.
Catherine O’Hara deixa o marido, o designer de produção Bo Welch, e dois filhos. A família informou que fará uma cerimônia privada de despedida.
Mais do que prêmios ou personagens, O’Hara deixa um legado difícil de medir: a prova de que a comédia pode ser exagerada sem ser vazia, excêntrica sem perder humanidade e, acima de tudo, profundamente verdadeira.
Ela fez do riso uma forma de inteligência — e da estranheza, uma arte.
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